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Em maio de 1991, há 35 anos, o cosmonauta Sergei Krikalev partiu da Terra com um objetivo claro: uma missão de rotina a bordo da estação espacial Mir. Engenheiro de voo experiente, ele decolou da União Soviética (URSS) como parte da tripulação da Soyuz TM-12. O que ele não poderia prever era que, enquanto realizava experimentos científicos e manutenções técnicas a 400 quilômetros de altura, o chão geopolítico sob seus pés desapareceria completamente. Krikalev acabaria entrando para a história como o homem que foi “esquecido” no espaço por quase um ano.
A estadia, originalmente planejada para durar poucos meses, foi estendida pela primeira vez em julho de 1991. Devido a ajustes operacionais e cortes de custos, o cronograma foi alterado, exigindo que ele permanecesse em órbita até a próxima tripulação, prevista para outubro. No entanto, o cenário piorou drasticamente quando a crise política na Terra atingiu o ápice. Com o processo de dissolução da União Soviética, o suporte terrestre entrou em colapso burocrático e o financiamento para o resgate simplesmente evaporou. Enquanto líderes mundiais redesenhavam mapas, Krikalev flutuava em uma “prisão” orbital, ouvindo notícias sobre tanques nas ruas de Moscou através de frequências de rádio amador.
A sobrevivência na Mir tornou-se um desafio físico e mental. Com o país sem recursos para enviar um substituto, Krikalev enfrentou o dobro do tempo de exposição à radiação e os efeitos severos da microgravidade, como a atrofia muscular. A escassez era tamanha que a estação dependia de missões comerciais para receber suprimentos básicos. Ironicamente, o cosmonauta só conseguiu retornar em 25 de março de 1992, após 311 dias consecutivos no espaço, porque a Alemanha pagou US$ 24 milhões à nova Federação Russa para garantir o assento de seu próprio astronauta em uma missão de resgate conjunta.
Ao pousar nas estepes do Cazaquistão, a imagem de Krikalev correu o mundo: pálido, exausto e vestindo um uniforme com a bandeira vermelha e a sigla CCCP de um país que não existia mais. Ele havia partido de Leningrado e retornado para São Petersburgo; saíra como oficial soviético e voltara como cidadão russo. Além do choque cultural, ele carregava consigo uma curiosidade científica: devido à dilatação temporal causada pela alta velocidade orbital, Krikalev retornou 0,02 segundos mais jovem do que se tivesse ficado na Terra, tornando-se um dos maiores viajantes do tempo da história.
Apesar do trauma do isolamento, o legado de Krikalev é de resiliência. Condecorado como Herói da Rússia e da União Soviética, ele continuou sua carreira e foi peça fundamental na construção da Estação Espacial Internacional (ISS), simbolizando a transição da rivalidade da Guerra Fria para a cooperação global na exploração do cosmos.
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