O prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos), conhecido como “prefeito tiktoker”, por sua onipresença nas redes sociais, encontrou um adversário que nem o melhor algoritmo conseguiu conter: a vida real. Recentemente, Manga foi alvo de denúncias ao Ministério Público após servidores municipais afirmarem que o prefeito teria ordenado a abertura de um buraco em uma rua apenas para simular um conserto em tempo recorde para seus seguidores.
O episódio, ocorrido no bairro Jardim Leocádia, rapidamente furou a bolha do TikTok e virou uma crise política. Segundo as denúncias, o asfalto estava intacto até a chegada da equipe de filmagem; o buraco foi cavado, o prefeito gravou a “solução imediata” e o local foi fechado logo em seguida. A cena, digna de uma esquete de humor, rendeu a Manga o apelido de “Novo Odorico Paraguassu”.
Acusações de Improbidade Administrativa
O caso não ficou apenas na piada. Representações feitas por opositores e pelo ex-prefeito José Crespo apontam para crime de improbidade administrativa, uso indevido de recursos públicos e até falsificação de documentos, já que ordens de serviço teriam sido forjadas para dar ar de legalidade à “obra cenográfica”.
Enquanto a defesa da prefeitura alega que houve, de fato, uma manutenção de esgoto necessária, a opinião pública não perdoou o excesso de marketing sobre a gestão.
Investigação no Ministério Público de São Paulo
A denúncia protocolada no Ministério Público de São Paulo (MP-SP) retira o caso da esfera do humor e o coloca no Código Penal e na Lei de Improbidade Administrativa. A acusação sustenta que o uso de máquinas, combustível e pessoal do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) para criar um cenário inexistente configura gasto desnecessário de dinheiro público.
Se ficar provado que as ordens de serviço foram emitidas retroativamente para justificar a abertura do buraco após o fato ter ocorrido, os envolvidos podem responder pela adulteração de documentos públicos.
Quem foi Odorico Paraguassu?
Para entender a comparação, é preciso voltar à teledramaturgia brasileira. Odorico Paraguassu é o protagonista da obra O Bem-Amado (1973), escrita por Dias Gomes e imortalizada pelo ator Paulo Gracindo.Odorico era o prefeito da fictícia cidade de Sucupira. Um político corrupto, demagogo e dono de um vocabulário pomposo e inventado (os famosos “odoriquismos”), ele tinha uma única e obsessiva meta de governo: inaugurar o cemitério municipal.
O problema é que ninguém morria em Sucupira. Para resolver esse “empecilho” ao progresso, Odorico tentava de tudo: desde importar um defunto de fora até contratar um matador profissional, o Zeca Diabo – protagonizado por Lima Duarte – para garantir o primeiro “cliente” de sua obra.
O Símbolo do Folclore Político Brasileiro
Odorico Paraguassu tornou-se o maior símbolo do folclore político brasileiro, representando o governante que prioriza obras inúteis ou puramente simbólicas para fins de autopromoção, ignorando as reais necessidades da população em troca de um bom palanque — ou, nos dias de hoje, de um bom vídeo para as redes sociais.
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