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Escola usa troca de figurinhas da Copa para ensinar convivência e valores

A chegada da Copa do Mundo costuma mudar a rotina das crianças dentro e fora da escola. Além das partidas e da torcida pelas seleções, o tradicional álbum de figurinhas volta a ocupar espaço nas mochilas, nos recreios e nas conversas entre os estudantes. Diante desse cenário, muitas instituições enfrentam um velho dilema: permitir ou proibir as trocas no ambiente escolar.

No Colégio Cristão Reverendo Olavo Nunes, em Porto Alegre, a decisão foi transformar a febre das figurinhas em uma ferramenta educativa. Em vez de vetar a prática, a escola criou regras para organizar as trocas e utilizá-las como instrumento de formação, convivência e desenvolvimento de habilidades socioemocionais.

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TROCAS TERÃO REGRAS E ACOMPANHAMENTO

Para evitar conflitos e garantir um ambiente organizado, as trocas acontecem apenas em datas previamente definidas pela coordenação pedagógica. A atividade é realizada durante as aulas de Educação Física, sob supervisão de um monitor, e somente entre estudantes da mesma turma.

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Além disso, a instituição proibiu práticas como o tradicional jogo de “bafo” e determinou que todas as negociações ocorram exclusivamente nos momentos autorizados.

MUITO ALÉM DA BRINCADEIRA

Segundo os educadores, o álbum da Copa desperta uma série de comportamentos que podem servir como oportunidades de aprendizagem. Questões como desejo, paciência, frustração, generosidade, justiça, consumo, comparação e pertencimento aparecem naturalmente durante as trocas e podem ser trabalhadas de forma pedagógica.

Para a diretora pedagógica do Colégio Reverendo, Túria Ruiz, a escola deve enxergar esses momentos como parte da formação integral dos alunos. “Na educação cristã clássica, olhamos para a rotina escolar como espaço de formação integral. Uma troca de figurinhas pode parecer apenas uma brincadeira, mas também revela como a criança lida com desejo, limite, justiça, generosidade e domínio próprio. O papel da escola não é apenas permitir ou proibir, mas orientar para que essas situações formem virtudes e não reforcem comparação, ansiedade ou disputa”, afirma.

FORMAÇÃO DO CARÁTER ACONTECE NO COTIDIANO

De acordo com a diretora, situações aparentemente simples revelam aspectos importantes do desenvolvimento infantil. Uma criança que insiste em conseguir uma figurinha rara, tenta obter vantagem em uma negociação, se frustra após uma troca ou exclui colegas que não possuem álbum oferece oportunidades concretas para o trabalho educativo.

“Quando a criança aprende a esperar, a trocar com honestidade, a respeitar combinados, a incluir o colega e a lidar com o não, ela está sendo educada para muito além daquele momento. A brincadeira pode ser formativa quando existe sentido, limite e orientação”, destaca Túria.

PSICÓLOGA ALERTA PARA RISCOS DA COMPARAÇÃO

A psicóloga escolar Antonella Bongarra Nunes ressalta que o álbum pode fortalecer amizades e estimular momentos de convivência, mas também exige atenção dos adultos. Segundo ela, algumas crianças podem associar seu valor pessoal à quantidade de figurinhas ou à posse de exemplares considerados raros.

“As figurinhas podem ser ponto de encontro, mas também podem virar fonte de sofrimento quando a criança sente que vale menos porque não tem álbum, não tem pacotes ou não consegue determinada figurinha. Nesses casos, os adultos precisam ajudar a recolocar a experiência no lugar certo. É uma brincadeira, não uma medida de valor pessoal”, afirma.

DIFERENÇAS ENTRE FAMÍLIAS EXIGEM MEDIAÇÃO

Para a psicóloga, a escola também precisa observar as desigualdades que aparecem naturalmente durante a coleção. Enquanto algumas crianças recebem muitos pacotes de figurinhas, outras têm poucos ou sequer conseguem participar da brincadeira.

Sem acompanhamento, essas diferenças podem gerar exclusão, constrangimento e disputas. “O recreio é um espaço de convivência, não de mercado. Quando a troca vira vantagem, pressão ou disputa, a escola precisa intervir. Não necessariamente proibindo, mas orientando. A criança precisa aprender que brincar junto é mais importante do que ganhar a qualquer custo”, explica.

COPA TAMBÉM PODE ENRIQUECER AS AULAS

Além do aspecto socioemocional, o álbum da Copa oferece diversas possibilidades pedagógicas. O interesse pelas seleções pode estimular conteúdos relacionados à geografia, história, idiomas, matemática, leitura, produção textual, classificação de informações e diversidade cultural.

Na perspectiva da educação cristã clássica adotada pela instituição, porém, o principal objetivo continua sendo a formação das virtudes. Mais do que observar quem completa o álbum primeiro, a escola busca incentivar comportamentos como honestidade, gratidão, partilha, respeito às regras e inclusão dos colegas.

FAMÍLIAS TAMPÉM PARTICIPAM DA FORMAÇÃO

Antonella destaca que a coleção de figurinhas também pode servir como oportunidade para conversas entre pais e filhos sobre consumo, orçamento, espera e frustração. Segundo ela, nem todo desejo infantil precisa ser atendido imediatamente. 

“Famílias podem usar esse momento para conversar sobre orçamento, espera, escolha e limites. A criança não precisa ter tudo para participar. Aprender a lidar com a frustração de maneira acompanhada é saudável e necessário”, afirma.

BRINCADEIRA PODE ENSINAR MUITO ALÉM DO FUTEBOL

Para a diretora Túria Ruiz, momentos cotidianos frequentemente exercem papel decisivo na construção do caráter. “Muitas vezes, o caráter é formado em situações simples. A forma como uma criança troca uma figurinha, reage a uma perda ou inclui um colega revela muito. A escola precisa olhar para esses momentos com intencionalidade, porque eles também educam”, conclui.

Na avaliação dos profissionais da instituição, o desafio não está em permitir ou proibir as figurinhas, mas em orientar a experiência para que ela fortaleça a convivência, a cooperação e o desenvolvimento das crianças, transformando uma paixão típica das Copas do Mundo em mais uma oportunidade de aprendizagem.

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