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Igrejas de pedra guardam a memória de cidade histórica na Amazônia

Igrejas de pedras de Vigia de Nazaré. Foto celso Rodrigues/ Diario do Pará.

De frente para o rio Guajará-Mirim, a imponente construção de pedras sobrepostas se impõe no cenário da Vigia de Nazaré. Oficialmente denominada Capela do Senhor dos Passos, a histórica Igreja de Pedra é o principal cartão postal do município localizado no nordeste paraense. Mais do que isso, a edificação marca um importante episódio da história do Brasil colonial. Esse episódio é a expulsão dos jesuítas dos domínios portugueses, incluindo suas colônias, como era o caso da área que hoje compreende Vigia de Nazaré.

Ordem religiosa ligada à Igreja Católica e que tinha como missão a catequização dos nativos através do ensino, os padres jesuítas tiveram papel importante no Brasil colonial. Como prática comum, eles se faziam presentes em algum vilarejo e logo se preocupavam em construir um colégio e, bem ao lado, uma igreja que possibilitasse o exercício de suas práticas religiosas. Da mesma forma, o mesmo ocorreu em Vigia. Isso resultou na construção da Igreja da Madre de Deus, a Igreja Matriz de Vigia, que homenageia Nossa Senhora de Nazaré. 

Herança do período colonial

Mas se a Igreja Matriz marca o início da presença jesuítica no município, a Igreja de Pedra registra exatamente o fim desta relação. Edificado com pedras sobrepostas e sem reboco, o templo começou a ser erguido em 1739. No entanto, não conseguiu ser concluído antes que os padres jesuítas fossem expulsos do Brasil pela coroa portuguesa, em 1759.

A edificação foi abandonada da forma que estava, apenas com as paredes que comporiam a área do altar e sem telhados. A construção permaneceu assim até meados do século XX. Em seguida, foram iniciadas as obras para finalizar o templo, inserindo a estrutura da cobertura, portas e janelas.

Igrejas de pedra guardam a memória do período da fundação de Vigia Foto Celso Rodrigues/ Diario do Pará.

O escritor, pesquisador e memorialista vigiense Raul Lobo explica que os responsáveis pela construção da igreja de pedra eram os padres jesuítas, mas a mão de obra utilizada era de negros e indígenas. “Exatamente no momento que a Igreja de Pedra estava sendo construída, os jesuítas foram expulsos do Brasil, em 1759. Nesse período, eles foram perseguidos e quem não conseguiu fugir, foi preso. Com isso, a obra ficou inacabada”, destaca. “Ela só foi tomar um certo formato já nos anos 30”.

Ainda na década de 1930, Raul Lobo conta que a edificação inacabada passou por uma importante alteração. O intendente do município à época deu ordem para que fossem demolidas as paredes laterais da igreja para fazer o cais de arrimo e o alicerce da usina de força e luz da cidade. Essa foi a primeira descaracterização do templo. O memorialista aponta que, até hoje, ao descer na beira-mar, é possível ver o cais de arrimo feito de pedras superpostas.

A mobilização que reativou a igreja

Foi muito tempo depois que a igreja começou a sofrer intervenções para que começasse a receber atividades religiosas.

“Já muito adiantado no tempo, tinha uma família aqui em Vigia, a família do seu Júlio Bulhões, que tinha um poder aquisitivo altíssimo, ele era comerciante e tinha muitas embarcações de pesca. Ele e a esposa, Dona Maritó, eram devotos de Bom Jesus, que foi uma imagem que foi deixada na Igreja de Pedra não pelos jesuítas, mas pelos frades carmelitas descalços que aqui também se instalaram e pregavam a festa do Senhor dos Passos”, contextualiza.

“Então, por serem devotos, eles começaram a esmolar, fazer a arrecadação de recursos para fazer alguma coisa para que a igreja começasse a funcionar”.

Graças às esmolações promovidas por Dona Maritó e Júlio Bulhões, foi possível colocar a igreja em funcionamento.  O casal conseguiu recursos para fechar o Arco Cruzeiro da construção, que é o limite da capela mor com a nave central. Também fizeram um coro e o telhado. “Eles fizeram tudo que podiam fazer para que pudesse funcionar como uma igreja. E por muito tempo eles tomaram conta da igreja que tinha celebrações de vez em quando, uma vez no mês”, aponta Raul Lobo.

“Então, até os anos 70, a família da Dona Maritó ainda tinha domínio sobre a igreja. Depois passou para outras famílias porque era assim que funcionava. Eram indicadas famílias para serem zeladores daquela igreja. Por último, formaram uma comissão de quatro senhoras e a minha mãe era uma delas”.

Outro marco da interrupção de intervenções sofridas pela igreja explica o fato de ela ser chamada de Capela do Senhor dos Passos. “Ela ficou conhecida assim porque a única parte que sobrou da igreja foi exatamente a capela-mor. A igreja estava sendo construída para ser muito maior, ela seria composta da capela-mor e da nave central que ia até o nível da rua, onde hoje é a Rua Noêmia Belém.

Mas nos anos 1980, o prefeito Nonato Vasconcelos fez aquela urbanização na frente da igreja, aquela praça. Ele mandou passar o trator para nivelar a igreja com a rua, já que a igreja era bem alta. Por isso ficou aquela praça mais baixa e só a parte da capela mais alta. Então, é chamada capela porque a única coisa que restou foi a capela-mor”, explica Raul Lobo.

Com o decorrer dos anos, o município de Vigia foi se desenvolvendo cada vez mais. Melhorias foram realizadas, e a atuação de outra ordem religiosa também exerceu influência sobre o funcionamento da Igreja de Pedra.

“Melhorou muito quando os Padres Barnabitas chegaram em Vigia e formaram as comunidades em cada bairro. Os Barnabitas chegaram em Vigia na década de 1990 e, quando eles vieram, a comunidade começou a ter missa todo final de semana, veio a questão da catequese para a primeira eucaristia, crisma, toda a parte litúrgica da igreja passou a funcionar e até hoje funciona”, pontua.

“Hoje, ela é o principal cartão postal de Vigia, assim como o mercado do Ver-o-Peso é o cartão postal de Belém. Quando aparece uma imagem do Ver-o-Peso, as pessoas logo associam a Belém; quando veem a Marujada, associam a Bragança e a Igreja de Pedra logo se associa a Vigia. Cada cidade tem um cartão postal que é a sua identificação para a sociedade”.

Vigia tem outra igreja de pedra

Não bastasse a importância simbólica e a referência deixada pela Capela do Senhor dos Passos, ela não é a única construção em pedra presente no município. Distante pouco mais de 20 km do centro da cidade, na Vila de Santa Maria do Guarimã, outra edificação religiosa desperta atenção em quem passa pela estrada. Trata-se da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré.

Com a fachada também em pedra aparente, a construção é marcada por um frontão central de linhas curvas e coroado por uma cruz metálica. Nas extremidades, duas torres abrigam sinos e, no térreo, três portas altas formam a entrada principal.

Tendo a belíssima construção como vizinha, a aposentada Maria Monteiro, 89 anos, conta que pouco se sabe sobre a história da igreja, a não ser que ela é uma edificação centenária. “A história que falam é que essa igreja é centenária, a igreja de pedra. Ela sempre foi assim. Eu moro aqui há 40 anos. Pra mim é uma bênção poder morar tão pertinho dela, de frente. Ela tem missa sempre, nos domingos”, conta, ao lembrar que ela também já passou por modificações.

Dona Maria Monteiro. Foto Celso Rodrigues/ Diario do Pará.

“Agora, recentemente, fizeram uma reforma e trocaram as portas que eram todas de madeira e já fizeram de vidro, modificaram. Em cima ela era coberta com aquelas telhas grandes, antigas, agora já está com outra telha. E dentro, o piso também era pedra, mas hoje é azulejo. É a Igreja de Nossa Senhora de Nazaré”.

Ainda que algumas pessoas logo questionem se a construção também não teve participação dos jesuítas, até o momento não há nenhum registro documental que confirme essa relação. Mesmo assim, o memorialista e pesquisador Raul Lobo lembra que o uso de pedras sobrepostas em diferentes construções da época, não apenas em templos e igrejas, era comum.

Raul Lobo. Foto Celso Rodrigues/ Diario do Pará.

“Não há nenhum registro que eu conheça que aponte que ela seja uma construção dos jesuítas. Pode ser uma construção dos próprios moradores da comunidade lá atrás. Naquela época, não tinha tijolo e nem cerâmica, então, as construções eram de pedra, assim como muitas casas eram. Em Belém mesmo, você tinha muitas casas feitas de pedras sobrepostas ali onde hoje é a Cidade Velha”.

Museu registra história do município

Mais do que a memória viva preservada nas edificações religiosas de Vigia de Nazaré, o município tem sua história lembrada também no museu da cidade. Localizado na Rua Professora Noêmia Belém, no Centro, o Museu da Cidade da Vigia resume mais de quatro séculos de memórias e cultura.

“Na primeira sala você encontra toda a história de Vigia, a sua fundação, a sua religiosidade, a sua cultura, o modo de vida das pessoas. É uma sala completa, daqui você sai sabendo tudo sobre Vigia”, apresenta Raul Lobo. “Tem outra sala que fala sobre o Patrono de Vigia, que é o Barão de Guajará, tem a sala da pesca, tem a sala do artesanato, tem a sala do Círio, além de uma sala de exposições temporárias, um auditório e o café. É um museu que dá orgulho de vir em Vigia e conhecer”.

Igrejas de pedra guardam a memória do período da fundação de Vigia Foto Celso Rodrigues/ Diario do Pará.

Com 410 anos de história, a contar da colonização, o município de Vigia foi fundado pelo mesmo navegador português que fundou a capital paraense, Francisco Caldeira Castelo Branco. Ainda em meados do século XVII, a então coroa portuguesa tomou conhecimento da passagem do francês Daniel de la Touche por terras ao Norte do Brasil. Por isso, não hesitou em enviar uma expedição que pudesse expulsar os franceses e assegurar o domínio de Portugal.

Ainda que no nordeste paraense já estivessem presentes os índios Tupinambás, que viviam na aldeia nomeada Uruitá, a chegada da expedição de conquista do Grão-Pará comandada por Castelo Branco marcou a fundação oficial do que hoje é o município de Vigia de Nazaré, em 6 de janeiro de 1616. Seis dias depois, o mesmo Castelo Branco viria a fundar Belém.

Dentre as edificações representativas da época da colonização e que ajudam a registrar essa memória, estão as igrejas de pedra. Até hoje, essas igrejas atraem a atenção de turistas e visitantes que passam pelo município.

VISITE

O Museu da Cidade da Vigia funciona de 15h às 19h nas segundas-feiras; de 9h às 12h e de 15h às 19h de terça a sexta-feira; e de 9h às 12h nos sábados. Além disso, o café do museu funciona de segunda a sexta-feira, de 16h às 19h. 

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