Lucas Quirino/DOL – Belém se tornou, nesta edição da COP30, o palco de uma mobilização histórica dos povos indígenas do Brasil e do mundo. Em meio às discussões globais sobre o futuro do planeta, lideranças tradicionais de diferentes biomas, etnias e regiões do país vêm reafirmando um recado uníssono: não há combate à crise climática sem a proteção dos territórios e o reconhecimento dos povos originários como guardiões da natureza.
Representantes indígenas participam de painéis, apresentações culturais e encontros bilaterais com delegações estrangeiras e autoridades brasileiras. Os espaços foram concebidos para garantir visibilidade e protagonismo às vozes que historicamente preservam os ecossistemas mais ameaçados do planeta.
Segundo Naira Kaxuyana, assessora internacional do Ministério dos Povos Indígenas, o governo federal está empenhado em fazer da COP30 a conferência com maior participação indígena da história.

“Temos várias linhas de atuação. Uma delas é a organização da Aldeia COP, e outra é o fortalecimento das plataformas indígenas dentro da UNFCCC. Criamos o Círculo dos Povos e o Círculo dos Povos Afrodescendentes para garantir que essas vozes sejam ouvidas. Os povos indígenas não são apenas vítimas da crise climática — são protagonistas das soluções”, afirmou ela.
Entre os representantes presentes está cacique Sílvio Santana, do povo Guajajara, do território indígena Arariboia, no Maranhão. O líder trouxe para a conferência uma proposta inédita: a criação da primeira universidade indígena dentro de uma terra indígena. O projeto é desenvolvido pelo Instituto Tucano, organização fundada e presidida por ele.

“Nossa vinda à COP30 é uma proposta de esperança. A questão do clima não depende só dos povos, depende da humanidade. Se o mundo não tiver consciência de preservar, nós sozinhos não daremos conta. A universidade indígena é um caminho, não uma salvação, mas uma alternativa para a humanidade aprender com a nossa forma de cuidar da Terra”, declarou o cacique.
Do Nordeste, veio a força da resistência do povo Xukuru de Ororubá, de Pernambuco, representado por Maria Adriana Adikaynay, liderança que atua no programa Pindorama Katu, do Ministério dos Povos Indígenas, e integra o primeiro curso de diplomatas indígenas do mundo. Em seu depoimento emocionado, Adriana denunciou os efeitos severos da crise climática sobre o bioma Caatinga — o único exclusivamente brasileiro.
“Nosso povo resiste desde 1500, mas estamos no limite. A Caatinga está secando, nossos reservatórios estão desaparecendo, e temos medo de que as futuras gerações não conheçam nem metade das espécies únicas do nosso território. A resposta para a mudança climática somos nós, os povos indígenas, porque nós amamos a mãe Terra e lutamos por ela até a última vida”, disse Adikaynay.

Já Solange Tupinambá, do povo Tupinambá de Olivença (BA), reforçou que a demarcação dos territórios indígenas é condição essencial para a justiça climática. Ela alertou que não há mitigação possível sem garantir o direito ancestral à Terra.
“Não existe justiça climática sem demarcação territorial. É ela que garante nossa proteção e nos permite continuar sendo guardiões das florestas. Essa é uma demanda que não é só do Brasil — é mundial. Povos indígenas de todos os continentes estão enfrentando invasões e destruição causadas por não indígenas”, enfatizou Solange Tupinambá.

As falas dos povos originários reforçam o sentido simbólico de realizar a COP30 no coração da Amazônia, berço de uma das maiores diversidades culturais e ambientais do planeta. Para as lideranças indígenas, o encontro não deve se limitar aos compromissos diplomáticos, mas precisa resultar em políticas concretas de financiamento climático, valorização dos saberes tradicionais e reconhecimento da autonomia dos povos originários.
Ao ecoarem suas vozes em Belém, os povos indígenas reafirmam o que a ciência já vem confirmando: proteger as florestas e enfrentar as mudanças climáticas é impossível sem garantir os direitos de quem sempre as protegeu.
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