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Manicure, sem filhos e “limpa”: audiência de custódia de Evellyn Dantas mostra cenário que antecedeu a execução

Termo judicial registra acusações relacionadas à Lei de Drogas e ao Estatuto do Desarmamento. Foto: divulgação/reprodução

A história de Evellyn Lima Dantas terminou de forma violenta, mas começou a ganhar repercussão por outro motivo. Influenciadora nas redes sociais, ela passou de investigada pela morte de um sargento da Polícia Militar a vítima de uma execução dentro da própria casa, em Mãe do Rio, no nordeste do Pará. Entre uma ponta e outra da história estão uma prisão, uma decisão judicial, a liberdade provisória, um suposto alerta de comparsas, a ameaça de avanço de uma facção e uma investigação que agora tenta descobrir quem ordenou sua morte.

O caso também ganhou dimensão nas redes sociais. Antes da prisão relacionada à investigação da morte do sargento, Evellyn Dantas, 21 anos, tinha cerca de 17 mil seguidores. Com a repercussão do caso policial, o número disparou. Em 31 de julho, o perfil já havia ultrapassado 24,6 mil seguidores. Poucos dias depois, em 3 de agosto, a conta chegou a 29,6 mil seguidores, conforme registro do perfil. A exposição provocada pela investigação, portanto, multiplicou a audiência da influenciadora em um curto período.

Não é possível mais verificar essa contagem porque o perfil em questão, @byevellyn_ofcl no Instagram consta como desativado.

Agora, porém, a principal questão deixou de ser o crescimento do perfil. A Polícia Militar e a Polícia Civil investigam a execução de Evellyn e trabalham com a possibilidade de que ela tenha sido morta em uma ação de retaliação ligada à disputa entre grupos criminosos.

Antes da investigação da morte do sargento

Um documento da Vara Única da Comarca de Mãe do Rio mostra que Evellyn já havia passado pelo sistema de Justiça antes de ser investigada pela morte do sargento Antônio Anildo Alves.

O termo de audiência de custódia anexado ao caso registra uma audiência realizada em 30 de abril de 2026, na presença do juiz Diogo Bonfim Fernandez, do Ministério Público e da defesa de Evellyn. O documento aponta que ela respondia a acusações relacionadas à Lei de Drogas, artigo 33, e ao Estatuto do Desarmamento, artigo 16.

Durante a audiência, a defesa pediu a revogação da prisão, além da aplicação de medidas cautelares alternativas ou do uso de tornozeleira eletrônica. O Ministério Público, por outro lado, pediu a manutenção da prisão. O termo registra ainda que Evellyn afirmou ter sofrido agressão no momento da prisão. Diante das circunstâncias relatadas, o juiz determinou a realização de novo exame de corpo de delito.

O documento judicial tem uma particularidade que merece registro: embora o termo indique a audiência em 30 de abril, a certificação eletrônica do documento aparece com data de 31 de julho de 2026. Por isso, a documentação deve ser apresentada com essas datas exatamente como consta nos autos, sem presumir que se trata da mesma prisão ocorrida no fim de julho.

Morte de sargento e ascensão nas redes sociais

Em 29 de julho, o sargento da reserva Antônio Anildo Alves, conhecido como “Boçal”, foi morto a tiros no centro de Mãe do Rio. O ataque ocorreu no fim da tarde, nas proximidades de um supermercado.

A investigação mobilizou forças de segurança e desencadeou uma série de operações para localizar suspeitos. Segundo os materiais reunidos no caso, Evellyn passou a ser investigada por suposto apoio logístico ao grupo apontado como responsável pela execução do policial.

A partir daí, a influenciadora passou a ocupar o centro das atenções nas redes sociais. A conta, que antes reunia cerca de 17 mil seguidores, avançou rapidamente após a divulgação de informações sobre a investigação.

Em poucos dias, o perfil ultrapassou 22 mil seguidores. Depois, chegou a 24,6 mil. Já no início de agosto, alcançou 29,6 mil, ficando a poucos passos da marca de 30 mil. O perfil em questão hoje consta como desativado.

Curiosidade dos internautas mantém perfil em ritmo acelerado de crescimento. Registro feito antes das 21h30 de segunda-feira, 3 de agosto Foto: divulgação/reprodução

Esse crescimento ocorreu em meio à circulação de notícias, vídeos e imagens relacionadas ao caso. A exposição policial, portanto, coincidiu com uma forte expansão da audiência digital de Evellyn.

Prisão, liberdade e alerta de execução

A investigação contra Evellyn ganhou outro capítulo quando ela foi presa. Posteriormente, porém, ela deixou a prisão e passou a cumprir liberdade provisória, segundo as informações divulgadas no decorrer da apuração.

É justamente esse período de liberdade que se torna importante para entender os últimos dias da influenciadora.

Segundo a Polícia Militar, Evellyn havia deixado a prisão poucos dias antes de ser assassinada. O comandante do 19º Batalhão, tenente-coronel Rodrigo, afirmou que ela fornecia informações consideradas importantes e que essa circunstância passou a integrar uma das linhas investigativas.

“A guarnição foi acionada por volta das 4h da manhã, após relatos de disparo próximo da unidade básica de saúde do bairro de São Francisco e encontraram ela morta. A principal testemunha é o pai da vítima. Os autores fugiram e ainda não foram identificados, mas deixaram a sigla TCP na fachada da casa.”

A declaração foi dada durante a atualização sobre o caso. Segundo o oficial, a polícia ainda não havia identificado autores ou mandantes.

Um alerta antes da execução

Um dos elementos mais importantes da investigação surgiu depois da morte.

Um suposto print de uma conversa pelo WhatsApp indica que Evellyn teria recebido um alerta de um comparsa sobre a presença do Terceiro Comando Puro, o TCP, na região.

Na conversa, atribuída à influenciadora e a um interlocutor, aparece a seguinte sequência:

“Liberdade cantou, como tá a visão?”

A resposta teria sido:

“Tá esperta na tua área? Os pnc do TCP tão querendo ganhar território”

Evellyn então teria perguntado:

“Tô ligada, qual o papo deles?”

A orientação recebida foi direta:

“tenta sair fora daí, vem pra Penha”

O conteúdo do suposto diálogo é tratado como elemento da investigação, e não como prova definitiva da dinâmica do crime.

A referência à Penha, no Rio de Janeiro, ganhou peso porque a região é apontada como uma das principais bases do Comando Vermelho. Já o TCP é tratado nos materiais como grupo rival, com atuação associada ao Complexo de Israel.

Execução e disputa entre facções

Apesar do alerta, Evellyn permaneceu em Mãe do Rio.

Na madrugada de 16 de setembro, dois homens teriam invadido a residência onde ela estava. Segundo as informações reunidas pela reportagem, os suspeitos retiraram a influenciadora do imóvel à força e a levaram para a área externa.

Câmeras de segurança registraram praticamente toda a ação. As imagens mostram a movimentação dos envolvidos e a retirada da vítima da residência. Depois, Evellyn teria sido colocada de joelhos diante dos criminosos. Os disparos foram registrados pelas câmeras.

Após o assassinato, os suspeitos deixaram o local em um carro. Na parede da residência, ficou registrada a sigla “TCP”, acompanhada de uma Estrela de Davi.

A marca deixada no imóvel passou a ser um dos principais elementos para a hipótese de que a morte tenha relação com uma disputa entre facções. Até o momento, porém, a autoria e a motivação não foram oficialmente esclarecidas.

Por que o TCP entrou na investigação?

O Terceiro Comando Puro aparece no caso por causa da sigla deixada na casa e do suposto diálogo que teria alertado Evellyn sobre o avanço do grupo.

Os materiais reunidos apontam que o TCP surgiu como uma dissidência do Comando Vermelho e tem como referência territorial o Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Já o CV mantém bases importantes nos complexos da Penha e do Alemão.

A disputa entre os grupos ganhou força no Rio de Janeiro nos últimos meses. Segundo reportagem citada nos documentos, bairros da Zona Norte, como Cordovil, Brás de Pina e Vigário Geral, registraram confrontos e mortes durante a disputa territorial.

No caso paraense, entretanto, a relação entre essa disputa e a execução de Evellyn ainda é uma hipótese investigativa. Não há, nos materiais analisados, confirmação de que uma das facções tenha ordenado o assassinato.

Linhas de investigação: retaliação ou queima de arquivo

O comandante do 19º BPM afirmou que a polícia considera a possibilidade de retaliação ou queima de arquivo.

Segundo o tenente-coronel Rodrigo:

“Vale ressaltar que a Evelyn fornecia informações importantes, por isso trabalhamos fortemente com a hipótese de retaliação ou queima de arquivo. Estamos intensificando as buscas para captar os executores e os mandantes da morte de Evelyn”

A declaração mostra que a investigação não se limita a identificar quem aparece nas imagens. A polícia também busca descobrir quem teria determinado a execução.

Escalada de violência e mortes

A morte de Evellyn aconteceu depois de uma escalada de violência iniciada com o assassinato do sargento Antônio Anildo Alves.

De acordo com os materiais reunidos no caso, outras 10 pessoas morreram em confrontos com policiais após a execução do militar. Com a morte da influenciadora, o número chegou a 11 mortos no contexto da sequência de operações e crimes desencadeados pelo assassinato do sargento.

As primeiras mortes ocorreram durante as ações policiais para localizar suspeitos da execução de Alves. A violência depois atingiu outros municípios paraenses, onde investigados morreram durante confrontos com as forças de segurança.

A morte de Evellyn, contudo, tem uma diferença fundamental: ela não morreu em confronto com a polícia. A investigação aponta para uma execução dentro de sua residência, possivelmente ligada à disputa entre grupos criminosos.

Perguntas sem resposta e o futuro da investigação

Apesar dos novos elementos, ainda existem perguntas sem resposta.

Quem mandou matar Evellyn Dantas?
O TCP realmente está por trás da execução?
A sigla deixada na parede foi uma assinatura dos autores ou uma tentativa de confundir a investigação?
O alerta recebido por Evellyn partiu de alguém que tinha informações concretas sobre a ameaça?
A morte teve relação direta com a investigação sobre o assassinato do sargento Alves?

Por enquanto, nenhuma dessas perguntas tem resposta definitiva.

A Polícia Civil do Pará investiga a morte da influenciadora, enquanto a Polícia Militar mantém buscas pelos responsáveis. Segundo a atualização divulgada pelo 19º BPM, autores e mandantes ainda não haviam sido identificados.

O caso, portanto, reúne duas histórias que se cruzaram em poucos meses: a de uma jovem que ganhou milhares de seguidores justamente quando passou a ser investigada por um crime de grande repercussão e a de uma sequência de violência que começou com a morte de um policial e terminou, até o momento, com a execução da própria investigada.

Evellyn Dantas, que chegou a ficar próxima dos 30 mil seguidores, agora aparece nas redes sociais não mais pelo conteúdo que publicava, mas como personagem central de uma investigação que envolve morte de policial, liberdade provisória, possível disputa entre facções, ameaça, execução e busca por mandantes.

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