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“Favelado matando com CRM”: estudante de Medicina denuncia médico após ataques

João Lucas Brito, de 24 anos, registrou ocorrência após receber comentários ofensivos em publicação com fotos de seu ensaio de formatura.

O estudante de Medicina João Lucas Brito, de 24 anos, denunciou à Polícia Civil de Pernambuco ter sido vítima de ataques racistas depois de publicar nas redes sociais fotos de seu ensaio de formatura. As mensagens partiram de uma conta atribuída a um médico de Brasília e incluíram comentários depreciativos sobre a origem social do jovem e sua futura atuação profissional. O caso está sendo investigado pela Delegacia do Cordeiro, no Recife.

A publicação que desencadeou os ataques foi feita em 1º de setembro. João apareceu usando jaleco, óculos escuros e segurando o livro Sobrevivendo no Inferno, obra que reúne letras dos Racionais MC’s e que, segundo ele, possui forte significado em sua trajetória pessoal.

Em uma das mensagens atribuídas ao médico, o estudante foi atacado pela condição de morador de comunidade. O perfil escreveu: “Saudades de quando favelado não entrava em med… Bons tempos!”. Em outra manifestação, afirmou que João estaria “matando com um carimbo do CRM” quando se tornasse médico.

Antes de excluir os comentários de sua página, João fez capturas de tela para preservar as mensagens. Na sexta-feira (4), procurou a Polícia Civil e registrou boletim de ocorrência por injúria praticada no ambiente virtual. A corporação confirmou que a investigação ficou sob responsabilidade da Delegacia do Cordeiro.

Trajetória de superação e pioneirismo na família

João Lucas mora na comunidade do Cardoso, no bairro da Madalena, Zona Oeste do Recife. Atualmente está no 11º período de Medicina da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), onde estuda com bolsa integral do Programa Universidade para Todos (Prouni). A previsão é concluir a graduação no fim deste ano. Ele será o primeiro médico da família

O caminho até a universidade foi marcado por bolsas de estudo. João contou que também conseguiu frequentar uma escola particular durante o ensino médio porque seu pai trabalha como auxiliar de coordenação na instituição. O benefício permitiu acesso gratuito aos estudos, livros e atividades esportivas.

A escolha de Sobrevivendo no Inferno para aparecer no ensaio também não foi casual. Fã dos Racionais MC’s, João explicou que conhece as músicas reunidas no livro e sempre planejou levá-lo para as fotografias de sua formatura por representar parte de sua história.

Na postagem, o futuro médico destacou justamente a própria origem e o desejo de exercer a profissão voltado à população. “Sei muito bem de onde eu venho e valorizo diariamente os que vieram antes de mim pra tornar esse sonho possível”, escreveu.

Estudante de 24 anos mora em uma comunidade do Recife, é bolsista integral do Prouni e se prepara para ser o primeiro médico de sua família. Ataques começaram depois que João publicou fotos usando jaleco e segurando o livro “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s.

Denúncia e a luta contra o preconceito

João relata que o episódio não foi a primeira experiência de preconceito durante sua formação. Segundo ele, desde que ingressou na faculdade, em 2021, enfrentou situações envolvendo alguns colegas. Ressalta, entretanto, que recebeu acolhimento de professores, funcionários e grande parte dos estudantes da instituição.

Desta vez, decidiu não ignorar os ataques. Ao explicar a decisão de procurar a polícia, afirmou que pretende reagir também em nome de outras pessoas que enfrentaram situações semelhantes sem denunciar.

“Dessa vez não vou deixar passar porque sei que estou representando muita gente que sofreu calada”,

afirmou o estudante.

João também disse não querer que sua trajetória profissional fique resumida ao episódio. Para ele, a denúncia é necessária, mas sua carreira e produção acadêmica devem ocupar espaço maior do que o ataque sofrido.

Doutorado e futuro na psiquiatria

Apesar de ainda não ter concluído Medicina, João já cursa o segundo ano do doutorado em Saúde Integral no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip). Em junho, teve a tese qualificada. A pesquisa aborda desigualdades étnico-raciais e territoriais relacionadas à maternidade na adolescência no Brasil.

Como parte da pesquisa acadêmica, está previsto um intercâmbio no Canadá em 2027. Paralelamente ao doutorado, João cumpre estágio obrigatório em clínica médica no Imip.

Depois da graduação, pretende seguir carreira na psiquiatria e atuar também na comunidade onde vive. Segundo o estudante, a escolha está relacionada ao interesse por uma especialidade que exige conhecimento amplo sobre a realidade dos pacientes e à intenção de contribuir para enfrentar demandas de saúde existentes em seu próprio território.

Legislação e investigação do caso

A ocorrência registrada pelo estudante será apurada pela Polícia Civil de Pernambuco. A legislação brasileira passou a tratar a injúria racial como crime de racismo com a Lei nº 14.532/2023, que alterou a Lei nº 7.716/1989.

A investigação deverá esclarecer as circunstâncias dos comentários e a responsabilidade pelo perfil que publicou as mensagens. Até as informações divulgadas nesta quarta-feira (9), não havia sido apresentada publicamente uma manifestação do médico apontado pelo estudante.

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