O tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo Geraldo Leite Rosa Neto, de 54 anos, voltou a negar a acusação de feminicídio contra a esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, durante um interrogatório que durou mais de oito horas. O oficial, preso preventivamente desde março, insistiu que a mulher tirou a própria vida, apesar de três laudos periciais apontarem inconsistências nessa versão. O depoimento, realizado em 5 de outubro e que teve imagens mostradas pelo programa “Fantástico” da Rede Globo neste domingo (11), antecede a decisão judicial que definirá se ele será submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri.
Gisele morreu em 18 de fevereiro de 2026, após ser atingida por um tiro na cabeça dentro do apartamento onde vivia com o marido, no bairro do Brás, região central da capital paulista. Os dois estavam sozinhos no imóvel. Inicialmente tratada como possível suicídio, a ocorrência passou a ser investigada como crime após a identificação de elementos considerados incompatíveis com a versão apresentada pelo oficial.
Perícia contesta versão do acusado
Segundo as investigações, o disparo que matou Gisele partiu da arma pertencente ao tenente-coronel. Os exames periciais apontaram vestígios que, na avaliação dos especialistas, contradizem a hipótese de que a policial tenha efetuado o disparo contra si mesma.
O laudo complementar mais recente, produzido pelo Instituto de Criminalística de São Paulo, concluiu que a dinâmica identificada na cena não era compatível com suicídio. A análise considerou a distribuição de manchas de sangue, as lesões encontradas no corpo e outros vestígios materiais.
Os peritos também identificaram sinais de violência no rosto da vítima. A conclusão apresentada pela investigação é de que Gisele teria sido surpreendida e atingida por um disparo à queima-roupa.
Apesar dessas conclusões, Geraldo Neto manteve sua versão durante o interrogatório e contestou os resultados das perícias.
Contradições no apartamento
Um dos pontos examinados pela investigação envolve a posição de uma árvore de Natal no apartamento. O tenente-coronel afirmou que estava no banheiro quando ouviu um barulho e, ao sair, encontrou a esposa caída.
Entretanto, uma reprodução simulada apontou que a árvore poderia impedir a visão do local onde Gisele estava. O oficial alegou que o objeto teria sido desmontado e remontado durante os trabalhos periciais, hipótese contestada por imagens de câmeras corporais dos policiais que atenderam à ocorrência.
Outro elemento considerado relevante foi o depoimento de um bombeiro que participou do atendimento. O socorrista relatou não ter observado sinais de água próximos ao banheiro, circunstância que levantou dúvidas sobre a afirmação de que o tenente-coronel estava tomando banho.
O profissional também registrou a posição da arma de fogo junto ao corpo da vítima, situação que chamou sua atenção durante o socorro.
Mensagens revelam conflitos conjugais
A investigação recuperou mensagens trocadas entre Gisele e Geraldo Neto que indicavam desentendimentos e discussões sobre o fim do relacionamento.
Segundo a apuração, parte dessas mensagens havia sido apagada do celular da policial após o disparo. O conteúdo foi recuperado por exames técnicos e passou a integrar o conjunto de elementos analisados pelas autoridades.
Em uma das conversas, Gisele mencionava a possibilidade de formalizar o divórcio. O tenente-coronel contestou a interpretação das mensagens e afirmou que a esposa não demonstrava pessoalmente a mesma intenção de separação.
A defesa também questionou informações sobre a altura da vítima registradas nos laudos, argumento relacionado à possibilidade de ela alcançar a arma que, segundo o oficial, estava guardada sobre um armário.
Essas divergências integram o debate judicial sobre a dinâmica da morte.
Defesa pede liberdade
Além de responder à acusação de feminicídio, Geraldo Leite Rosa Neto é réu por fraude processual, em razão da suspeita de alteração da cena onde Gisele foi encontrada morta.
Ao término do interrogatório, a defesa solicitou a revogação da prisão preventiva. O pedido foi encaminhado para manifestação do Ministério Público e dos representantes da família da vítima.
O advogado Eugênio Malavasi, responsável pela defesa do oficial, contesta as conclusões da investigação e sustenta que o acusado poderá demonstrar sua inocência. Já o advogado José Miguel da Silva Júnior, que representa a família de Gisele, considera que os elementos periciais enfraquecem a versão de suicídio.
O tenente-coronel permanece preso no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo. Paralelamente à ação criminal, ele responde a procedimento administrativo na Polícia Militar, que poderá resultar na perda de seu posto e patente.
Justiça decidirá sobre júri popular
Com a conclusão do interrogatório, o processo avança para a fase de manifestações finais das partes. Caberá à Justiça avaliar se existem elementos suficientes para encaminhar o tenente-coronel ao Tribunal do Júri, responsável pelo julgamento de crimes dolosos contra a vida.
A decisão não representa, por si só, uma condenação. Caso seja pronunciado, Geraldo Neto será julgado por jurados, que deverão examinar as provas e os argumentos da acusação e da defesa.
O caso ganhou repercussão nacional por envolver dois integrantes da Polícia Militar e por causa das divergências entre a versão apresentada pelo acusado e os resultados dos exames periciais.
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