Produto tradicional da Ilha do Marajó, ligado aos conhecimentos e às práticas de comunidades amazônicas, o “óleo de bicho” começa a ganhar novas perspectivas a partir de um estudo realizado por pesquisadores do Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá, no Pará, que analisaram diferentes métodos de extração.
A pesquisa foi publicada na revista científica internacional ACS Omega, da American Chemical Society, uma das principais organizações científicas do mundo na área da química, e buscou identificar como cada técnica influencia a qualidade e as características do óleo, obtido de larvas de besouro encontradas em sementes de tucumã.
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De acordo com Gabriel Araújo de Jesus, pesquisador do Laboratório de Óleos da Amazônia (LOA) e responsável pela pesquisa, o estudo comparou três procedimentos: a fritura tradicional, utilizada por comunidades marajoaras; a prensagem mecânica; e a extração assistida por ultrassom, método que permite trabalhar em temperaturas mais baixas.
Além dele, a pesquisa contou também com o trabalho desenvolvido por outros pesquisadores do Laboratório de Óleos da Amazônia e do Centro de Estudos Avançados da Biodiversidade (Ceabio), vinculados à Universidade Federal do Pará (UFPA) e instalados no PCT Guamá, em parceria com a Universidade do Estado do Pará (Uepa).
Durante o estudo, os pesquisadores avaliaram o rendimento da extração, as características físico-químicas do óleo e as respostas de células expostas ao produto em laboratório. Segundo Gabriel Araújo, a análise permitiu identificar as vantagens e limitações de cada técnica, considerando a quantidade obtida e a preservação das propriedades do óleo.
Métodos apresentam resultados diferentes
De acordo com o estudo publicado na revista científica, cada técnica de extração apresenta vantagens específicas. Enquanto a fritura tradicional proporciona maior rendimento, o método assistido por ultrassom registra menores índices de acidez e oxidação.
Contudo, apesar das diferenças, todos os óleos analisados apresentaram níveis de acidez superiores aos limites recomendados para óleos comestíveis. Segundo os pesquisadores, o resultado pode estar relacionado à degradação das larvas durante a coleta, o transporte e a extração. Além disso, fatores como tempo e as condições de armazenamento da matéria-prima também influenciam a qualidade do produto, reforçando a necessidade de controle dessas etapas.
O estudo também avaliou os efeitos dos diferentes óleos em células da pele e em células de melanoma de camundongos, analisando a viabilidade celular e a expressão de genes relacionados à proliferação das células, identificando respostas distintas conforme o tipo celular e o óleo utilizado.
Os resultados são preliminares e não permitem afirmar que o produto tenha atividade anticâncer. Por isso, são necessárias novas investigações para compreender os efeitos observados e avaliar a segurança e a eficácia do óleo antes de possíveis aplicações terapêuticas.
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Na Ilha do Marajó, o óleo de bicho costuma ser utilizado na alimentação e em preparações associadas a práticas medicinais e cosméticas. Já a extração dele faz parte do conjunto de saberes tradicionais de comunidades da região, além de apresentar importância econômica, especialmente nos municípios de Soure e Salvaterra.
Apesar de comum na região, as propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e cicatrizantes atribuídas ao óleo ainda não foram comprovadas cientificamente. Por isso, a importância da iniciativa, que busca ampliar o conhecimento científico sobre o produto e investigar o potencial de aplicação dele, aproximando a ciência dos saberes tradicionais das comunidades marajoaras.






