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Óleos da Amazônia despontam como alternativa no combate ao câncer

Entre receitas caseiras, chás tradicionais e saberes passados de geração em geração, plantas como a canela e o cipó-alho sempre ocuparam espaço cativo na cultura popular amazônica. Utilizadas há décadas para aliviar sintomas gripais, auxiliar na digestão e fortalecer o organismo, essas espécies agora atravessam os limites da medicina popular para ganhar protagonismo dentro dos laboratórios científicos.

Na Universidade Federal do Pará, uma pesquisa desenvolvida no Laboratório de Citogenética Humana e no Núcleo de Pesquisas em Oncologia do Hospital Universitário João de Barros Barreto investiga o potencial dos óleos essenciais de canela e cipó-alho no tratamento de células cancerígenas. O estudo busca compreender se compostos naturais podem atuar de forma mais seletiva no organismo, atingindo preferencialmente células tumorais e preservando células saudáveis. Um dos principais desafios da oncologia contemporânea.

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BUSCA POR TRATAMENTO MAIS SELETIVOS

A pesquisa é conduzida pela estudante de Biomedicina Viviane Ribeiro Santos, sob orientação da professora Ingryd Nayara de Farias Ramos. Segundo Viviane, a escolha dos óleos essenciais surgiu a partir de análises realizadas pelo Núcleo de Pesquisas em Oncologia com diferentes compostos naturais recebidos por meio de colaborações científicas.

“A gente faz uma triagem inicial para avaliar quais substâncias apresentam resultados interessantes. A canela e o cipó-alho chamaram atenção logo nos primeiros testes”, explicou a pesquisadora.

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A orientadora do estudo destaca que o uso popular das plantas também motivou o aprofundamento científico. De acordo com Ingryd, produtos naturais amplamente presentes no cotidiano da população podem esconder propriedades terapêuticas ainda pouco exploradas pela ciência.

PESQUISA MIRA REDUÇÃO DOS EFEITOS COLATERAIS

Um dos focos centrais da investigação é encontrar alternativas que minimizem os efeitos agressivos dos tratamentos oncológicos convencionais. A quimioterapia, por exemplo, costuma atingir tanto células tumorais quanto células saudáveis, provocando diversos efeitos colaterais nos pacientes. “A principal lacuna dos tratamentos atuais é justamente a falta de seletividade. Eles funcionam, mas afetam todo o organismo”, ressaltou a professora.

As pesquisadoras acreditam que, futuramente, substâncias naturais possam integrar terapias combinadas. A expectativa é que compostos derivados de plantas ajudem a reduzir doses de medicamentos quimioterápicos, diminuindo impactos negativos ao organismo.

TESTES FORAM REALIZADOS EM LABORATÓRIO

Os experimentos foram conduzidos totalmente in vitro, utilizando linhagens celulares de câncer gástrico, melanoma e câncer pulmonar, além de células não tumorais para avaliar o grau de seletividade dos óleos essenciais.

Para medir a viabilidade celular, os pesquisadores utilizaram o ensaio de MTT, método bastante comum em pesquisas laboratoriais. O teste permite identificar a atividade metabólica das células por meio de uma reação química que altera a coloração do material analisado.

Já para compreender de que forma as células morriam após o tratamento, a equipe utilizou a técnica de citometria de fluxo, capaz de identificar padrões celulares com alta precisão.

A pesquisa também possui um importante recorte regional. Segundo a orientadora, o câncer gástrico foi escolhido por apresentar elevada incidência na região Norte. Algumas das linhagens celulares utilizadas, inclusive, foram desenvolvidas a partir de tumores de pacientes amazônicos.

RESULTADOS ANIMADORES

Os resultados preliminares apontaram que o óleo essencial de canela apresentou efeito expressivo contra células de câncer gástrico. Segundo Viviane, as células tumorais demonstraram sensibilidade cerca de cinco vezes maior ao composto quando comparadas às células não tumorais, indicando um nível relevante de seletividade.

O óleo essencial de cipó-alho também apresentou desempenho considerado promissor, reduzindo significativamente a viabilidade de diferentes linhagens cancerígenas, inclusive em baixas concentrações.

Outro dado que chamou atenção das pesquisadoras foi o padrão de morte celular identificado durante os testes. Enquanto estudos com produtos naturais normalmente registram apoptose – processo natural e controlado de morte celular -, os experimentos detectaram predominantemente necrose, fenômeno associado a danos celulares mais intensos.

CAMINHO AINDA É  LONGO

Apesar dos resultados considerados positivos, as pesquisadoras reforçam que o estudo ainda está em fase inicial e não possui aplicação clínica imediata. Os próximos passos incluem análises de biologia molecular para identificar genes e vias celulares ativadas pelos compostos naturais, além de testes mais complexos, como culturas tridimensionais e estudos in vivo.

Para a professora Ingryd, a pesquisa também evidencia a importância da biodiversidade amazônica como fonte de conhecimento científico e possíveis soluções futuras para a saúde. “O potencial da nossa biodiversidade é gigantesco. Estudar essas moléculas é transformar riqueza natural em conhecimento científico”, destacou.

JOVEM PESQUISADORA APOSTA NA CARREIRA CIENTÍFICA

Premiada no XXXVI Seminário de Iniciação Científica da UFPA, a pesquisa intitulada “Avaliação do efeito de óleos essenciais em linhagens neoplásicas in vitro” marcou a trajetória acadêmica de Viviane Ribeiro Santos, de 22 anos.

A estudante conta que despertou interesse pela pesquisa ainda nos primeiros períodos da graduação em Biomedicina e pretende seguir carreira acadêmica, com planos de cursar mestrado e doutorado.

Nas horas vagas, a jovem divide o tempo entre livros, filmes e o crochê. Para quem sonha ingressar na área científica, ela deixa um conselho simples: seguir em frente mesmo diante do medo de tentar algo novo.

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