A professora universitária Zélia Amador de Deus morreu nesta terça-feira (08), aos 74 anos, em Belém. Nascida na Ilha de Marajó, ela construiu uma trajetória que atravessou a educação, a cultura e o ativismo, tornando-se uma das principais vozes do movimento negro no Pará e uma referência nacional na luta por igualdade racial.
Trajetória
Escritora, atriz e diretora de teatro, Zélia ingressou na carreira acadêmica em 1978 e passou a maior parte de sua vida profissional na Universidade Federal do Pará (UFPA). Na instituição, ocupou o cargo de vice-reitora entre 1993 e 1997, período em que se destacou como uma das principais lideranças da universidade. Em 2019, recebeu o título de professora emérita, uma das mais altas honrarias concedidas pela UFPA a membros de sua comunidade acadêmica. Mais recentemente, atuava como assessora de Diversidade e Inclusão da instituição e como professora do Instituto de Ciências da Arte.
Ao longo da carreira, Zélia dedicou-se a transformar o ambiente universitário em um espaço mais plural. Ela foi uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), entidade de referência na defesa dos direitos da população negra no estado, e também idealizou o Grupo de Estudos Afro-Amazônico (Geam/UFPA). Sua atuação incluiu ainda a defesa das comunidades quilombolas e das políticas de ações afirmativas, temas que ela tratava como parte de um mesmo projeto: fazer da universidade brasileira um espaço realmente diverso.
Autora do livro “Caminhos Trilhados na Luta Antirracista”, publicado em 2020, Zélia costumava atribuir sua formação política à avó, dona Francisca Amador de Deus, responsável por criá-la após deixarem a Ilha de Marajó rumo a Belém em busca de melhores condições de vida. Foi com ela que a professora aprendeu princípios que guiariam toda a sua trajetória: a ideia de que ninguém é superior a ninguém, e de que a desigualdade racial precisa ser enfrentada coletivamente, nunca de forma isolada.
Reconhecida internacionalmente, Zélia recebeu o Prêmio de Direitos Humanos da BrazilFoundation, em Nova York, um dos principais reconhecimentos concedidos a personalidades que atuam na defesa de direitos humanos no Brasil. Amazônida por origem e por convicção, ela também se dedicou a combater a invisibilidade da produção intelectual da região Norte do país, defendendo que a Amazônia produz conhecimento e precisa ser reconhecida como protagonista nesse debate, e não apenas como pauta observada à distância pelo restante do Brasil.
Despedida
A morte da professora repercutiu entre companheiros de militância e da comunidade acadêmica paraense, que destacam seu legado como educadora e como uma das principais referências da luta antirracista na Amazônia. O velório de Zélia Amador de Deus será realizado nesta terça-feira (08), a partir das 22h, no Teatro Waldemar Henrique, em Belém.






