Uma lagoa de águas aparentemente cristalinas, descoberta por banhistas em Vigia de Nazaré, no nordeste paraense, virou um dos assuntos mais comentados das redes sociais nas últimas semanas. Cercado por vegetação e com aparência de cenário paradisíaco, o local passou a receber um fluxo crescente de visitantes, principalmente durante o verão amazônico.
A popularidade do espaço, entretanto, também trouxe questionamentos. Comentários nas redes sociais afirmam que a lagoa teria surgido em uma antiga área de extração de areia após o lençol freático ser atingido durante a atividade de mineração. As mesmas publicações ainda levantam a hipótese de que o local poderia sofrer influência do escoamento de um antigo lixão existente na região. Até o momento, porém, não existe confirmação oficial dessas informações nem estudos públicos que atestem a qualidade da água.
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Diante da repercussão, a reportagem conversou com a professora titular da Universidade Federal do Pará (UFPA), Simone de Fátima Pinheiro Pereira, que alerta que nenhum corpo hídrico deve ser considerado seguro apenas pela aparência e reforça que a população precisa cobrar análises técnicas antes de utilizar esses ambientes para lazer.
Para a pesquisadora, o primeiro passo é identificar quais substâncias ou contaminantes podem estar chegando ao local. Segundo ela, essa investigação é indispensável para qualquer recomendação de banho.
“A primeira coisa que tem que se avaliar é qual o tipo de contaminante. É preciso saber se existe lançamento de esgoto, quais atividades existem naquela região e o que aquele corpo hídrico está recebendo. Por meio da água podem ser disseminadas doenças e também ocorrer contaminações por elementos tóxicos, como mercúrio, arsênio e chumbo.”
Ela explica que nenhuma pessoa deve utilizar uma lagoa sem que haja informações produzidas pelos órgãos ambientais e de saúde.
“O ideal é procurar a Secretaria de Meio Ambiente do município para saber se existe algum estudo sobre aquela lagoa. Também é importante verificar se a Secretaria de Saúde e a Secretaria de Meio Ambiente realizam algum tipo de monitoramento da balneabilidade daquela área. Sem esse acompanhamento, não existe como garantir que a água seja segura.”
Água limpa não significa água segura
Um dos principais alertas feitos pela professora diz respeito à falsa sensação de segurança causada pela transparência da água. Segundo ela, esse é um dos erros mais comuns cometidos pela população.
“Água cristalina e transparente não quer dizer absolutamente nada. Você não consegue enxergar elementos tóxicos, não consegue visualizar vírus, bactérias nem outros contaminantes que eventualmente estejam sendo lançados naquele corpo hídrico. A aparência da água não permite concluir que ela seja própria para banho.”
Ela ressalta que somente exames laboratoriais conseguem identificar se há riscos invisíveis.
“É necessário existir um laudo da Secretaria de Meio Ambiente e da Secretaria de Saúde atestando a balneabilidade daquele corpo hídrico. Somente depois dessas análises é que a população pode utilizar aquele espaço com segurança.”
Resoluções nacionais
Segundo Simone, o Brasil possui normas específicas para determinar quando um rio, lagoa ou outro corpo hídrico pode ser utilizado para recreação.
“Existe uma resolução do Conama que estabelece as classes dos corpos hídricos e outra resolução específica sobre balneabilidade. Essas normas determinam quais parâmetros precisam ser avaliados antes que um ambiente seja liberado para banho. Não basta olhar a água e concluir que ela está limpa.”
Ela explica que cabe ao poder público fazer essa avaliação.
“As Secretarias de Meio Ambiente e de Saúde são responsáveis por verificar esses critérios, realizar o monitoramento e informar oficialmente se aquele corpo hídrico pode ou não ser utilizado pela população.”
Antigas áreas de mineração exigem atenção especial
A possibilidade de a lagoa ter sido formada em uma antiga área de extração de areia também exige cautela, segundo a especialista.
“A área de mineração é uma área complicada. Quando ocorre a extração do minério e são realizados tratamentos físicos, ácidos ou alcalinos, você pode liberar elementos que antes estavam protegidos por ligações químicas. Esses elementos passam a ficar disponíveis no ambiente.”
Ela explica que até mesmo a ação da chuva pode favorecer esse processo.
“A própria chuva consegue solubilizar esses elementos e carregá-los para os corpos hídricos. Na maior parte dos casos, a contaminação oriunda da mineração é uma contaminação inorgânica. Não estamos falando principalmente de bactérias, mas de elementos tóxicos liberados pela atividade humana.”
Esgoto representa um dos maiores perigos
Enquanto áreas de mineração preocupam pela presença de contaminantes químicos, o lançamento de esgoto traz outro tipo de ameaça à saúde.
“Como o esgoto possui coliformes fecais, ele pode transmitir doenças contagiosas, como hepatite e cólera. Quando não existe qualquer tipo de autorização, monitoramento ou análise daquele corpo hídrico, as pessoas realmente precisam ter muito cuidado, principalmente quando levam crianças para esses ambientes.”
Segundo ela, a presença desses microrganismos é um dos principais indicadores utilizados para avaliar a qualidade da água.
“A partir do momento em que você encontra coliformes fecais acima do limite máximo permitido pela resolução, aquele ambiente já representa risco para quem entra na água. É justamente por isso que a análise microbiológica é tão importante.”
Crianças, idosos e imunodeprimidos são os mais vulneráveis
Os primeiros sintomas de uma contaminação costumam aparecer rapidamente, principalmente entre os grupos mais sensíveis.
“As crianças, os idosos e as pessoas imunodeficientes são mais suscetíveis. O primeiro sintoma normalmente é a disenteria. Depois podem surgir outras doenças de veiculação hídrica, além da hepatite, da cólera e de infecções provocadas por outros microrganismos presentes na água contaminada.”
A pesquisadora reforça que esses riscos não podem ser percebidos apenas observando a água.
“Sem fazer a análise adequada, não existe como distinguir quais patógenos estão presentes naquele ambiente. Por isso, somente o órgão responsável pode informar se aquele corpo hídrico está ou não próprio para banho.”
Especialista critica falta de preocupação
Durante a entrevista, Simone demonstrou preocupação com o aumento da procura por ambientes naturais que nunca passaram por qualquer tipo de avaliação ambiental.
“Eu não vejo uma preocupação maior em relação ao perigo que um corpo hídrico sem avaliação ambiental pode representar. As pessoas acabam entrando na água apenas porque ela parece bonita, mas desconhecem completamente o que existe ali.”
Ela afirma que a situação se torna ainda mais grave quando envolve crianças.
“Expor crianças a um corpo hídrico contaminado é inadmissível. A população precisa cobrar da Secretaria de Meio Ambiente para saber se foram realizados estudos, se existe monitoramento e quais foram os resultados dessas análises.”
O mesmo erro acontece com poços particulares
A professora faz um paralelo entre o uso de lagoas desconhecidas e o consumo de água de poços sem qualquer avaliação laboratorial.
“As pessoas olham uma água clarinha e acreditam que ela é boa. Isso acontece muito com poços. Sem análise química e bacteriológica, ninguém sabe se aquela água realmente é própria para consumo. A aparência nunca pode substituir uma análise técnica.”
Ela lembra que, no caso das lagoas, a preocupação é especificamente com a balneabilidade.
“Quando falamos de banho, a principal referência é a resolução que trata da balneabilidade. É ela que estabelece quais critérios precisam ser atendidos antes que aquele corpo hídrico seja utilizado para recreação.”
Coliformes fecais são o principal indicador de balneabilidade
A professora explica que a Resolução nº 274 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) continua sendo a principal referência para esse tipo de avaliação.
“Para a questão da balneabilidade, o principal parâmetro é a análise microbiológica. A contagem de Escherichia coli e dos coliformes termotolerantes é fundamental. O corpo hídrico precisa passar por esses testes antes de ser liberado para banho.”
Ela destaca que outros parâmetros também podem ser exigidos quando existe suspeita de contaminação química.
“Dependendo da situação, também é preciso verificar a presença de elementos tóxicos. A própria resolução estabelece outros parâmetros que devem ser monitorados para garantir a segurança da população.”
Sem laudos, a orientação é evitar o banho
Enquanto não houver estudos oficiais sobre a lagoa que viralizou em Vigia de Nazaré, a professora recomenda prudência.
“Somente os órgãos responsáveis podem indicar oficialmente se aquele corpo hídrico está ou não próprio para banho. Até que esses laudos existam, a população deve agir com cautela, porque água bonita não significa água segura e nenhum ambiente deve ser utilizado sem avaliação ambiental e microbiológica.”






