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terça-feira, julho 16, 2024
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Como lidar com o trauma do aborto e da violência sexual?

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“Foi um momento horrível de muito choro, muita culpa. Foi uma automutilação mas a minha vontade prevaleceu. Porém, a dor e a ferida estão aí, ainda não cicatrizaram. Hora ou outra essa dor volta, essa ferida dói, essa culpa… É um processo cíclico, ela vai e volta”,

O depoimento é de uma mulher que relatou em entrevista ao DOL ter praticado aborto. Expor traumas psicológicos pode provocar uma série de transtornos e gatilhos mentais em quem passou por esse procedimento ou sofreu violência sexual – dois temas que dominaram os debates no Brasil sobre os direitos da mulher por causa da tramitação do PL do Aborto.

Em casos de estupro, por exemplo, os impactos emocionais e mentais são e ainda maiores, se resultar em gravidez ou até mesmo se a mulher tiver que ser obrigada a se submeter ao aborto. A psicóloga e doutora em Saúde Pública Bárbara Sordi fala sobre o quão difícil essas situações podem ser para vítimas de violência sexual.

“Tem estudos que mostram, por exemplo, que pessoas que sofreram situações de violência sexual utilizam mais os serviços de saúde por adoecimento somático. São pessoas que adoecem mais, desenvolvem mais acometimentos orgânicos em relação ao trauma de saúde mental. Em uma violência como o estupro, esse organismo vai ter sequelas psíquicas e orgânicas que podem ser respondidas durante sua vida após esse acometimento.”, explica.

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Entre as consequências geradas pelo que a Psicologia chama de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), está o fato de a mulher reviver o trauma, caso seja forçada a prosseguir com a gravidez decorrente da violência sexual. A presença física do bebê em crescimento pode gerar uma série de gatilhos mentais, podendo a vítima ter flashbacks, pesadelos, ansiedade, crises de pânico e até fobia.

A psicóloga enfatiza que pode haver também a situação oposta, como a mulher que deseja prosseguir com a gestação e acaba sendo obrigada a abortar, seja por constrangimento social ou até mesmo por risco de vida. “Temos também como trauma situações de aborto que são feitos de forma não consentida. São mulheres, meninas ou até crianças que não desejariam abortar e são obrigadas”.

Dor e culpa

O gatilho disparado contra essas vítimas muitas vezes pode vir por conta do julgamento. A culpa de ter praticado um “crime”, segundo a lei brasileira, caminha lado a lado com uma dor invisível e abafada pelo medo e pelo preconceito.

Muitas dessas mulheres têm que conviver com a sensação de culpa, ainda fruto de uma sociedade que traz raízes patriarcais onde a reprodução de um novo ser recai em grande parte sobre a mulher. Atrelado a isso, aspectos religiosos também interferem na saúde mental das vítimas. Todas essas características podem fazer com que a mulher se autocondene, sendo um fator expressivo, inclusive, no aparecimento de transtornos mentais.

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Em muitas situações, a violência sexual é cometida por pessoas próximas ou conhecidas das vítimas, como companheiros, cônjuges e namorados. Somado a isso, essas mulheres são obrigadas a conviver com agressores, o que pode aumentar as chances de estresse psíquico. “Quando falamos da situação de estupro, estamos falando das mulheres serem responsabilizadas por uma violência cometida por outras pessoas”, complementa a psicóloga.



Como buscar ajuda e atenuar o trauma?

É fundamental que essas mulheres tenham acesso imediato a serviços de acompanhamento psicológico que tratem os efeitos traumáticos. Bárbara destaca o apoio de diversos profissionais nesse processo: “A gente pode pensar o quanto é importante a gente enfrentar como um problema de saúde pública e criar grupos psicológicos para que essas mulheres tenham acompanhamento profissional”.

É necessário que a vítima seja atendida de forma multiprofissional, já que o trauma pode gerar cicatrizes para vida inteira. Incluir a terapia de longo prazo, como a terapia cognitivo-comportamental e a terapia de ressignificação de traumas, onde o profissional foca no ato de ajudar a mulher, pode ajudar a reconstruir suas emoções.

Além disso, a rede de apoio é fundamental no enfrentamento dessas situações. O apoio da família pode ser imprescindível para que a mulher saia desse local de dor, de luto e sofrimento. Envolver essa vítima, acolhê-la é primordial para que ela enfrente esse trauma sabendo que não está só.

No Estado do Pará alguns locais atendem mulheres em situação de pós aborto e/ou que tenham sofrido violência sexual. A psicóloga destaca alguns espaços que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS), como as Unidades Básicas de Saúde e as clínicas-escola nas universidades (Cesupa, Unama, Fibra), que têm serviços de psicologia gratuitos. 

Outros locais que oferecem serviço de atendimento psicológico.

Fundação ParáPaz – Av. José Bonifácio, 267, entre Rua Domingos Marreiros e Antônio Barreto, próx. ao Santuário de Fátima. Contato (91) 98415-4463.Coordenadoria da Mulher oferece acolhimento psicossocial por meio do número (91) 98440-0267. O espaço fica no Mercado de Carne Francisco Bolonha, altos, sala 27.Núcleo de Prevenção e Enfrentamento à Violência de Gênero da Defensoria Pública do Estado – Nugen, que fica localizado na travessa 1° de Março, n° 766, bairro Campina. Contatos: (91) 991726296; (91) 981216771; (91) 32394070; (91) 33428606.

Equipe Dol Especiais:

Repórter: Letícia CorrêaCoordenação e edição: Anderson Araújo

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