Inaugurado em 1912, durante a chamada belle époque amazônica, o Cine Olympia volta à cena em Belém após seis anos fechado. Um dos cinemas de rua mais antigos do país, o espaço deve reabrir no segundo semestre deste ano, com móveis e objetos originais restaurados.
A nova sala será climatizada e terá 255 poltronas, abaixo dos cerca de 400 lugares de antes da restauração.
Piso, paredes e forros acústicos foram modernizados. O projeto inclui um bar envidraçado, que permitirá ao público acompanhar a sessão sem interferir na exibição.
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Também está prevista uma sala de memória, com peças históricas, como um projetor antigo e um piano fabricado em 1913, usado nas sessões da era do cinema mudo.
Fechado desde 2020 por problemas na edificação, a restauração começou três anos depois, com acompanhamento técnico do Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Agora, com cerca de 80% das obras concluídas, o cinema recupera traços de sua arquitetura de influência neoclássica, típica do início do século 20.
Os arcos originais da fachada e das laterais, redescobertos durante a restauração, levaram à revisão do projeto inicial. Ajustes técnicos impactaram o prazo de entrega da obra, antes previsto para o ano passado.
“O maior desafio técnico foi adaptar o edifício histórico aos parâmetros contemporâneos de exibição de filmes: tamanho da sala e tela, projeção digital em vez de 35mm, tratamento acústico e climatização. A restauração garante a preservação das características do edifício”, diz a arquiteta Mariana Victor, do Instituto Pedra, responsável pela obra.
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A reforma do espaço custou R$ 16 milhões. Os recursos foram captados pelo Instituto Pedra via Lei Federal de Incentivo à Cultura, com aportes do BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, do Instituto Vale e do Banco da Amazônia. A Prefeitura entrou como parceira institucional e gestora do espaço.
“O cinema funcionava como ponto de encontro da elite burguesa, intelectuais, profissionais liberais e gente do povo, refletindo um ambiente cosmopolita, mas marcado por tensões culturais. Era um símbolo da transformação de Belém em uma metrópole que se pretendia moderna, com uma arquitetura inventiva, rica em detalhes”, diz o historiador Aldrin Moura de Figueiredo, da Universidade Federal do Pará.
Entre as curiosidades, segundo o historiador, o Cine Olympia chegou a exibir filmes estrangeiros antes de outras cidades brasileiras. “Belém tinha acesso direto a produções europeias, o que colocava a cidade em sintonia com o circuito internacional do cinema”, conta.
Nos primeiros anos, passaram pela tela produções pouco comuns no circuito brasileiro à época, como “The Cameraman’s Revenge”, animação em stop-motion feita com insetos reais, além de títulos europeus como “Max Jongleur par Amour” e indianos como “Pundalik”.
“As sessões eram acompanhadas por música ao vivo, com pianistas ilustrando os filmes mudos, o que transformava o cinema em uma experiência cultural completa”, afirma o historiador.
Para o professor e pesquisador de cinema Marco Antônio Moreira, a relação com o Olympia também passa pela memória afetiva.
“Como programador do cinema por quase 20 anos, carrego lembranças de festivais, debates e sessões marcantes. Frequento o cinema desde os cinco ou seis anos, primeiro com meus pais e irmãos e depois com minha esposa e meus filhos”, relembra.
Segundo ele, em contraste com os cinemas de shopping, voltados a grandes lançamentos, o Olympia se mantém como espaço para filmes nacionais e produções fora do circuito comercial.
“Num cenário dominado por Hollywood, é um privilégio manter um cinema que valoriza a diversidade. Minha expectativa é que novas gerações possam frequentar o Olympia e compreender sua importância histórica e cultural”, afirma.
Inaugurado em 24 de abril de 1912 por empresários locais, já em meio ao início da crise do ciclo da borracha na Amazônia, período de prosperidade e forte influência europeia em Belém, o cinema funcionou por décadas sob gestão privada e de grupos exibidores.
Em 2006, o poder público municipal assumiu o espaço após ameaça de fechamento. Já em 2012, foi reconhecido por lei municipal como patrimônio histórico e cultural de Belém, voltado à exibição audiovisual.
Texto e reportagem: Bruno Magno/FolhaPress







