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Apostas on-line: educação financeira pode ajudar a evitar endividamento

A educação financeira pode ser uma ferramenta decisiva para reduzir os riscos de endividamento provocados pelas apostas on-line, especialmente em um cenário de acesso facilitado às plataformas digitais e de promessas de ganhos rápidos. Para os economistas Ana Paula Matos Leal e João Cláudio Tupinambá Arroyo, compreender orçamento, probabilidade e risco é importante, mas a prevenção também passa por reconhecer os fatores emocionais que influenciam as escolhas e por estabelecer limites para a publicidade das bets.

A discussão ganhou força com a expansão do mercado de apostas no Brasil e com a regulamentação do setor. Para os especialistas, entretanto, criar regras para as empresas é apenas uma parte da resposta. É preciso também preparar o consumidor para identificar situações de risco e compreender as consequências financeiras de decisões impulsivas.

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APOSTA NÃO É INVESTIMENTO



Para Ana Paula Matos Leal, economista e analista financeira comercial, o primeiro passo para reduzir os riscos é compreender que apostar não representa uma forma de investimento. “Aposta não é investimento nem fonte de renda”, afirma a especialista em análise financeira comercial.

Segundo ela, a educação financeira vai muito além de aprender a controlar o orçamento ou conhecer investimentos. O conhecimento também deve preparar o indivíduo para avaliar riscos e antecipar as consequências de suas escolhas. “A educação financeira não deve ser entendida apenas como conhecimento sobre orçamento ou investimentos. Ela também desenvolve a capacidade de avaliar riscos, reconhecer limites financeiros e compreender as consequências futuras de uma decisão tomada no presente”, explica.

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Na avaliação da economista, uma vitória eventual não deve ser confundida com a possibilidade de transformar a aposta em uma fonte permanente de recursos. “É fundamental compreender que aposta não é investimento nem fonte de renda. Quando essa diferença não é bem compreendida, a promessa de ganho rápido pode levar o indivíduo a tratar a aposta como uma alternativa para complementar a renda ou resolver dificuldades financeiras.”

IMPULSIVIDADE PODE AUMENTAR PERDAS

O problema se torna ainda mais complexo quando a decisão financeira é influenciada por fatores comportamentais. Ana Paula cita a impulsividade, o excesso de confiança e a tentativa de recuperar rapidamente uma perda como elementos que podem ampliar a exposição ao risco. “Na ausência de educação financeira, torna-se mais difícil reconhecer esses mecanismos e dimensionar seus efeitos sobre o orçamento, deixando o consumidor mais vulnerável economicamente”, avalia.

Ela alerta que o comportamento pode evoluir de uma aposta inicialmente considerada pontual para uma sequência de decisões que comprometem cada vez mais o orçamento. “A situação se torna ainda mais preocupante quando entram em cena fatores comportamentais, como a impulsividade, o excesso de confiança e a tendência de tentar recuperar imediatamente uma perda anterior”, destaca.

Nesse processo, segundo a economista, o consumidor deixa de analisar a aposta dentro de sua realidade financeira. “A pessoa pode deixar de avaliar a aposta dentro dos limites de seu orçamento e passar a comprometer recursos destinados às despesas essenciais”, aponta.

EMOÇÃO PESA NAS DECISÕES FINANCEIRAS



O professor doutor João Cláudio Tupinambá Arroyo, doutor em Desenvolvimento e Meio Ambiente Urbano, mestre em Economia e pró-reitor de pesquisa da Unama, amplia a análise ao destacar que as decisões financeiras não são determinadas apenas pela racionalidade. “O comportamento humano, incluindo o financeiro, não é racional”, explica.

Segundo Arroyo, a Economia Comportamental e a Teoria de Campo ajudam a compreender como diferentes elementos interferem nas escolhas. “As escolhas humanas são uma resultante da interação entre o racional, o emocional e a psiquê que se processa em cada ser humano no acumulado de suas experiências, nos diversos ambientes sociais que vivencia sua existência”, pontua.

Nesse contexto, a educação financeira teria uma função que ultrapassa o ensino de técnicas para administrar dinheiro. “A Educação Financeira pode, mais como educação, do que por ser financeira, ajudar o indivíduo a entender o lugar que apostas devem ter entre suas prioridades e costumes, como qualquer decisão de consumo”, argumenta.

Para o economista, até mesmo a emoção produzida pela aposta precisa ser considerada dentro de uma lógica de custo e benefício. “Todo consumo, inclusive o da emoção da aposta, é um investimento. E, como investimento, deve ser avaliado em seu custo-benefício, que é um cálculo sobretudo racional”, esclarece o especialista.

RENDA NÃO ELIMINA COMPORTAMENTO DE RISCO

João Arroyo ressalta que decisões influenciadas pela emoção não são exclusivas de determinado nível de renda ou escolaridade.”Independente de escolaridade e renda, as pesquisas registram que as escolhas humanas são majoritariamente emocionais, quer seja por carência afetiva ou ansiedade.”

O economista reconhece que o envolvimento de pessoas de baixa renda com apostas chama atenção justamente pela possibilidade de agravamento da vulnerabilidade financeira. Mas faz uma ressalva: pessoas com maior poder aquisitivo também podem desenvolver comportamentos prejudiciais.

“Ver pessoas de baixa renda apostando choca, apenas porque fica mais evidente a possibilidade de autossabotagem que as pessoas podem chegar em função das condições sociais criadas. Mas o mesmo também pode acontecer com pessoas de altas faixas de renda que além disso se expressam patologicamente, pela ganância”, alerta.

DADOS REFORÇAM PREOCUPAÇÃO COM VULNERÁVEIS

Nesse sentido, Ana Paula destaca um levantamento divulgado pelo Banco Central em agosto de 2024. Segundo o dado citado pela economista, aproximadamente 17% dos beneficiários do Bolsa Família analisados realizaram apostas.

Para ela, o resultado chama atenção porque o apelo do enriquecimento por meio das apostas pode atingir com maior intensidade pessoas que já enfrentam dificuldades financeiras.

A economista defende que esse cenário seja enfrentado não apenas com restrições ao mercado, mas também com políticas permanentes de educação financeira. “A regulamentação é indispensável para estabelecer limites à atuação das empresas e mecanismos de proteção ao consumidor, mas ela não substitui a formação financeira da população”, reforça.

A REGULAMENTAÇÃO PRECISA PROTEGER O CONSUMIDOR

Ana Paula cita ainda a Portaria SPA/MF nº 1.231, de 31 de julho de 2024, como uma medida importante para estabelecer diretrizes relacionadas ao jogo responsável, à publicidade e ao marketing, além de prever ações de prevenção aos danos provocados pelas apostas.

“A Portaria SPA/MF nº 1.231, de 31 de julho de 2024, representa um avanço importante nesse sentido ao estabelecer diretrizes para o jogo responsável, disciplinar a publicidade e o marketing e prever medidas voltadas à prevenção de danos relacionados às apostas, inclusive financeiros”, lembra.

Na visão da economista, o marco regulatório mostra que organizar o mercado não é suficiente. “Não basta organizar o funcionamento desse mercado: é necessário estabelecer mecanismos de proteção diante dos riscos que a atividade pode produzir.”

Ela defende, por isso, a adoção de políticas públicas capazes de disseminar conhecimentos financeiros entre a população. “Faz-se necessária a implementação de políticas públicas que garantam a disseminação da educação financeira.”

PROBABILIDADE, ORÇAMENTO E CUSTO DE OPORTUNIDADE

Entre os conhecimentos que deveriam ser estimulados, Ana Paula cita conceitos que podem ajudar o consumidor a avaliar melhor as consequências de uma aposta. “É necessário formar uma população capaz de compreender conceitos como risco, probabilidade, orçamento, endividamento e custo de oportunidade, além de desenvolver hábitos de planejamento e controle dos gastos”, detalha.

O conceito de custo de oportunidade é especialmente importante nesse contexto. O dinheiro utilizado em uma aposta deixa de ser empregado em outra finalidade. “Quando o consumidor entende que o dinheiro destinado à aposta deixa de atender a outras necessidades ou objetivos, passa a avaliar não apenas a possibilidade de ganhar, mas também as consequências econômicas de perder”, pondera.

A PUBLICIDADE DAS BETS É UM PONTO CENTRAL

Para João Arroyo, o controle da publicidade deve ocupar lugar de destaque entre as medidas de prevenção. “A restrição da publicidade, em volume e conteúdo, é a principal iniciativa”, afirma.

O economista compara o cenário das bets à experiência brasileira de combate ao tabagismo, na qual o controle da publicidade teve papel importante. “O sucesso da redução do tabagismo é uma pista. O controle sobre a publicidade, incluindo seu conteúdo, é o principal fator de redução do consumo de cigarro em nossa Sociedade, mostrando como a educação tem um papel fundamental.”

Arroyo defende que a regulamentação da atividade empresarial das bets seja mantida, mas considera necessário controlar também a forma como as apostas são apresentadas ao público.

EDUCAÇÃO FINANCEIRA DEVE COMEÇAR NA ESCOLA

Além das medidas de mercado, João Arroyo defende que a educação financeira seja incorporada à formação dos estudantes desde os primeiros anos da vida escolar. “Imagine se somado ao conteúdo das disciplinas nas escolas desde o ensino fundamental.”

Para o economista, formar consumidores mais conscientes exige uma abordagem que não se limite a ensinar como economizar ou organizar uma planilha de gastos. É preciso discutir também os valores sociais associados ao dinheiro e ao sucesso. 

A reflexão ganha peso diante da realidade de trabalhadores submetidos a jornadas intensas e dificuldades para alcançar condições mínimas de vida. “O desespero de quem trabalha muito, está esgotado, e não consegue o mínimo, acaba sendo levado ao desespero, já se presenteando com poucos momentos de esperança excitada até sair o resultado da aposta.”

NÃO É APENAS UMA QUESTÃO INDIVIDUAL

As análises dos dois economistas apontam para uma conclusão semelhante: a prevenção ao endividamento provocado pelas apostas não pode ser colocada apenas sobre os ombros do consumidor.

Para Ana Paula, regulamentação e educação financeira exercem funções diferentes, mas complementares. “A primeira deve tornar o ambiente de escolha mais seguro e estabelecer responsabilidades para quem oferece e divulga as apostas; a segunda fortalece a capacidade do indivíduo de compreender riscos, reconhecer seus próprios vieses e tomar decisões compatíveis com sua realidade financeira”, argumenta.

João Arroyo acrescenta que as políticas públicas também precisam considerar as condições econômicas que estimulam a busca por ganhos rápidos. “O que indica a necessidade de combinação de iniciativas de educação e esclarecimento dos indivíduos com políticas públicas que controlem socialmente a publicidade das bets, a regulamentação das apostas e o estímulo para que as oportunidades econômicas reais sejam melhor distribuídas”, defende.

O economista relaciona ainda esse debate à concentração de renda e riqueza no país, observando que o Brasil permanece entre as maiores economias do mundo, mas apresenta forte concentração econômica e social.

INFORMAÇÃO CONTRA A PROMESSA DE DINHEIRO FÁCIL

A facilidade de apostar pelo celular reduziu a distância entre o desejo de ganhar dinheiro e a realização de uma aposta. Para os especialistas, justamente por isso, a proteção precisa atuar em várias frentes.

Educação financeira, controle da publicidade, regulamentação, planejamento do orçamento e políticas públicas podem ajudar a reduzir a exposição aos riscos. Mas existe uma mudança de percepção considerada fundamental: entender que uma aposta não deve ser encarada como investimento ou estratégia para solucionar problemas financeiros.

Como resume Ana Paula, a educação financeira precisa fortalecer a capacidade de decisão do consumidor. “Mais do que ensinar a administrar dinheiro, a educação financeira deve fortalecer a capacidade de tomar decisões conscientes.”

E, diante de um mercado em expansão e de plataformas cada vez mais acessíveis, essa capacidade pode ser uma das principais barreiras entre a promessa de ganho rápido e o risco de uma dívida que começa com poucos cliques.

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