Matheus Colares do Nascimento[1]
No dia 27 de abril de 1909, no território que atualmente compreende Gana nascia Kwame Nkrumah. Gana, anteriormente conhecida como Costa do Ouro e ex-colônia do império britânico, foi o primeiro país colonial africano a assegurar a sua independência após a 2ª guerra mundial, em 1957. A atuação política de Nrkumah aproveitou o período de decadência do poder imperialista britânico para arrancar importantes vitórias políticas para seu país, como a criação de uma Assembleia Legislativa em 1949 e, posteriormente, a independência completa. Nkrumah foi primeiro-ministro de Gana entre 1957 e 1966 tendo sua vida política interrompida por um golpe de estado.
Nrkumah desenvolveu sua formação intelectual nos EUA onde se forma em filosofia em 1939 na Universidade de Lincoln. Mais importante, essa viagem aos EUA lhe permite entrar em contato com importantes autores da intelligentsia negra estadunidense e mundial. W.E.B. Du Bois, por exemplo, havia publicado A Reconstrução Negra (1935) e organizado quatro edições do Congresso Pan-Africano. Além de Du Bois, Nkrumah também entra em contato com George Padmore e C.L.R. James, este último, é dito, permanecerá sendo uma das principais influencias intelectuais de Nrkumah[2].
Juntamente com Padmore, Nkrumah organiza o 5º Congresso Pan-Africano (1945). O 5º congresso apresenta um importante salto qualitativo teórico com relação aos quatro últimos[3]. O discurso do Primeiro Congresso Pan-Africano focava, segundo Du Bois, o seu idealizador, em assegurar os direitos civis dos sujeitos Africanos residentes em África ou na diáspora ao redor do mundo. Em contrapartida, a partir do 5º Congresso o discurso assume um tom mais autonomista, isto é, coloca ênfase não diretamente na garantia de direitos, mas na autonomia política e na ideia de autodeterminação.
Nkrumah construiu sua liderança política em conjunto com uma refinada concepção teórica sobre a inserção de Gana, em particular, e da África, em geral, no sistema capitalista internacional. Na sua visão, essa inserção é definida por três aspectos: a questão do autogoverno, a questão do colonialismo e o Pan-Africanismo.
Desde o começo de sua vida política com a sua eleição para a Assembleia legislativa em 1949, Nkrumah já defendia frontalmente a proposta da independência completa e do autogoverno. Ele insistia que nenhum avanço significativo na resolução dos problemas concretos africanos poderia ser alcançada mantendo vínculos políticos coloniais com a metrópole. Assim, ele se opunha a posições acomodacionistas que defendiam que alguns benefícios ainda poderiam ser conquistados mesmo sob o domínio colonial[4]. Para Nkrumah, Gana deveria se constituir como unidade nacional e pleitear o autogoverno nacional como único meio possível para a soberania política.
Centralmente, para Nkrumah a independência política constituía importante passo para o fim da exploração, porém, não o último. Essa ressalva delineia um dos aspectos centrais do pensamento de Nkrumah, a saber, a questão do neocolonialismo. Em Neocolonialismo: o último estágio do imperialismo (1965), Nkrumah argumenta que, a soberania política formal conquistada por alguns países africanos, por exemplo, o rompimento do vínculo colonial, a criação de símbolos nacionais e culturais próprios, não era suficiente para conquistar a independência política completa, uma vez que concretamente muitos desses países ainda mantinham relações de dependência econômica com as metrópoles. Tal como afirmou:
“O objetivo desse Sistema é comprar matérias-primas e trabalho baratos das colônias e vender produtos manufaturados de alto valor para elas[…] Isto, novamente, prova que enquanto as potências coloniais forem capazes de manter as colônias nesse sistema econômico[…] os sujeitos coloniais não poderão progredir longas distâncias e permaneceram afetados pela pobreza e com um padrão de vida abaixo do normal”[5].
Com efeito, o vínculo colonial formal se estabelece para garantir a reprodução desse sistema e o seu rompimento é um passo para superá-lo, porém, uma vez conquistada o processo deve ser levado adiante.
Para Nkrumah, esse passo adiante necessariamente envolvia uma política de unificação política africana, o Pan-africanismo. O Pan-Africanismo de Kwame Nkrumah propunha a criação de uma rede regional de cooperação entre países africanos para o desenvolvimento mútuo das suas relações políticas, econômicas e militares. Para Nkrumah, o Pan-Africanismo não era apenas uma questão moral de solidariedade, mas uma necessidade. Reconhecendo as limitações da independência política formal, os países africanos independentes continuam a sofrer com os problemas duradouros das políticas coloniais. Por esse motivo, assinalava Nrkumah, permanecendo isolados política, econômica e militarmente estes estados não conseguiriam mobilizar os recursos necessários para superar os problemas sociais e o subdesenvolvimento. Nenhum país africano isoladamente poderia desenvolver um plano de industrialização e reformas econômicas por si só, ou construir isoladamente um arcabouço militar de defesa robusto para debelar forças invasoras[6].A única alternativa seria elaborar planos abrangentes de cooperação entre todos os países nessas áreas. Em última análise, no sentido institucional, Nkrumah propunha uma União Africana semelhante à concepção da União Européia.
Nesse contexto, o Pan-africanismo se apresenta como necessidade, na medida em que o desenvolvimento e superação dos problemas de uma nação africana pressupõe a sua superação mútua por todos os países do continente africano. Assim, o seu nacionalismo anticolonial leva à solidariedade internacionalista.
O autogoverno, o neocolonialismo e o pan-africanismo constituem importantes pilares para a atuação política de Kwame Nkrumah nos seus anos de governo. Também lhe garantiu importante projeção internacional como liderança imperialista. Este processo seria mais tarde interrompido por um golpe de estado articulado pelas forças armadas de Gana em conjunto com os EUA e a Inglaterra.
[1] Doutorando em Filosofia pela Universidade de East Anglia e escritor.
[2] MARABLE, M. African & Caribbean Politics: from Kwame Nkrumah to Maurice Bishop. London: Verso, 1987, p.94-5.
[3] Ibid., p.95; apud PRASHAD, V. The Darker Nations: a people’s history of the third world. London & New York: The New Press, 2007, p.23-4.
[4] NKRUMAH, K. Kwame Nkrumah: discursos pan-africanistas. Tradução: Letícia Bergamini Souto. São Paulo: Expressão Popular, 2025, p.38.
[5] NKRUMAH, K. Revolutionary Path. London: PANAF, 1973, p.26.
[6] NKRUMAH, 2025, p.143.
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