As flores coloridas que enfeitam a sepultura e contrastam com a pintura branca do túmulo mostram que a devoção permanece viva. No centro do crucifixo, uma imagem já desgastada pelo tempo retrata Severa Romana, personagem que atravessou gerações e se tornou uma das mais conhecidas santas populares de Belém.
Mas quem foi, de fato, a mulher que ainda recebe homenagens mais de um século após sua morte? E como uma lavadeira do início do século XX se transformou em símbolo de fé para tantas pessoas?
Parte dessas respostas está preservada em um conjunto de documentos históricos guardados pelo Centro de Memória da Amazônia (CMA), instituição vinculada à Universidade Federal do Pará (UFPA). Entre os arquivos está o processo criminal que julgou o assassinato de Severa Romana, integrante do acervo do histórico do Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJE-PA).
As páginas manuscritas registram os detalhes de um crime ocorrido há 126 anos. Mais do que reconstruir um episódio marcante da história de Belém, o documento também permite refletir sobre formas de violência contra mulheres que continuam presentes na sociedade.
O crime que deu origem à comoção popular
Severa Romana foi assassinada em 2 de julho de 1900 dentro da residência onde morava, na rua João Balbi. Na época, o Umarizal ainda era considerado uma área praticamente isolada da cidade.
Casada com Pedro Cavalcante de Oliveira, ela trabalhava como lavadeira e também preparava refeições para os moradores da casa onde vivia. Como era comum naquele período, diferentes pessoas dividiam a mesma residência para reduzir despesas. Eram as famosas pensões.
Entre os moradores da residência vivia o cabo Antônio Ferreira dos Santos, autor do assassinato de Severa Romana.
Segundo o processo, durante uma refeição na residência, o militar tentou abusar sexualmente de Severa. A mulher, que estava nos últimos meses de gestação, resistiu. Diante da reação, ele a matou com golpes de navalha.
Os depoimentos registrados no processo
Uma das testemunhas ouvidas foi a parteira Joanna Maria Gadelha, proprietária da residência e também moradora do local.
Ela relatou que estava no quintal quando ouviu os gritos de Severa. Ao chegar à sala, encontrou a mulher caída no chão.
O processo registra o seguinte trecho do depoimento:
“Perguntando ao denunciado presente o que elle havia feito a infeliz Severa elle enfezado respondeu a ella testemunha que se retirasse porque senão far-lhe-ia o mesmo”.
Outro relato importante foi o do vizinho José do Patrocinio da Costa Santos. Ele afirmou que, ao chegar à residência após ouvir os gritos, viu o cabo Antônio Ferreira dos Santos correndo em direção à travessa 14 de Março enquanto tentava fugir da perseguição de moradores da região.
Julgamento e revolta popular
A indignação provocada pelo assassinato aparece em diferentes momentos do processo.
Um dos registros descreve a chegada do acusado ao prédio onde ocorreu o julgamento. Escoltado pela polícia, ele foi recebido por uma multidão que se reuniu diante do local e gritava: “fora a fera fardada”.
Durante o julgamento, a defesa tentou evitar a condenação atacando a reputação da vítima e buscando responsabilizá-la pela própria morte.
Apesar da estratégia, a Justiça condenou Antônio Ferreira dos Santos a 30 anos de prisão pelo assassinato de Severa Romana, em outubro de 1902.
A comoção popular foi tão intensa que jornais da época relataram a realização de uma campanha para garantir a construção da sepultura da vítima no Cemitério de Santa Izabel.
Em edição publicada em 11 de agosto de 1900, o jornal O Pará registrou um pedido encaminhado à Intendência pela Sociedade Beneficente Santa Rita dos Impossíveis solicitando a cessão gratuita do espaço onde Severa seria sepultada.
Como nasceu a devoção a Severa Romana
A forte mobilização provocada pelo crime ajudou a transformar a memória de Severa Romana em símbolo de devoção popular.
Com o passar dos anos, sua sepultura passou a receber visitas, flores e homenagens constantes. A preservação dessa memória atravessou gerações e consolidou sua imagem como santa popular entre muitos paraenses.
O valor histórico dos documentos
A compreensão desse processo só foi possível graças ao trabalho de preservação e catalogação realizado pelo Centro de Memória da Amazônia.
Além do caso de Severa Romana, diversos outros processos integram o arquivo histórico oriundo do Tribunal de Justiça do Estado do Pará. Esses documentos ajudam a compreender relações sociais, formas de organização da sociedade e acontecimentos que marcaram diferentes períodos da história amazônica.
Para quem pesquisa e a analisa as documentações, o processo vai além da reconstrução de um crime histórico. A história de Severa Romana vai além do passado e expõe uma realidade que ainda afeta milhares de mulheres em todo o mundo.
Memória para além da pesquisa acadêmica
Para a historiadora Magda Ricci a função do Centro de Memória da Amazônia não se limita à preservação documental.
Segundo ela, o acervo precisa servir não apenas aos pesquisadores, mas também à sociedade.
“A função do Centro de Memória é, também, divulgar o que essas documentações ou esses fundos podem proporcionar. O que a história da Amazônia, a partir desses arquivos, pode oferecer e divulgar para dentro e para fora do Pará e da Amazônia?”, questiona.
Para Magda Ricci, o potencial desses documentos é praticamente inesgotável.
“A potencialidade de cada uma dessas fontes é imensa. Cada um desses documentos é especial porque guarda vidas”.
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