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Os edifícios que inauguraram a era dos arranha-céus na Amazônia

Edifício Manoel Pinto da Vila foi, por muitos anos, o prédio mais alto de toda a Amazônia. Um marco dos arranha-céus que surgiram naquele período. Foto: Irene Almeida/Diário do Pará.

Remanescentes de um período em que Belém vivia os ares da modernização, refletidos também na arquitetura, os grandes edifícios caracterizados por sequências de janelas alinhadas ao longo de suas fachadas resistiram às transformações ocorridas ao longo das décadas.

Mais do que prédios antigos, essas construções ajudam a contar a história de um importante período da capital paraense.

É o caso do conhecido Edifício Palácio do Rádio, na avenida Presidente Vargas, que carrega no próprio nome a referência à atividade que deu origem ao imóvel.

Embora tenha sido inaugurado nos anos 1950, o Edifício Palácio do Rádio remete a um momento histórico em que Belém vivenciou mudanças iniciadas décadas antes.

Mesmo diante de um cenário de crise, iniciativas buscavam resgatar o período de bonança vivido pela cidade no passado, ainda que sob uma nova perspectiva.

A verticalização de Belém

Nesse contexto, construíram o edifício em um momento em que a cidade de Belém ainda sofria os impactos da crise econômica iniciada após o fim do chamado ciclo da borracha.

Apesar isso, a cidade também passava por um cenário de iniciativas modernizadoras que buscavam recuperar aquela Belém de outrora, mas agora a partir da ideologia de modernização da chamada Era Vargas.

As crises enfrentadas pela capital na década de 1940 — envolvendo serviços públicos, transporte e abastecimento alimentício, entre outros setores — começaram a diminuir apenas após a Segunda Guerra Mundial.

Avenida Presidente Vargas – antiga Av. 15 de Agosto – em 1948, ainda sem os arranha-céus da época. Foto: Reprodução.

Com isso, o movimento econômico impulsionado pelo conflito provocou um sensível aumento populacional em Belém. Este cenário acelerou o processo de verticalização que havia começado de forma tímida nos anos 1930.

Foi nesse período que surgiram investimentos do capital remanescente da economia da borracha. Além deles, criaram-se normas que incentivavam a construção de edifícios altos na avenida Presidente Vargas, especialmente a partir da Lei 3.450, de 1956.

A legislação estimulava uma verticalização quase compulsória ao exigir prédios com, no mínimo, 12 pavimentos na Presidente Vargas e 10 pavimentos nas vias transversais.

Essas medidas já estavam previstas no Plano de Urbanização de Belém de 1943, elaborado pelo engenheiro Jerônimo Cavalcante.

Em um primeiro momento, a verticalização ficou restrita à avenida Presidente Vargas. Depois, o processo avançou de forma intermitente durante as décadas de 1940 e 1950, consolidando-se nos anos 1960.

Os primeiros edifícios

Os primeiros edifícios altos começaram a surgir no fim da década de 1930, como:

  • o Edifício Bern, construído entre 1938 e 1940;
  • o Edifício Costa Leite, projetado por Judah Levy e Davi Lopes, arquiteto português, também no fim da década;
  • o Edifício Piedade, de 1946, igualmente assinado por Judah Levy;
  • e o Edifício Dias Paes, de 1945.
Edifício Piedade na década de 1950, na avenida Presidente Vargas. Um dos primeiros arranha-céus da avenida. Foto: Reprodução

O surgimento do Palácio do Rádio

Acompanhando a tendência de modernização da época, o proprietário de uma emissora de rádio encomendou o Edifício Palácio do Rádio. Desde o início, ele reuniu diferentes atividades em um único espaço.

Após a inauguração, em 15 de dezembro de 1956, os jornais da época destacaram as inovações trazidas pelo edifício para a cidade.

Edifício Palácio do Rádio na década de 1970. Foto: Reprodução/Página Fragmentos de Belém

Segundo registros históricos, foi o primeiro prédio a contar com incinerador de lixo. Ele também foi o primeiro a utilizar materiais nobres, como mármore, no hall de entrada, na fachada e nas escadas.

O edifício ainda tinha ascensoristas para auxiliar os convidados durante festas e abrigava diferentes serviços, como restaurante, bar e “boite”.

No imóvel funcionava o escritório da Rádio Clube do Pará, coproprietária do edifício. Posteriormente, o prédio também abrigou um cine-teatro conhecido como Cine Palácio.

Inaugurado na década de 1950, o Palácio do Rádio é um espaço de convivência entre comércio e moradores. O prédio é um representante do período em que os primeiros arranha-céus foram erguidos na capital paraense. Foto: Mauro Ângelo/ Diário do Pará.

A característica de reunir diferentes usos em um único imóvel permanece até hoje no Edifício Palácio do Rádio. No térreo, o prédio ainda concentra diversos serviços. Já nos andares superiores, convivem apartamentos residenciais e salas utilizadas como escritórios. Em ambos os casos, não faltam histórias envolvendo o famoso edifício.

O símbolo da verticalização

Outro edifício emblemático incorporado ao cenário de Belém durante o processo de verticalização foi o Manoel Pinto da Silva. Inaugurado na década de 1950, o prédio marcou época ao se tornar, por muitos anos, o mais alto da Amazônia.

A construção possui aproximadamente 108 metros de altura e 26 andares. Quando inaugurado, o edifício passou a concentrar o maior número de apartamentos da região. Além disso, ele integrou o grupo dos primeiros prédios a adotar sistemas modernos de elevadores e corredores abertos para melhorar a ventilação.

Famoso pela vista privilegiada do Círio de Nazaré, o Edifício Manoel Pinto da Silva foi inaugurado em 1951. Antes dele, porém, a esquina das avenidas Nazaré e Serzedelo Corrêa abrigava a mercearia conhecida como Casa Outeiro, datada de 1910. O antigo casarão, demolido para dar lugar ao edifício na década de 1950, aparece em registros da Revista de Belém de 1910.

Antiga Casa Outeiro, na Av. de Nazareth esquina com a av. Serzedelo Corrêa, onde hoje está o Edifício Manoel Pinto da Silva. Foto: Reprodução/Revista de Belém de 1910.

Mesmo após décadas, o edifício segue com um dos arranha-céus mais emblemáticos da capital e abriga dezenas de moradores que preservam histórias vividas no local.

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