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Os corredores da Dama por onde circulam Sophia, Tarsila e Cesária

A força no pulsar do agora – Foto – Sérgio Augusto do Nascimento

Há três nomes lusófonos sem os quais seria impossível imaginar o mundo das artes nos dias de hoje e que parecem dominar o segredo de permanecer quando tudo passa: Sophia de Mello Breyner Andresen, Tarsila do Amaral e Cesária Évora. 

Três mulheres, três geografias da língua portuguesa, três maneiras de transformar silêncio em presença. E é por elas que, nos corredores da Dama Art Gallery, no Centro Empresarial do Porto, a alma eleva-se acima do chão. Cada vez que seus nomes são pronunciados, renova-se sempre a eternidade.

Sophia, a poeta portuguesa que fez do mar uma espécie de pátria; Tarsila, a brasileira que reinventou o Brasil com cores capazes de atravessar oceanos; Cesária, a cabo-verdiana que fez do canto uma casa para a saudade do mundo. 

Há algo belo em colocar as três sob o mesmo teto: a cultura internacional quando é feita desses encontros improváveis, dessas mulheres que, cada uma à sua maneira, abriram caminhos para tantas outras. Mulheres que não apenas produziram arte, mas alargaram o espaço possível para que outras mulheres pudessem existir, criar, viajar, ocupar galerias, palcos, museus e livros.

As portas que se fecharam para reinventar um destino

Cada vez que passa por aqueles corredores, a paulista Cristina Bernardini, mulher de muitas partidas e outras tantas chegadas, suspira e vive cada uma daquelas mulheres. Há 37 anos ela trabalhava na Varig, companhia aérea que hoje é apenas uma lembrança para quem viveu aquele tempo. 

A empresa a trouxe para longe de São Paulo. Primeiro, o Canadá, onde viveu seis anos. Depois, Portugal. A Varig lhe ofereceu o caminho, mas não poderia imaginar que, anos depois, seria justamente uma interrupção que lhe ensinaria a inventar outro destino.

A companhia fechou as portas e Cristina ficou diante daquela pergunta que às vezes aparece sem pedir licença: voltar ou permanecer? O Brasil estava do outro lado do oceano, inteiro dentro da memória e Portugal já havia entrado pelos hábitos, ruas, amizades, e a vida. Ela decidiu ficar. E então precisou começar outra vez.

Recomeçar aos poucos também é uma forma de coragem. Cristina estudou artes, aproximou-se da música, do teatro, da cultura, e foi construindo uma nova vida profissional. A menina que havia estudado turismo e aprendido a atravessar fronteiras encontrou, anos depois, uma fronteira mais delicada: aquela entre a vida em que se imaginou e a vida que acabou por seguir.

Hoje, na cidade do Porto, esse caminho tem paredes, três andares e nome de mulher: Dama. A galeria tem dois anos e nasceu de uma vontade antiga: unir arte e negócios, transformar um espaço físico em lugar de encontros e fazer da circulação das obras uma espécie de ponte entre países.

As paredes que antes estavam vazias agora conversam com quem passa. Há artistas brasileiros, portugueses, africanos, colombianos, japoneses, alemães, espanhóis e de outros países. 

Há pintura, encontros e livros, mas também música e dança. E um auditório onde a arte pode mudar de roupa sem deixar de ser arte. Num dia, uma exposição, em outro, um lançamento e, depois de algumas horas, uma apresentação.

Essa Dama sabe que cultura não gosta de ficar parada. E a poesia está no batizado, onde os três andares receberam os nomes de Sophia, Tarsila e Cesária. Não são apenas citações. São presenças onde cada mulher, além das três artistas, são homenageadas simplesmente por serem mulheres.

Cristina atua como curadora, faz mentoria e gestão de carreiras artísticas, ministra aulas e palestras sobre curadoria e mercado de arte. E há uma frase sua que explica muito de seu modo de trabalhar: não é concorrente dos artistas. 

Eles são importantes e ela está ali para desbravar e destravar caminhos, criar pontes, descobrir possibilidades. Talvez seja essa a palavra que melhor descreva sua trajetória: ponte.

Ponte entre o Brasil e Portugal. Entre artistas e público, experiência empresarial e a delicadeza necessária para olhar uma obra. Ponte que liga a jovem que saiu de São Paulo há quase quatro décadas e a jovem que hoje atravessa aeroportos carregando consigo uma galeria que, na verdade, não cabe em lugar nenhum, de tão delicada e imensa em saberes.

A galeria itinerante

A Dama também é itinerante. O nome viaja com Cristina pelas feiras internacionais, como viajam as obras, os artistas, as ideias. A galeria já passou por espaços como o Campo de Justiça e a Ordem dos Advogados, em Lisboa, e segue construindo essa geografia particular da arte. 

Este ano, a viagem passou por Barcelona e vai ainda a Paris, Dubai, e o Qatar, onde a embaixadora Cristina representa Portugal no Qatar International Art Festival.

É uma agenda que poderia parecer apenas uma sucessão de aeroportos, hotéis, malas e compromissos. Mas há outra maneira de olhar para ela. Cada viagem é uma continuação daquela primeira partida na Varig. Só que agora Cristina não viaja para trabalhar para uma companhia aérea; levanta voo levando o próprio trabalho, os seus artistas, as suas escolhas.

E há o toque brasileiro nisso: sair, aprender o mundo e, ainda assim, levar o Brasil consigo. Cristina sabe que ser imigrante não é simples. Sabe também que o tempo muda muita coisa, menos certas raízes. 

Tem nacionalidade portuguesa, construiu sua vida em Portugal, mas não deixou de ser brasileira, mulher, negra. Há identidades que não desaparecem quando atravessamos uma fronteira; apenas aprendem a conversar com outras.

E então percebo que Cristina é a quarta dama dessa tela que nunca termina de ser pintada. Sophia lhe empresta o azul profundo do mar e a palavra que sabe permanecer; Tarsila, as cores com que se inventam mundos onde antes havia apenas horizonte e Cesária a voz morna e funda de quem conhece a distância e, ainda assim, canta para que ninguém se sinta sozinho.

* Sérgio Augusto do Nascimento é paraense, vive em Portugal e é colunista do DIÁRIO na Europa.

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