Ele saiu da casa dos pais aos 14 anos e diante de si tinha um mundo que o esperava. Era ainda um garoto quando deixou para trás a segurança das paredes conhecidas, levando com ele coragem, curiosidade e aquela inquietação que algumas pessoas carregam desde cedo, como um chamado silencioso para descobrir o que existe depois da próxima esquina. Não sabia exatamente onde queria chegar, mas tinha certeza que precisava ir.
Kauan Von Novack nasceu em Curitiba (PR) e desde muito cedo preferia os livros de uma biblioteca aos estádios de futebol. Começou a trabalhar fazendo sites para empresas e, aos 19 anos, já tinha 60 colaboradores. Vendeu tudo e foi para o Vale do Silício, nos Estados Unidos. Depois foi para Amsterdã, na Holanda, e hoje é o CEO da Hypernova, em Aveiro, na região Centro de Portugal. Tecnologia e aceleração de startups são suas especialidades.
A história assim contada dá a impressão de ter sido fácil. Mas, logo de cara, o garoto percebeu que empreender não era apenas abrir um negócio, era aprender a levantar quando alguma coisa dava errado, olhar para uma porta fechada e procurar outra entrada e transformar uma ideia em movimento.
Kauan já trabalhou em diferentes lugares do mundo, conheceu culturas, pessoas, empresas e maneiras muito diferentes de fazer negócios. Aprendeu que cada país tem seu próprio ritmo, dores, regras e sonhos. Viu empresas gigantes, pequenas iniciativas familiares, grandes planos apresentados em salas sofisticadas e negócios modestos que prosperavam quase em silêncio.
Quanto mais conhecia, mais entendia que o mundo dos negócios podia ser fascinante, além de assustadoramente complexo. Havia modelos para tudo, mais estratégias, metodologias, fórmulas, indicadores, tendências, apresentações intermináveis, palavras difíceis e soluções para problemas que, muitas vezes, ninguém sabia ao certo como resolver. Foi em meio a esse turbilhão de informações que alguma coisa começou a acontecer dentro dele.
A contradição escondida
E foi longe de casa, como tantas vezes acontece quando precisamos nos afastar para enxergar melhor aquilo que sempre esteve diante dos nossos olhos, que ele viu que havia uma contradição escondida no universo do empreendedorismo: quanto mais as pessoas procuravam respostas sofisticadas, mais os negócios que realmente funcionavam pareciam voltar ao essencial.
E isso significava ouvir o cliente, resolver um problema real, entregar bem, cumprir a palavra e cuidar das pessoas. Depois de atravessar fronteiras, conhecer diferentes mercados e mergulhar em tantos modelos de negócios, ele comprovou que o sucesso raramente morava naquilo que é excessivo. Muitas vezes está no que conseguimos explicar em poucas palavras.
Um bom negócio não precisa ser um labirinto e, naquele momento, o garoto que havia saído cedo da casa dos pais entendeu que sua maior viagem não tinha sido entre países, e sim havia acontecido dentro dele. Vinte e três anos depois, Kauan, também hoje palestrante internacional, certamente ainda carrega aquele garoto, que agora inspira outros empreendedores em várias partes do planeta.
* Sérgio Augusto do Nascimento é paraense, vive em Portugal e é colunista do DIÁRIO na Europa.
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