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Marvão: onde as pedras aprenderam a vigiar o tempo

Erguido sobre uma montanha no Alentejo, o Castelo de Marvão mistura guerras, lendas e paisagens que parecem saídas de um sonho medieval.

Há castelos que contam a história de um reino. E há castelos que parecem contar a história do próprio vento. O Castelo de Marvão pertence a esta segunda categoria. Quem sobe a serra pela estrada sinuosa vê primeiro a montanha. Depois, vê a névoa e, quase sem perceber, vê surgir das rochas uma muralha que parece não ter sido construída pelos homens, mas pela própria geologia do mundo. Como se a montanha, cansada de ser apenas pedra, tivesse decidido transformar-se em fortaleza.

Marvão não está pousado sobre a serra; é a serra. A 850 metros de altitude, sobre uma crista quartzítica que se ergue acima dos vales do Alentejo, o castelo observa os séculos com a paciência das coisas eternas. Lá embaixo, os campos mudam de cor, os reinos mudam de nome, as fronteiras deslocam-se, os homens nascem, guerreiam e desaparecem. Mas ali, sobre as alturas, as pedras permanecem.

Talvez por isso exista em Marvão uma estranha sensação de suspensão do tempo. Os arqueólogos falam de castros pré-históricos. Os historiadores procuram vestígios romanos e discutem se ali teria existido a antiga Medóbriga, disputada por generais e conquistadores. As páginas dos livros registram suevos, visigodos, mouros, reis, cavaleiros e exércitos. Mas as pedras do castelo parecem guardar um segredo diferente: elas sabem que todas essas histórias são apenas breves passagens diante da longa respiração da montanha.

A lenda muçulmana e a história dos reis

A lenda muçulmana

Foi ali que, no século IX, surgiu a figura quase lendária de ibne Maruane, o rebelde muçulmano que deu nome ao lugar. Amaia de ibne Maruane, diziam, entre sussurros de receio e certezas incertas. Com o passar do tempo, os séculos foram desgastando as sílabas até restar apenas Marvão, palavra que hoje parece tão antiga quanto as nuvens que atravessam a serra.

Vieram depois os reis portugueses. D. Afonso Henriques conquistou a região. D. Sancho II concedeu-lhe foral para que a povoação resistisse às ameaças vindas de Castela. D. Dinis fortaleceu as muralhas e mandou erguer a torre de menagem, essa sentinela quadrada que ainda hoje aponta para o céu como um dedo de pedra tentando tocar a eternidade.

Porque Marvão nunca foi apenas uma vila: foi fronteira. E as fronteiras vivem inquietas. Durante séculos, homens armados cruzaram aqueles caminhos. Das ameias observavam-se movimentos suspeitos. Das torres avistavam-se colunas de poeira levantadas por cavalos inimigos. Espanhóis, portugueses, franceses, liberais, miguelistas. Todos passaram por ali deixando cicatrizes invisíveis nas muralhas.

O castelo resistiu. Resistiu como resistem os sobreiros ao calor do verão: silenciosamente. Talvez porque tenha aprendido cedo que as guerras terminam sempre, mas as montanhas permanecem. Ao caminhar hoje pelas suas muralhas, o visitante encontra canhoneiras abertas para horizontes infinitos. Vê torres, cubelos, barbacãs e linhas defensivas que se desenham umas dentro das outras como círculos de proteção. Tudo ali fala de combate.

E, no entanto, o que mais impressiona é a paz. Uma paz antiga. Uma paz feita de vento. Porque o vento em Marvão nunca se cala. Ele percorre as ameias. Desce pelas escadarias. Passa entre as pedras centenárias. Parece procurar alguém. Talvez procure os antigos guardas. Talvez procure os reis. Ou talvez procure uma história ainda mais antiga.

A lenda que reza

E a história da Senhora da Estrela? Reza a lenda que, quando os mouros avançaram pela região, os habitantes esconderam as suas imagens sagradas antes de fugir para as montanhas das Astúrias. Mais de quatrocentos anos depois, durante a Reconquista, um pastor avistou uma estrela brilhando sobre um monte. Guiado por aquela luz misteriosa, encontrou entre as rochas uma imagem de Nossa Senhora.

Ali ergueu-se um convento, nasceu uma devoção. E ali começou uma das mais belas lendas de Marvão. Dizem que certa noite forças castelhanas aproximavam-se em silêncio do castelo, conduzidas por traidores que conheciam os caminhos ocultos da serra. Tudo indicava que a fortaleza seria surpreendida.

Então, no meio da escuridão, ouviu-se uma voz feminina, clara e firme. “Às armas!”. Os sentinelas despertaram. Os soldados correram para as muralhas. E os invasores, tomados pelo medo, fugiram encosta abaixo. Ninguém soube explicar quem falara. Mas o povo soube. Desde então, acreditou-se que fora a Senhora da Estrela protegendo os seus. E há lendas que sobrevivem porque dizem mais sobre a alma de um lugar do que qualquer documento. Talvez seja por isso que Marvão emociona. Não apenas pela beleza, nem apenas pela história, mas porque ali o visível e o invisível caminham lado a lado.

As pedras contam fatos e o vento conta mistérios. A história fala dos reis e a lenda fala dos sonhos. E ambos convivem harmoniosamente sobre aquela montanha. Quando o sol se põe e a luz dourada escorre pelas muralhas, o castelo parece regressar à sua condição primordial: não a de fortaleza, mas a de miradouro do infinito.

Ali compreendemos que os homens construíram muralhas para se defender dos inimigos, mas acabaram construindo, sem saber, um lugar destinado à contemplação. E então percebemos que o Castelo de Marvão não guarda apenas a fronteira de Portugal. Guarda algo mais raro. Guarda a memória do espanto.

Esse espanto antigo que sentimos diante das montanhas, das estrelas, das lendas e do tempo. Esse espanto que faz uma pedra parecer viva. E uma fortaleza parecer eterna…

Sérgio Augusto do Nascimento é um jornalista paraense que vive em Portugal. Já foi repórter e editor e hoje é correspondente do DIÁRIO na Europa.

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