Um dos orixás mais cultuados nas religiões de matriz africana, Exu é também frequentemente alvo de entendimentos equivocados. Além de ser erradamente associado ao mal e à figura do diabo das religiões cristãs, também é muito confundido com os exus entidades da Umbanda e Quimbanda, espíritos guardiões que comandam linhas de trabalho espiritual ligadas a diferentes orixás. Neste caso, o mais popular é exu Tranca-Ruas, lembrado em 24 de agosto, mas há entidades como os exus Sete Encruzilhadas, Marabô, Tiriri, Tatá Caveira, Veludo, e Exu do Lodo.
Divindade primordial da mitologia Iorubá, o orixá Exu é tido como uma força ancestral de antes do mundo, princípio da comunicação e do movimento no universo. É quem rege os começos, a ordem, a transformação, dono das encruzilhadas e das interseções. Sua associação com o mal é um erro histórico que vem sendo propagado pelo racismo religioso.
Foi exatamente em buscar de combater o racismo religioso que a escola de samba Acadêmicos da Grande Rio levou à Sapucaí, em 2022, o enredo dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, “Fala, Majeté! As Sete chaves de Exu!”, exaltando a força do orixá. A escola terminou campeã naquele ano.
Falar de Exu contra o racismo religioso
Para a Yalorixá de Candomblé nação ketu, Mãe Juci D’Oyá, todas as iniciativas que tragam o verdadeiro significado dessa figura religiosa são importantes e necessárias contra o preconceito. No texto a seguir, ela explica o que o Exu significa para os povos de terreiro. Confira a seguir:
“Falar de Exu é também enfrentar séculos de preconceito, desinformação e racismo religioso.
Durante muito tempo, a sociedade brasileira aprendeu a olhar para as divindades africanas a partir de uma visão cristianizada e colonial. Nesse processo, Exu talvez tenha sido uma das figuras mais perseguidas e deturpadas. Foi associado ao mal, ao pecado e ao “diabo”, conceitos que não correspondem ao seu significado dentro da cosmologia dos povos de tradição africana.
Exu não é o diabo.
Para nós, povos de terreiro, Exu é princípio de movimento, comunicação, transformação e possibilidade. É aquele que transita, que comunica, que leva e traz mensagens, que movimenta as relações e abre os caminhos para que as coisas aconteçam.
Exu também nos ensina sobre responsabilidade. Nem todo caminho aberto deve ser percorrido. Nem tudo aquilo que desejamos foi feito para nós. Escolher, compreender as consequências das escolhas e saber a hora de avançar ou recuar também fazem parte de seus ensinamentos.
É por isso que, em nossas tradições, Exu ocupa um lugar fundamental. Antes de muitas ações rituais, é preciso reconhecer sua presença. Ele representa a dinâmica da própria vida: nada permanece completamente parado, tudo se comunica, se encontra, se transforma.
E por que falar de Exu no dia 24 de agosto?
E por que falar de Exu no dia 24 de agosto?
O dia 24 de agosto é tradicionalmente dedicado a São Bartolomeu no calendário católico. No Brasil, processos históricos de aproximação e sincretismo fizeram com que a data também se tornasse, em diferentes tradições e territórios, um momento associado a Exu e às entidades ligadas às encruzilhadas, à comunicação e aos caminhos.
É importante, porém, compreender que Exu existe muito antes dessas associações. Sua origem está nas cosmologias africanas trazidas ao Brasil pelos nossos ancestrais e preservadas, apesar da escravização, das perseguições e das tentativas de apagamento das religiões de matriz africana.
Por isso, o 24 de agosto pode ser também uma oportunidade para desmistificar.
Quando alguém chama Exu de demônio, não está apenas cometendo um equívoco religioso. Está reproduzindo uma construção histórica que demonizou símbolos, saberes e divindades africanas. Combater essa visão é também combater o racismo religioso.
Conhecer Exu é perceber a complexidade de uma filosofia que fala de movimento, troca, palavra, escolha, consequência e transformação.
Exu está na comunicação.
Exu está no encontro.
Exu está na encruzilhada onde precisamos decidir qual caminho seguir.
Encruzilhada como espaço de possibilidades
A encruzilhada, para nós, não precisa ser compreendida como lugar do medo. Ela é também espaço de possibilidades. É onde caminhos diferentes se encontram e onde uma escolha pode transformar nosso destino.
Talvez seja essa uma das grandes lições que Exu pode oferecer para uma sociedade que ainda precisa aprender a conviver com as diferenças: existem muitos caminhos, muitas formas de compreender o sagrado e muitas maneiras de estar no mundo.
Desmistificar Exu é reconhecer a dignidade das tradições africanas e afro-brasileiras. É combater o racismo religioso por meio da informação. É permitir que nossas crianças cresçam sabendo que aquilo que pertence à sua ancestralidade não é motivo de medo ou vergonha, mas fonte de conhecimento, identidade e resistência.
No dia 24 de agosto, que a palavra possa vencer o preconceito e que o conhecimento abra caminhos onde a desinformação construiu muros.
Laroyê Exu!
Exu é Mojubá!”
*Mãe Juci D’Oyá é Yalorixá de Candomblé nação ketu, Baiana de Acarajé e guardiã de saberes ancestrais
O post Exu, o senhor dos caminhos, da comunicação e do movimento apareceu primeiro em Diário do Pará.






