Uma mensagem secreta escrita por Napoleão Bonaparte há 217 anos acaba de ter seu conteúdo reconstruído. Escondida durante séculos atrás de uma combinação de números, letras e símbolos, a carta revela informações militares que o imperador francês queria manter longe das mãos de seus inimigos.
O documento foi enviado ao general Auguste de Marmont em um dos momentos mais delicados das guerras napoleônicas. Agora, uma combinação de técnicas de criptografia, análise computacional e inteligência artificial permitiu descobrir o que estava escrito na mensagem.
A carta não era apenas uma correspondência pessoal. Ela continha informações sobre a localização e o tamanho de tropas francesas e aliadas na Europa, em meio aos preparativos para um novo conflito contra a Áustria.
O código que resistiu por mais de dois séculos
O manuscrito possui 24 linhas preenchidas por símbolos aparentemente desconexos. Ao todo, foram identificados aproximadamente 1.300 elementos cifrados e 155 símbolos diferentes.
O sistema utilizado por Napoleão era particularmente complicado porque uma mesma letra podia ser representada por diferentes símbolos. Esse mecanismo, conhecido como cifra homofônica, dificultava bastante a identificação das palavras.
A letra “e”, por exemplo, podia aparecer representada por nove símbolos diferentes.
Durante décadas, pesquisadores conseguiram avançar apenas parcialmente na interpretação do documento. Um estudo publicado em 1969 já havia identificado o significado de 33 símbolos utilizados na mensagem.
Foi a partir dessas informações que o novo trabalho conseguiu avançar.
Inteligência artificial entrou na investigação
O engenheiro de inteligência artificial Carter Church analisou uma reprodução digitalizada da carta e utilizou ferramentas computacionais para tentar reconstruir o código.
Segundo o pesquisador, o trabalho levou aproximadamente seis horas.
O processo combinou a análise do manuscrito com métodos matemáticos utilizados na quebra de cifras. Um deles é conhecido como “recozimento simulado”, técnica capaz de testar inúmeras combinações até encontrar uma solução que produza palavras e frases coerentes em francês.
A inteligência artificial ajudou principalmente na interpretação dos símbolos e na condução da busca por combinações possíveis.
Napoleão estava preocupado com uma nova guerra
O conteúdo revelado ajuda a esclarecer o contexto militar de 1809.
Naquele período, a Áustria se preparava para enfrentar novamente Napoleão. O imperador precisava manter seus comandantes informados sobre a localização de suas tropas, mas também precisava impedir que essas informações caíssem nas mãos do inimigo.
A mensagem enviada a Marmont trazia informações sobre diferentes contingentes militares.
Entre os dados reconstruídos aparecem referências a aproximadamente 40 mil homens entre Munique e Passau e outros 30 mil soldados na região do rio Vístula, além de informações sobre forças posicionadas em outras partes da Europa.
A correspondência também está relacionada a uma ordem enviada por Napoleão a Eugène de Beauharnais, seu enteado e vice-rei da Itália, em março de 1809.
A carta ainda revelou outro segredo
A carta havia sido tradicionalmente associada a 1807, mas a análise do conteúdo e a comparação com outras correspondências indicam que ela provavelmente foi escrita em março de 1809.
A nova data faz sentido com os acontecimentos militares daquele período, quando a França se preparava para enfrentar a Áustria na chamada Guerra da Quinta Coalizão.
Meses depois, Napoleão derrotaria as forças austríacas na Batalha de Wagram, em julho de 1809.
Documento não estava perdido
Apesar da descoberta, existe uma diferença importante: a carta não havia sido encontrada recentemente.
A imagem do documento já era conhecida pelos pesquisadores e havia sido publicada em 1969, em um estudo dedicado aos sistemas de criptografia utilizados durante o período napoleônico. O que permanecia sem solução era justamente o conteúdo escondido atrás dos símbolos.
Por que Napoleão usava códigos tão complicados?
A criptografia era essencial para os exércitos do século XIX. Mensagens transportadas por mensageiros podiam ser interceptadas, capturadas ou copiadas pelos adversários. Uma carta contendo a posição de milhares de soldados poderia, portanto, representar uma informação militar extremamente valiosa.
Os códigos utilizados pelo exército francês buscavam impedir que o inimigo entendesse uma mensagem mesmo que conseguisse colocar as mãos nela.
No caso da carta de Marmont, a quantidade de símbolos e a utilização de diferentes sinais para representar uma mesma letra tornavam a tarefa de decifração especialmente difícil.
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