Isolado em uma caverna há 36 anos, em meio à natureza preservada de Palhoça, Vilmar Godinho — conhecido na região como “Gilmar da Caverna” — pode ser forçado a deixar o refúgio em “paraíso” de praia de Santa Catarina.
O mais famoso homem das cavernas do Brasil virou o centro de uma disputa que mistura direito, meio ambiente e, para muitos, até um certo dilema moral digno de júri popular: afinal, ele deve sair ou pode continuar no refúgio que chama de lar há décadas? A permanência de Vilmar Godinho, conhecido como “Gilmar da Caverna”, em área de conservação em Palhoça gera impasse jurídico e ambiental enquanto o caso aguarda decisão da Justiça.
A situação, no mínimo incomum, colocou frente a frente dois entendimentos. De um lado, o Ministério Público de Santa Catarina defende que Vilmar permaneça na área. O órgão sustenta que não há risco ambiental relevante que justifique a retirada e chegou a propor um acordo permitindo que ele continue vivendo na caverna até o fim da vida — desde que sem ampliar construções ou intensificar o uso dos recursos naturais.
Do outro lado, o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina rejeitou a proposta. O instituto argumenta que a permanência do morador contraria as regras de proteção integral da unidade de conservação, onde a legislação é clara ao restringir ocupações humanas permanentes e qualquer tipo de intervenção direta.
A tentativa de conciliação travou. Embora Vilmar e o município tenham concordado com os termos sugeridos pelo Ministério Público, a negativa do IMA impediu a homologação do acordo pela Justiça.
Enquanto isso, o caso ganhou repercussão e mobilizou moradores da região, que organizaram um abaixo-assinado em defesa do “homem da caverna”. A iniciativa, porém, enfrentou instabilidade e chegou a sair do ar, refletindo a dificuldade até mesmo de organizar apoio em meio à complexidade do caso.
No processo, que tramita desde 2016 como Ação Civil Pública, o IMA sustenta que práticas como uso de fogão a lenha e coleta de frutos e raízes — atividades comuns à rotina de Vilmar — não são compatíveis com as regras ambientais da área protegida. Já o Ministério Público insiste que a permanência, nas condições atuais, não representa ameaça significativa.
Sem consenso, a decisão agora está nas mãos da Justiça. Até lá, permanece a pergunta que ecoa além dos autos: entre a letra fria da lei e uma vida inteira construída em isolamento, qual deve pesar mais?
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