Inadimplência bateu um novo recorde no Brasil em maio de 2026, quando 75,06 milhões de consumidores estavam com contas em atraso e restrições registradas nos cadastros de devedores. O contingente representa 44,80% de toda a população adulta do país e reforça o cenário de pressão sobre o orçamento familiar, provocado pela combinação de renda comprometida, juros elevados, inflação, aumento do custo de vida e dificuldade para reorganizar dívidas antigas. Os dados são do Indicador de Inadimplência da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do SPC Brasil.
Na passagem de abril para maio, o número de consumidores inadimplentes cresceu 0,44%. Embora a variação anual tenha ficado abaixo da observada no mês anterior, o país manteve a sequência de recordes. O avanço anual foi puxado principalmente por consumidores que acumulam entre quatro e cinco anos de inadimplência, grupo que apresentou crescimento de 38,35%.
Programas de renegociação não resolvem causas estruturais
O presidente da CNDL, José César da Costa, avaliou que programas de renegociação ajudam a recuperar o crédito de parte da população, mas não resolvem as causas estruturais do endividamento. “Mesmo com o programa Desenrola, que cumpre um papel fundamental de limpeza e de resgate de CPFs, a conjuntura geral que sufoca o orçamento familiar não se alterou; pelo contrário, piorou de maio para junho”, afirmou.
Segundo ele, muitos consumidores conseguiram renegociar apenas parte das pendências e continuaram com outras dívidas ou assumiram novos compromissos que voltaram a atrasar. “A piora do cenário macroeconômico, alta do dólar e juros altos exercem pressão direta sobre a inflação e o custo de vida”, acrescentou José César da Costa.
Perfil dos devedores e valores das dívidas
A maior concentração de inadimplentes está entre os brasileiros de 30 a 39 anos. São 18,23 milhões de consumidores negativados nessa faixa etária, o equivalente a 53,79% da população adulta desse grupo. Na distribuição por gênero, as mulheres representam 51,34% dos devedores, enquanto os homens correspondem a 48,66%.
A Região Norte apresenta o quadro proporcionalmente mais grave. Em maio, 48,48% da população adulta dos estados nortistas estava incluída em cadastros de inadimplência, índice superior à média nacional. No Sul, onde foi registrada a menor proporção entre as regiões, 40,78% dos adultos estavam negativados.
Na comparação anual do número de inadimplentes, entretanto, a maior alta ocorreu no Sul, com avanço de 9,86%. O Norte apareceu logo depois, com crescimento de 9,52%, seguido pelo Sudeste, com 7,94%; Centro-Oeste, com 7,08%; e Nordeste, com 6,04%.
Cada consumidor inadimplente devia, em média, R$ 5.145,04 em maio. Além disso, cada devedor mantinha pendências com aproximadamente 2,34 empresas credoras. Os dados também mostram que parte significativa das restrições é formada por valores relativamente baixos: 29,19% dos consumidores tinham dívidas de até R$ 500. Quando consideradas as pendências de até R$ 1 mil, o percentual sobe para 41,52%.
Seis dicas básicas para fugir do endividamento:
Impacto no comércio e tipos de dívidas
O cenário preocupa o comércio porque coincide com um período de forte estímulo ao consumo. Junho concentra o Dia dos Namorados, as festas juninas e, em 2026, o apelo dos jogos da Copa do Mundo, combinação batizada pelo setor de “Super Junho”. Para o presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro Júnior, o momento exige cautela tanto de consumidores quanto de lojistas.
O número total de dívidas em atraso cresceu 15,64% em maio de 2026 na comparação com o mesmo mês de 2025. Na passagem de abril para maio, houve aumento de 0,41%. A diferença entre o número de inadimplentes e o volume de dívidas ocorre porque uma mesma pessoa pode manter pendências com diferentes empresas e setores.
As contas de água e energia elétrica registraram a maior expansão entre os segmentos credores, com alta anual de 24,93%. Na sequência aparecem as dívidas de comunicação, que incluem serviços como telefonia e internet, com crescimento de 16,22%, e as pendências bancárias, com avanço de 14,63%. O comércio apresentou movimento contrário, com redução de 0,22% no total de débitos vencidos.
Bancos concentram dívidas
Apesar do crescimento mais acelerado das contas básicas, os bancos continuam concentrando a maior parte das dívidas, com 66,19% do total. Água e luz respondem por 10,68%; outros segmentos, por 9,25%; e o comércio, por 8,24%. A participação bancária inclui débitos relacionados a cartões de crédito, empréstimos, financiamentos, cheque especial e outros produtos financeiros.
Na análise regional do volume de dívidas, o Norte liderou o crescimento, com alta de 17,49% na comparação anual. O Sul aparece em seguida, com 16,88%, acompanhado pelo Sudeste, com 15,09%; Centro-Oeste, com 14,08%; e Nordeste, com 12,28%.
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