Uma cidade mencionada várias vezes nos Evangelhos e associada a alguns dos milagres mais conhecidos de Jesus pode finalmente ter sido localizada. Arqueólogos que trabalham no norte de Israel afirmam ter reunido evidências suficientes para identificar o sítio de el-Araj, às margens do Mar da Galileia, como a antiga Betsaida (Bethsaida).
A conclusão é defendida pelo historiador e geógrafo bíblico Steven Notley, diretor acadêmico do Projeto de Escavação de El-Araj. Depois de dez temporadas de pesquisas iniciadas em 2016, ele afirmou à Fox News que está “100%” convencido de que o local corresponde à cidade bíblica.
A afirmação, no entanto, deve ser tratada como uma identificação defendida pela equipe de arqueólogos, e não como uma questão encerrada para toda a comunidade científica. A localização exata de Betsaida é discutida há décadas, e outros sítios, especialmente et-Tell, continuam fazendo parte do debate arqueológico.
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Cidade ligada a três apóstolos
Segundo o Novo Testamento, Betsaida era a cidade natal dos apóstolos Pedro, André e Filipe. O local também aparece relacionado à passagem de Jesus pela Galileia e a episódios considerados milagrosos pelos Evangelhos.
Entre eles está o relato da cura de um homem cego, mencionado no Evangelho de Marcos. A região de Betsaida também está associada ao episódio da multiplicação dos pães e peixes para alimentar milhares de pessoas.
A cidade teria começado como uma comunidade de pescadores e, durante o período romano, adquirido importância maior. O historiador Flávio Josefo escreveu que Betsaida foi elevada à condição de cidade por Filipe, filho de Herodes, e recebeu o nome de Julias, em homenagem à filha do imperador Augusto.
O que foi encontrado
As escavações em el-Araj começaram em 2016, conduzidas pelo arqueólogo israelense Mordechai Aviam, do Kinneret College, em parceria com Notley.
Ao longo dos anos, a equipe encontrou vestígios de uma antiga comunidade judaica, incluindo pesos utilizados na pesca, recipientes de pedra, cerâmicas, moedas e estruturas do período romano. Também foram identificados restos de um antigo complexo de banho romano.
Mais de 200 moedas estão entre os objetos recuperados durante as pesquisas mais recentes. Segundo os pesquisadores, o conjunto de achados ajuda a reconstruir o tamanho e a importância do assentamento.
Um dos achados que mais chamou a atenção foi uma igreja bizantina do século 5, construída sobre estruturas mais antigas. O edifício possui mosaicos e inscrições relacionadas ao apóstolo Pedro.
Uma inscrição em grego encontrada no complexo utiliza títulos associados tradicionalmente a Pedro, incluindo referências ao “guardião das chaves”. Para os arqueólogos, isso reforça a possibilidade de que a igreja tenha sido construída em um local associado à memória do apóstolo.
Igreja pode ter sido construída sobre a casa de Pedro?
É justamente nesse ponto que a descoberta fica ainda mais interessante e também exige cautela. Uma antiga tradição cristã relatada pelo bispo Willibald, que visitou a região no século 8, dizia que havia uma igreja construída sobre a casa de Pedro e André em Betsaida.
A descoberta da igreja bizantina em el-Araj é considerada compatível com esse relato histórico. A equipe, porém, não encontrou uma prova definitiva de que os restos sob a igreja sejam efetivamente a residência de Pedro. O que existe é um conjunto de evidências arqueológicas e históricas que os pesquisadores consideram consistente com essa hipótese.
Em 2022, o Jerusalem Post destacou que a localização de Betsaida ainda era objeto de debate, embora os pesquisadores de el-Araj considerassem os achados no local um forte argumento a favor da identificação.
Incêndio acabou ajudando os arqueólogos
Em julho de 2025, um incêndio atingiu a região de el-Araj e destruiu grande parte da vegetação que escondia o terreno. Depois que as chamas foram controladas, os arqueólogos perceberam que partes do sítio eram muito maiores do que imaginavam.
O fogo revelou estruturas, pedras, fragmentos de cerâmica e elementos arquitetônicos que estavam escondidos pela vegetação. Entre eles estavam restos de possíveis edifícios públicos, como colunas e capitéis.
Para Aviam, a nova visão do terreno ajudou a compreender melhor o tamanho do antigo assentamento e sua possível relação com a descrição de Betsaida feita por Josefo.
Existe outra candidata
Apesar da confiança dos responsáveis pela escavação, el-Araj não é a única candidata a ser Betsaida.
Durante décadas, o sítio de et-Tell, localizado a cerca de dois quilômetros da margem atual do Mar da Galileia, foi considerado por pesquisadores como uma das principais possibilidades.
A distância em relação à água é um dos pontos centrais da discussão. Os defensores de et-Tell argumentam que mudanças no nível do lago e transformações geológicas poderiam explicar a distância atual. Já os pesquisadores de el-Araj destacam que seu sítio está muito mais próximo da margem e apresenta evidências de uma comunidade de pescadores do período associado à vida de Jesus.
Por isso, a descoberta não significa que uma localização tenha sido universalmente aceita. O que mudou é a quantidade de evidências acumuladas em favor de el-Araj.
“Última cidade perdida dos Evangelhos”
Para Notley, a importância da escavação está justamente no conjunto dos achados. Em vez de depender de uma única peça arqueológica, a identificação foi sendo construída ao longo de dez anos.
O pesquisador afirma que, desde o início das escavações, nenhuma descoberta contrariou a hipótese de que el-Araj seja Betsaida. Ao contrário, segundo ele, cada nova temporada acrescentou elementos ao argumento.
O sítio é atualmente tratado pela equipe como uma das principais candidatas à antiga cidade onde viveram três dos apóstolos mais próximos de Jesus e onde, segundo os Evangelhos, ocorreram importantes episódios de seu ministério.
Fontes: Fox News; The Times of Israel; The Jerusalem Post; Israel Antiquities Authority.
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