Uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, uma transmissão de televisão e um gesto que provocou indignação em todo o país. Em 12 de outubro de 1995, o então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Sérgio Von Helder, atacou uma imagem da santa durante o programa O Despertar da Fé, exibido pela TV Record. O episódio ficou conhecido como “chute na santa” e volta à memória brasileira em meio à atual polêmica envolvendo o título de Padroeira do Brasil.
A lembrança ganhou força depois que voltou a circular nas redes sociais um antigo projeto de lei que propunha mudar a forma como Nossa Senhora Aparecida era identificada na legislação brasileira. A proposta, porém, não é nova e tampouco está em tramitação.
O PL 2.623/2007 foi apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli, à época do PMDB-MT. O texto pretendia substituir, na Lei 6.802/1980, a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
A Câmara dos Deputados rejeitou a proposta na comissão que analisou seu mérito. Depois disso, o projeto acabou arquivado em 22 de agosto de 2008. Portanto, a proposta que voltou a circular não corresponde a um projeto novo em análise no Congresso.
O que foi o “chute na santa”?
Naquele 12 de outubro de 1995, enquanto católicos celebravam o dia dedicado à padroeira do Brasil, Sérgio Von Helder apareceu na televisão ao lado de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Durante o programa, o religioso criticou a veneração de imagens católicas. Em seguida, desferiu chutes e socos contra a imagem. O gesto foi transmitido pela televisão e rapidamente ganhou repercussão nacional.
O caso provocou uma reação imediata. Igrejas católicas realizaram missas de desagravo em diferentes cidades. Naquele momento, o episódio deixou de ser apenas uma manifestação de um religioso contra uma prática de outra tradição cristã e passou a ocupar o centro do debate público sobre intolerância religiosa no Brasil.
O episódio também teve consequências para a própria Igreja Universal. Dias depois, Edir Macedo pediu desculpas aos católicos e criticou a atitude do bispo, segundo registros publicados posteriormente pela imprensa.
Polêmica atual resgata história antiga
Mais de três décadas depois, o nome de Nossa Senhora Aparecida voltou ao centro de uma discussão política.
Publicações nas redes sociais passaram a associar a candidatura de Flávio Bolsonaro, atualmente senador pelo PL-RJ, à suposta intenção de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O candidato negou que exista essa proposta e afirmou que a informação era falsa.
A origem da confusão está justamente na recuperação do PL 2.623/2007, uma proposta apresentada quase 20 anos atrás e que não avançou no Congresso.
A GloboNews também corrigiu a informação que havia provocado parte da repercussão e pediu desculpas pelo erro.
Assim, a discussão atual reúne dois episódios separados por décadas: de um lado, um projeto antigo e arquivado que pretendia alterar a referência legal a Nossa Senhora Aparecida; de outro, o episódio televisivo de 1995, que se tornou um dos casos mais conhecidos de conflito religioso no Brasil.
Por que Nossa Senhora Aparecida é a padroeira?
A relação de Nossa Senhora Aparecida com a identidade religiosa brasileira é anterior à legislação que criou o feriado nacional de 12 de outubro.
A santa foi proclamada Padroeira do Brasil em 1930, durante o pontificado do papa Pio XI. A devoção à imagem encontrada no rio Paraíba do Sul, em 1717, cresceu ao longo dos séculos e transformou Aparecida em um dos principais centros de peregrinação católica do país.
O feriado nacional dedicado à santa foi instituído pela Lei 6.802, de 1980. É justamente essa legislação que o projeto apresentado em 2007 pretendia alterar.
O texto não propunha acabar com o feriado. A mudança estava na forma de identificar Nossa Senhora Aparecida: em vez de “Padroeira do Brasil”, a lei passaria a utilizar a expressão relacionada aos brasileiros católicos apostólicos romanos.
É nesse ponto que a história de 1995 e a polêmica de 2026 acabam se encontrando no imaginário público.
O “chute na santa” virou uma referência nacional quando um religioso atacou uma imagem de Aparecida justamente no dia dedicado à santa. Agora, a circulação de um projeto antigo voltou a colocar o título de padroeira no centro de uma discussão política e religiosa.
Mas os fatos precisam ser separados: o projeto de 2007 foi arquivado em 2008 e não há, nas fontes consultadas, um projeto atual de Flávio Bolsonaro para retirar Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil.
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