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Metade dos jogos da Steam vai usar IA até 2028, prevê estudo

A inteligência artificial está entrando nos videogames mais rápido do que muita gente imagina — e agora existe um número para dimensionar isso. Um estudo que vasculhou dezenas de milhares de jogos da Steam, a maior loja de games para PC do mundo, projeta que metade de todos os lançamentos da plataforma terá conteúdo gerado por IA até 2028. Não é um palpite solto: é uma projeção baseada na curva de crescimento dos últimos anos.

A inteligência artificial já é uma realidade na indústria, e o setor de games talvez seja o retrato mais acelerado dessa transformação.

O que o estudo analisou

A pesquisa é assinada por Sulka Haro, desenvolvedor com passagem pela criação do clássico Habbo Hotel e hoje CEO do estúdio Mainframe Industries. Ela foi publicada em seu perfil no Substack, sob o título “Three years of AI on Steam”, e pode ser consultada na íntegra por quem quiser mergulhar nos dados.

Haro examinou o que chama de censo completo — não uma amostra — de 53.597 jogos lançados na Steam entre julho de 2023 e julho de 2026, cruzando os dados com um recurso específico da plataforma.

Esse recurso é a peça-chave da análise. Em janeiro de 2024, a Steam passou a exigir que os desenvolvedores declarassem se usaram IA generativa em seus jogos — uma espécie de selo de transparência. Antes disso, simplesmente não havia onde registrar essa informação, então o ponto de partida era, praticamente, o zero absoluto. Foi a partir dessa declaração obrigatória que deu para medir a adoção de forma confiável.

Uma curva que sobe rápido

Os números mostram uma escalada acentuada, ano a ano. Os jogos com declaração de IA representavam 10,9% dos lançamentos em 2024, subiram para 19,9% em 2025 e alcançaram 30,8% em 2026 — o equivalente a quase um em cada três novos títulos.

O ritmo do crescimento fica ainda mais claro quando se olha para os lançamentos mensais. Os jogos sem IA passaram de cerca de 1.030 para 1.320 por mês desde 2024 — uma alta modesta. Já os títulos com IA saltaram de um número irrisório (cerca de 13 por mês antes da regra) para aproximadamente 530 lançamentos mensais. Segundo o estudo, dependendo do recorte, entre 60% e 90% de todo o crescimento de lançamentos na Steam vem de jogos com IA.

A projeção segue essa inclinação: se o ritmo se mantiver, os jogos que declaram uso de IA devem ultrapassar os 50% de todos os lançamentos da Steam entre 2027 e 2028. O próprio autor faz a ressalva de que se trata de um cenário, não de uma profecia — mas a tendência é clara.

A barreira que desabou (para o bem e para o mal)

O ponto central da análise é que a IA derrubou a barreira de entrada para criar jogos. E não só para fazer um: para fazer vários. É aí que mora a preocupação.

O estudo identifica um efeito colateral direto: desenvolvedores de primeira viagem tendem a despejar um volume grande de títulos de baixíssima qualidade, o famoso shovelware (jogos feitos às pressas só para preencher a loja). A fatia de criadores que lançam cinco ou mais jogos é significativamente maior entre os que apostam na produção com IA. Não à toa, o debate sobre onde a tecnologia pode ser aliada dos profissionais — em vez de apenas inflar o volume — nunca foi tão urgente.

Muita quantidade, pouco dinheiro

Um dos achados mais reveladores do estudo é que essa enxurrada de jogos quase não gera lucro. E não é um problema exclusivo da IA: a Steam é uma plataforma brutalmente concentrada. Segundo o levantamento, o top 1% dos títulos abocanha cerca de 94% de toda a receita estimada, e os dez maiores jogos sozinhos respondem por mais de 60%. O jogo mediano que recebe alguma avaliação fatura, em estimativa, cerca de 300 dólares — e aproximadamente 28% não recebem nenhuma avaliação, o que sugere vendas praticamente nulas.

Ou seja: gerar jogos com IA ficou fácil, mas transformar isso em sucesso comercial continua tão difícil quanto sempre foi.

Nem tudo é enxurrada

Antes de imaginar um apocalipse de lixo digital, o estudo faz um contraponto importante. A explosão de jogos com IA não está tão distribuída quanto parece: 80% dos cerca de 37 mil publishers da Steam nunca lançaram um único jogo com IA. E, entre os que lançaram, a esmagadora maioria publicou exatamente um.

O levantamento também derruba alguns mitos. A IA não está igualmente presente em todos os gêneros — ela se concentra em jogos de cartas, economia e texto, e é quase ausente em títulos que dependem de “capricho artesanal”, como os de arte desenhada à mão. Vale notar que esse recorte é o da Steam: em outros ambientes, a IA aparece de formas distintas — na produção e na personalização de segmentos como o cassino ao vivo, por exemplo, onde ela reforça a experiência sem determinar o resultado das partidas. E, ao contrário do que se imagina, as páginas dos jogos com IA na Steam não são mais desleixadas: suas descrições são até ligeiramente mais longas que as dos jogos sem IA.

O que isso significa para quem joga

Para o jogador comum, a mudança tem dois lados. De um lado, mais gente criando significa mais variedade e experimentação. De outro, encontrar bons títulos no meio de tantos lançamentos tende a ficar mais trabalhoso — e analistas já alertam que a facilidade de clonar jogos populares com IA pode encher as lojas de cópias e golpes.

Essa tensão entre democratizar a criação e manter a qualidade não é exclusiva dos games. É a mesma discussão que move universidades a definirem regras para o uso da IA e empresas de todos os setores a repensarem seus processos. Nos videogames, os números da Steam apenas deixam o dilema mais visível: a pergunta não é mais se a IA vai dominar a produção, mas como desenvolvedores, lojas e jogadores vão preservar a qualidade num mundo onde qualquer um pode lançar um jogo — ou vários — com poucos cliques.

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