A Cimed, uma das maiores farmacêuticas brasileiras, pretende aproveitar a reorganização do mercado de patrocínios provocada pela proibição das casas de apostas no Brasil para ampliar sua presença no futebol. João Adibe Marques, presidente e CEO do Grupo Cimed, afirmou nas redes sociais que a companhia está disposta a analisar propostas de clubes e quer expandir a marca Super, pertencente ao grupo, pelos uniformes de equipes de diferentes regiões do país. A manifestação ocorreu após o governo federal editar a Medida Provisória 1.394/2026, que determina o encerramento das operações das bets e também atinge publicidade e patrocínios do setor.
No vídeo publicado por Adibe, a possibilidade de ocupar os espaços que serão deixados pelas empresas de apostas é apresentada em tom descontraído durante uma conversa com integrantes da Cimed. O executivo lembra o interesse da companhia em aumentar os investimentos no esporte e afirma: “A gente tem um sonho de patrocinar todos os clubes do Brasil através da nossa marca Super”. Em seguida, reforça a disposição para receber propostas: “Não temos limite de patrocínio, hein? Não temos limite”.
A fala de Adibe sinaliza abertura para negociações e avaliação de oportunidades. Até agora, a companhia também não apresentou uma relação das equipes que receberão investimentos após a saída das bets.
Espaço bilionário nas camisas
A movimentação ocorre diante de uma mudança significativa na estrutura comercial do futebol brasileiro. Em 2026, 14 dos 20 clubes da Série A têm empresas de apostas como patrocinadoras máster. Levantamento da Sports Value citado pela Exame aponta que os times da primeira divisão receberam cerca de R$ 1,03 bilhão do segmento em 2025. Outro levantamento, baseado nos balanços dos clubes e divulgado pelo UOL, calcula R$ 1,14 bilhão em aportes e indica que o setor representou 7,9% das receitas das equipes analisadas.
A presença das bets cresceu rapidamente nos últimos anos. O primeiro patrocínio de uma empresa do setor no futebol brasileiro ocorreu em janeiro de 2019, quando o Fortaleza estampou a NetBet. Em 2020, casas de apostas já mantinham acordos com 13 das 20 equipes da Série A, embora a maioria ainda ocupasse propriedades secundárias dos uniformes.
A expansão posterior colocou as empresas do segmento nos espaços mais valorizados das camisas e elevou os valores dos contratos. A retirada dessas marcas abre uma disputa entre companhias de outros setores por propriedades comerciais que dificilmente estariam disponíveis simultaneamente em tantos clubes.
Cimed já investe no futebol
A intenção anunciada por João Adibe não representa uma estreia da Cimed no esporte. A companhia informa que patrocina oficialmente as Seleções Brasileiras de Futebol desde 2015 e mantém investimentos em atletas, projetos e eventos esportivos.
No futebol de clubes, a empresa também vem ampliando sua presença. Em outubro de 2025, o Palmeiras anunciou contrato com a Cimed válido até dezembro de 2027, contemplando equipes profissionais masculina e feminina e as categorias de base.
A companhia mantém ainda presença comercial no Cruzeiro e já vinha conversando com outros grandes clubes antes mesmo da decisão sobre as apostas. Reportagens recentes apontaram negociações com Flamengo e Grêmio, embora os termos e a conclusão de cada eventual acordo dependam de anúncios oficiais das partes.
Super entra na estratégia
A Super aparece agora como uma das principais marcas escolhidas pela Cimed para explorar a oportunidade aberta no futebol. Ao falar diretamente aos dirigentes, João Adibe colocou a companhia como potencial alternativa para equipes obrigadas a procurar novos parceiros comerciais.
A estratégia também pode proporcionar exposição nacional à marca em um esporte que oferece presença permanente em transmissões, uniformes, estádios e redes sociais. O alcance da iniciativa, entretanto, dependerá dos valores pedidos pelos clubes e das condições comerciais de cada negociação.
Algumas equipes já começaram a procurar alternativas. Antes mesmo da publicação da medida provisória, clubes da Série A faziam sondagens no mercado diante da possibilidade de rompimento dos contratos, enquanto casas de apostas notificavam parceiros sobre eventuais rescisões caso a proibição fosse confirmada.
MP determina retirada das marcas
A mudança foi provocada pela MP assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (25). O texto proíbe exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no território nacional, abrangendo apostas esportivas e jogos on-line.
Os contratos publicitários existentes entram em período de transição. Conforme as regras anunciadas, as marcas e demais sinais de patrocínio das casas de apostas deverão ser retirados até as 23h59 de 5 de outubro. A partir de 6 de outubro, as plataformas que operavam regularmente deverão retirar sites e aplicativos do ar.
Por se tratar de medida provisória, as regras têm efeito imediato, mas o texto ainda precisa ser analisado pelo Congresso Nacional. Câmara e Senado dispõem do prazo constitucional para apreciar a matéria; sem aprovação, a MP perde eficácia.
Corrida por novos patrocinadores
A eventual expansão da Cimed ocorre, portanto, diante de um mercado que poderá colocar simultaneamente à disposição propriedades comerciais de alguns dos principais clubes do país. A dificuldade será substituir contratos que alcançaram cifras elevadas durante a expansão das casas de apostas.
Nesse cenário, a declaração de João Adibe funciona como um convite público aos dirigentes. A Cimed já informa em seu próprio canal corporativo que recebe propostas para parcerias e patrocínios esportivos.
A promessa de ampliar a marca Super, contudo, ainda terá de ser transformada em contratos individuais. Valores, duração, posição nos uniformes e clubes escolhidos dependerão das negociações. A única sinalização pública até o momento é de que, diante do espaço aberto pela saída das bets, a Cimed pretende disputar uma parcela maior da exposição comercial proporcionada pelo futebol brasileiro.
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