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Fora das quatro linhas, Gustavo Scarpa indica Tolstói e transforma livros em companheiros de carreira

Camisa 10 aproveitou período de recuperação para ampliar as leituras e recomendou “A Morte de Ivan Ilitch”; paixão pelos livros acompanha trajetória que passou por Fluminense, Palmeiras e Europa.

Entre um treino e outro, Gustavo Scarpa, 32, mantém um hábito que há anos chama atenção fora das quatro linhas: a leitura. O meio-campista do Atlético-MG voltou a compartilhar com seus seguidores uma de suas dicas literárias e colocou em evidência “A Morte de Ivan Ilitch”, clássico do escritor russo Lev Tolstói. A indicação reforça uma característica pouco convencional no ambiente do futebol brasileiro: Scarpa transformou seu perfil nas redes sociais também em espaço para comentários rápidos, bem-humorados e pessoais sobre os livros que passam por sua estante.

A relação do jogador com a literatura não é recente. Muito antes da recomendação de Tolstói, Scarpa já havia chamado atenção ao comentar obras de Dostoiévski, Victor Hugo, George Orwell, Machado de Assis, Gabriel García Márquez, Franz Kafka, Harper Lee e C.S. Lewis. Em 2021, quando ainda defendia o Palmeiras, ele já acumulava mais de 90 comentários sobre livros publicados no Instagram Stories.

Scarpa recomenda Tolstói

A nova indicação surgiu durante um período em que o meia precisou trocar parte da rotina dos gramados pela recuperação física. Scarpa passou por uma artroscopia no joelho direito em maio deste ano e ficou afastado das partidas por quase quatro meses. Nesse intervalo, aproveitou o tempo também para avançar nas leituras.

Entre os livros escolhidos estava “A Morte de Ivan Ilitch”, uma das novelas mais celebradas de Tolstói.

Ao comentar a experiência, Scarpa destacou justamente as mudanças emocionais vividas pelo protagonista diante da doença e da proximidade da morte.

“Esse ciclo de esperança momentânea, desespero, dor, sei lá. Maneirinho”, escreveu o jogador em sua avaliação característica, sem pretensão acadêmica e com a linguagem informal que se tornou sua marca nas redes sociais.

O que conta “A morte de Ivan Ilitch”

Publicada em 1886, a obra acompanha Ivan Ilitch, um magistrado que construiu a vida em torno da carreira, das convenções sociais e da busca por uma existência considerada respeitável. Uma grave doença, porém, coloca o personagem diante da perspectiva concreta da morte e provoca uma revisão profunda das escolhas que fez.

A narrativa aborda sofrimento, solidão, arrependimento, relações humanas, aparência social e o próprio sentido da existência. A obra marcou ainda a retomada literária de Tolstói após um período no qual o escritor havia se afastado da produção artística para se dedicar mais intensamente às questões espirituais.

É exatamente essa passagem do cotidiano para o conflito psicológico e existencial de Ivan Ilitch que transforma a pequena novela em uma das obras mais reconhecidas do escritor russo.

Cinco livros durante a recuperação

Tolstói não esteve sozinho na cabeceira do camisa 10 durante o período sem jogar. Scarpa compartilhou cinco leituras feitas enquanto se recuperava da cirurgia, mantendo a tradição de apresentar suas impressões aos seguidores.

A forma como comenta literatura é parte importante do sucesso dessas publicações. Em vez de produzir resenhas formais, o jogador prefere frases curtas e espontâneas, muitas vezes carregadas de humor. Elae contou que começou a receber mensagens de pessoas dizendo que haviam retomado a leitura depois de acompanhar suas publicações.

De Kafka a Dostoiévski

A lista de obras que já passaram pelas mãos do jogador é extensa. Entre elas aparecem “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamázov”, de Fiódor Dostoiévski; “Os Miseráveis”, de Victor Hugo; “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell; “O Sol é para Todos”, de Harper Lee; “Hamlet”, de William Shakespeare; “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez; e “A Metamorfose”, de Franz Kafka.

Machado de Assis também ocupa espaço na biblioteca do atleta. Scarpa já leu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “O Alienista” e “Dom Casmurro”.

Dostoiévski está entre seus autores preferidos. Em uma lista de recomendações divulgada anteriormente, Scarpa colocou “Crime e Castigo” entre seus favoritos. Também aparecem entre as obras destacadas pelo jogador “Os Miseráveis”, “A Revolução dos Bichos”, “O Sol é para Todos” e o livro cristão “Por que Tarda o Pleno Avivamento?”, de Leonard Ravenhill.

Uma aposta mudou a rotina

A história dessa relação intensa com os livros ganhou impulso durante a passagem pelo Palmeiras.

Scarpa já gostava de ler desde criança e teve a Bíblia como uma das primeiras leituras frequentes. Mais tarde, ganhou de uma tia a biografia de Steve Jobs, escrita por Walter Isaacson. Mas foi uma amizade dentro do Palmeiras que fez sua biblioteca crescer rapidamente.

Em 2019, Scarpa e Pedro Jatene, então estagiário da preparação física do clube, criaram uma aposta: quando o jogador não marcasse nem desse assistência, entregaria uma camisa ao amigo. Quando tivesse bom desempenho, ganharia um livro.

Scarpa entrou em boa fase dentro de campo — e Jatene passou a lhe dever livros.

Um dos primeiros títulos recebidos foi “O Médico e o Monstro”, de Robert Louis Stevenson. O jogador contou posteriormente que aquelas indicações abriram um universo literário diferente daquele ao qual estava acostumado.

Leitura para sair da bolha do futebol

Scarpa já explicou que os livros funcionam também como uma maneira de conhecer histórias, ideias e realidades distantes da rotina de um atleta profissional.

“Em vez de eu ficar no celular, vendo nada ou não fazendo nada, eu comecei a ler e conheci histórias incríveis, abri a mente”, disse em entrevista sobre o hábito.

Ele também associa a leitura à disciplina adquirida no esporte. Segundo Scarpa, no começo foi necessário esforço para transformar a atividade em hábito; depois, pegar um livro nos momentos livres tornou-se natural.

Para quem pretende começar, uma de suas recomendações históricas é “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell. Na avaliação do meia, a obra tem leitura acessível mesmo para quem não possui familiaridade com política.

Do Fluminense ao estrelato no Palmeiras

A trajetória profissional de Scarpa começou longe da projeção que alcançaria anos depois. Nascido em Campinas, em 5 de janeiro de 1994, ele passou pelo Desportivo Brasil e chegou ao Fluminense, clube pelo qual iniciou sua trajetória de maior visibilidade no futebol profissional. Também teve uma passagem por empréstimo pelo Red Bull Brasil.

No Fluminense, consolidou-se como meia de criação, ganhou protagonismo e conquistou a Primeira Liga de 2016.

A grande virada ocorreria em 2018, com a chegada ao Palmeiras. No clube paulista, Scarpa viveu o período mais vitorioso da carreira e construiu uma extensa coleção de títulos.

Foram dois Campeonatos Brasileiros, em 2018 e 2022; duas Libertadores, em 2020 e 2021; Copa do Brasil de 2020; Campeonatos Paulistas de 2020 e 2022; e Recopa Sul-Americana de 2022.

Melhor jogador do Brasileirão

A temporada de 2022 marcou o auge individual de Scarpa no Palmeiras. Além de participar diretamente da conquista do Campeonato Brasileiro, o meia terminou o ano acumulando reconhecimentos.

Foi escolhido Melhor Jogador do Campeonato Brasileiro, integrou a seleção da competição e conquistou a Bola de Ouro e a Bola de Prata.

O desempenho encerrou sua passagem pelo clube em alta. Scarpa deixou o Palmeiras após o Brasileirão para realizar um antigo objetivo: atuar na Premier League.

Sonho europeu e volta ao Brasil

Em janeiro de 2023, o meia chegou ao Nottingham Forest, da Inglaterra. A experiência, porém, não teve o protagonismo esperado. Depois, Scarpa foi emprestado ao Olympiacos, da Grécia.

No fim daquele ano, o Atlético-MG negociou sua contratação junto ao Nottingham Forest. O acordo levou o jogador de volta ao Brasil para iniciar uma nova etapa da carreira em 2024.

No Galo, conquistou os Campeonatos Mineiros de 2024 e 2025. Seu contrato atual vai até dezembro de 2027.

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