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Em 2018, CBF votou contra a realização da Copa nos EUA em 2026

Quando o então presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), o paraense Antonio Carlos Nunes de Lima, o Coronel Nunes, contrariou a orientação da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) e votou em Marrocos para sediar a Copa do Mundo de 2026, em junho de 2018, a decisão provocou uma crise diplomática no futebol sul-americano e foi classificada por dirigentes como uma “traição” a um acordo internacional.

Oito anos depois, com a Copa prestes a começar nos Estados Unidos, México e Canadá, o episódio voltou a ser lembrado diante da série de polêmicas que cercam a competição, especialmente relacionadas às políticas migratórias norte-americanas, aos altos preços dos ingressos, às restrições impostas a delegações e torcedores e à crescente influência política sobre o torneio.

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Na época, o voto de Coronel Nunes foi recebido com perplexidade. Hoje, embora a candidatura norte-americana tenha vencido com ampla vantagem e a posição do dirigente brasileiro tenha sido considerada um erro político dentro da estrutura da CBF e da Conmebol, os problemas enfrentados pela organização do Mundial reacenderam discussões sobre os riscos que já eram apontados por alguns setores quando a sede foi escolhida.

O voto que isolou o Brasil

A eleição que definiu a sede da Copa de 2026 ocorreu em Moscou, durante o Congresso da Fifa, em junho de 2018. Pela primeira vez, os votos das federações nacionais seriam públicos, em uma tentativa da entidade de reforçar a transparência após os escândalos de corrupção que abalaram o futebol mundial na década anterior.

Antes da votação, a Conmebol havia firmado um acordo formal para que os dez países sul-americanos apoiassem a candidatura conjunta dos Estados Unidos, Canadá e México. O compromisso havia sido discutido em reuniões realizadas em Buenos Aires, Assunção e Moscou, todas com a participação de Coronel Nunes.

O entendimento era estratégico. Em troca do apoio sul-americano à candidatura da América do Norte, os países do continente esperavam contar futuramente com o respaldo dos norte-americanos para uma candidatura sul-americana à Copa de 2030, liderada por Argentina, Paraguai e Uruguai.

Mas o Brasil rompeu o consenso. Enquanto Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela e Colômbia seguiram o acordo, a delegação brasileira registrou voto em Marrocos.

A decisão surpreendeu dirigentes da Fifa, representantes da candidatura vencedora e até integrantes da própria CBF.

Inicialmente, Coronel Nunes chegou a afirmar que não havia votado diretamente e que teria delegado a responsabilidade a outro representante brasileiro. Depois, admitiu que preferia a candidatura marroquina por considerar injusto que Estados Unidos e México recebessem novamente o torneio.

“Estados Unidos e México já fizeram Copa. Marrocos nunca teve. A chance era para eles”, declarou na ocasião.

A justificativa não convenceu os dirigentes sul-americanos. Nos bastidores, a atitude foi interpretada como uma quebra deliberada de compromisso político e institucional. O episódio gerou constrangimento para a CBF e levantou dúvidas sobre a capacidade da entidade de manter alinhamento com os parceiros continentais.

O que Coronel Nunes defendia

Embora tenha sido amplamente criticado, o argumento central utilizado por Coronel Nunes era relativamente simples: promover uma distribuição mais equilibrada das sedes da Copa do Mundo.

Naquele momento, os Estados Unidos já haviam sediado o Mundial de 1994, enquanto o México havia recebido o torneio em 1970 e 1986. Marrocos, por outro lado, jamais havia organizado uma Copa e tentava, pela quinta vez, conquistar o direito de sediar o evento.

Para o dirigente paraense, a escolha do país africano representaria uma oportunidade de ampliar a presença do futebol mundial em regiões que ainda não haviam recebido o principal torneio esportivo do planeta.

O problema, porém, era que o voto contrariava um acordo previamente firmado pelo próprio dirigente dentro da Conmebol.

Por isso, a repercussão negativa não se concentrou apenas na escolha por Marrocos, mas, principalmente, no rompimento do compromisso assumido pelo futebol sul-americano.

Polêmicas que tomam conta do torneio

O cenário encontrado em 2026 acabou trazendo novos elementos para essa discussão. Antes mesmo do início da competição, a Copa passou a ser alvo de críticas relacionadas a decisões do governo dos Estados Unidos e à atuação da Fifa.

Um dos principais focos de controvérsia envolve as políticas migratórias adotadas pelo governo de Donald Trump.

Torcedores de diversos países enfrentaram dificuldades para a obtenção de vistos, enquanto cidadãos de algumas nações encontraram obstáculos significativos para viajar aos jogos. Em determinados momentos, medidas chegaram a prever depósitos financeiros elevados para visitantes de alguns países, reforçando críticas sobre exclusão e restrições de acesso.

A situação do Irã

Em meio às tensões diplomáticas e militares entre os dois países, jogadores iranianos enfrentaram demora na emissão de vistos, integrantes da comissão técnica tiveram a entrada negada nos Estados Unidos e a seleção precisou transferir sua base de preparação do Arizona para Tijuana, no México.

A federação iraniana chegou a afirmar que as restrições colocavam a equipe em desvantagem esportiva em comparação aos demais participantes.

O episódio alimentou uma pergunta que passou a circular entre observadores internacionais: seria adequado que uma Copa do Mundo fosse realizada em um país envolvido em conflito direto com uma das seleções participantes?

Ingressos milionários e exclusão de torcedores

Outra fonte de críticas diz respeito aos preços cobrados para assistir aos jogos. A Fifa adotou, pela primeira vez em larga escala, o chamado sistema de preço dinâmico, no qual os valores variam conforme a demanda.

Como resultado, os ingressos da Copa de 2026 tornaram-se alguns dos mais caros da história do torneio.

Para a final, entradas chegaram a ser anunciadas por valores superiores a US$ 8 mil, enquanto assentos premium atingiram cifras próximas de US$ 690 mil em plataformas de venda.

Organizações de defesa dos consumidores e associações de torcedores acusaram a Fifa de transformar o Mundial em um produto voltado, prioritariamente, para o mercado corporativo e para consumidores de alta renda, afastando o torcedor tradicional dos estádios.

A relação entre Fifa e Donald Trump

Outro tema que gerou repercussão foi a proximidade entre o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e Donald Trump.

Nos meses que antecederam o torneio, Infantino participou de eventos ao lado do presidente norte-americano e foi alvo de questionamentos sobre o princípio de neutralidade política previsto nos estatutos da própria Fifa.

Durante o sorteio da Copa do Mundo, Infantino chegou a entregar a Donald Trump o chamado Prêmio da Paz da Fifa, uma honraria criada pela entidade pouco antes do evento. A iniciativa foi interpretada por críticos como uma tentativa de prestigiar o presidente norte-americano, que já havia manifestado publicamente o desejo de receber o Prêmio Nobel da Paz, distinção que considerava merecer por sua atuação em temas internacionais.

Críticos afirmam que a entidade passou a demonstrar uma proximidade excessiva com o governo dos Estados Unidos, reforçando a percepção de que a Copa de 2026 está inserida em um ambiente político muito mais complexo do que o habitual.

O voto de 2018 sob uma nova perspectiva

Nada disso significa que Coronel Nunes tenha antecipado as controvérsias que cercariam a Copa de 2026. Tampouco altera o fato de que sua decisão provocou uma crise institucional dentro da Conmebol e isolou o Brasil no processo de escolha da sede. Mas o contexto atual acabou dando novo significado histórico ao episódio.

Em 2018, o dirigente paraense foi criticado por se opor à candidatura que representava o projeto considerado mais forte e politicamente consolidado dentro da Fifa.

Já em 2026, a competição realizada nos Estados Unidos, México e Canadá enfrenta questionamentos justamente por fatores que extrapolam o futebol: disputas geopolíticas, restrições migratórias, interesses comerciais, influência política e dificuldades de acesso para torcedores.

O contraste chama atenção porque a justificativa apresentada por Coronel Nunes na época estava baseada na ideia de ampliar a diversidade de sedes e oferecer oportunidades a países que nunca haviam recebido o torneio.

Embora sua atitude tenha sido vista como um erro político dentro da estrutura do futebol sul-americano, o desenrolar dos acontecimentos transformou aquele voto isolado em um dos episódios mais curiosos da história recente da CBF, um gesto que, oito anos depois, voltou a ser lembrado diante das controvérsias que marcam a realização da Copa do Mundo de 2026.

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