Nem a distância de mais de 2,5 mil quilômetros entre Belém e o Rio de Janeiro foi capaz de diminuir um sentimento que começou ainda na infância e hoje ganha um novo capítulo. No Dia dos Pais, a história do ator paraense Phellipe Marques, de 48 anos, mostra que a paixão pelo Paysandu vai além do futebol: é um legado familiar, construído entre lembranças, afetos e tradições que seguem sendo transmitidas de pai para filho.
Criado em Belém, Phellipe cresceu em uma casa onde o azul e branco faziam parte da rotina. O principal responsável por isso foi o pai, Felipe Pinto Marques, torcedor apaixonado do Papão. Ainda criança, porém, ele convivia com uma “disputa” familiar, já que um tio materno era torcedor do maior rival bicolor e insistia que o sobrinho acabaria vestindo azul-marinho.
A decisão, ao menos simbolicamente, veio em um clássico Re-Pa no fim da década de 1980.
“Meu pai disse: ‘Vamos para o jogo. Quem ganhar hoje, o Júnior vai torcer’. Fui para a torcida do Paysandu com ele e o Paysandu venceu por 3 a 0. Lembro até hoje daquele jogo, inclusive de um golaço do Rogerinho Gameleira. Aquilo foi decisivo. Mas, sendo sincero, acho que, mesmo se o Remo tivesse vencido, eu acabaria sendo Paysandu. Aquilo já estava dentro de mim.”
Poucos anos depois, a conquista do Campeonato Brasileiro da Série B, em 1991, consolidou ainda mais essa paixão.
“Lembro da festa em Belém, das bandeiras azuis e brancas pelas ruas. Aquilo me encantava. Mas foi aquele Re-Pa ao lado do meu pai que definitivamente marcou o nascimento do torcedor que sou até hoje.”
A distância nunca diminuiu a paixão
Há anos morando no Rio de Janeiro, Phellipe jamais cogitou trocar o Paysandu por um clube carioca. Pelo contrário: acompanha jogos, notícias e vive intensamente cada momento do clube, independentemente da fase.
“O Paysandu está no meu sangue, está na minha alma. Faz parte da minha vida. Já vivi muitas emoções com esse clube. Continuar acompanhando foi um processo absolutamente natural. É uma das grandes paixões da minha vida.”
Ele conta que, frequentemente, escuta a mesma pergunta de amigos cariocas. “As pessoas perguntam por que eu não escolho um time do Rio para torcer. Minha resposta é muito simples: negativo. Meu time é o Paysandu Sport Club.”
O nascimento de uma nova geração bicolor
Se o pai foi responsável por plantar a paixão em sua infância, agora é Phellipe quem vê esse sentimento começar a florescer no próprio filho. Mesmo sem completar dois anos de idade, o pequeno Adonis Felipe, de 1 ano e 10 meses, já reconhece o escudo do Paysandu e reage quando escuta o hino ou a tradicional marchinha do clube.
“Quando aparece o símbolo na televisão, ele aponta e fala ‘Du, Du, Du!’, do jeito dele dizendo Paysandu. Quando coloco o hino, ele para tudo o que está fazendo, olha para a televisão e começa a sorrir.”
A cena ganha ainda mais significado por causa de uma coincidência familiar.
“Ele é muito parecido com meu pai, que já faleceu. Às vezes olho para o meu filho reagindo ao Paysandu e penso que esse sentimento realmente está no sangue, como se alguma coisa tivesse atravessado as gerações.”
Em dias de jogo, pai e filho já possuem um ritual.
“Eu aviso: ‘Hoje tem Papão!’. Ele senta ao meu lado, me abraça, reconhece o momento do gol, aponta para o escudo na camisa. Ainda não entende o futebol como nós, mas sabe que aquele símbolo faz parte da nossa história.”
Um legado que nem a distância consegue apagar
Criar um pequeno torcedor longe de Belém poderia representar um obstáculo. Mas, na prática, a experiência tem mostrado justamente o contrário. Dentro de casa, a cultura bicolor permanece viva por meio das músicas, das camisas, dos jogos e das histórias contadas pelo pai.
“Quando ele ainda era bem bebê, coloquei pela primeira vez a marchinha do Paysandu. Ele olhou para mim e simplesmente começou a sorrir. Aquilo me marcou profundamente. Às vezes parece até algo espiritual, como se essa identidade tivesse atravessado outra geração.”
Para Phellipe, essa talvez seja a maior prova de que algumas paixões ultrapassam fronteiras geográficas.
“Meu pai passou essa paixão para mim e, agora, de alguma maneira, estou vendo essa mesma história começar novamente com meu filho. Meu filho é carioca e, quando crescer, poderá até escolher um clube daqui para também torcer. Jamais vou impedir. Mas a primeira paixão futebolística dele vai ser o Paysandu. Isso não tem jeito.”
Manter o ciclo vivo
Vivendo um momento importante da carreira como ator, com participações em produções da Netflix, entre elas Man on Fire e outra série nacional ainda inédita, Phellipe faz questão de levar consigo suas origens.
“Meu sonho é conquistar um reconhecimento cada vez maior, nacional e internacionalmente, e levar o Paysandu comigo aonde minha carreira me levar. Sempre que tiver oportunidade de falar sobre minha história, minhas origens e minhas paixões, quero que as pessoas saibam que sou torcedor do Paysandu”.
O ator paraense destaca que mostrar alguém que saiu de Belém, alcançou outros espaços, realizou grandes sonhos e segue carregando seu clube e suas raízes. Mas existe um sonho ainda mais especial que Phellipe almeja como pai.
“Quando meu filho estiver um pouco maior, com três, quatro ou cinco anos, quero levá-lo a Belém para assistir comigo a um jogo do Paysandu no estádio. Quero entrar com ele, os dois vestidos de azul e branco, e vê-lo experimentar aquilo que um dia experimentei ao lado do meu pai. Acho que, naquele momento, o ciclo estará completo: o legado que meu pai deixou para mim continuará vivo no meu filho.”
É uma imagem que sintetiza o verdadeiro significado dessa história: um avô que transmitiu uma paixão ao filho, um pai que agora faz o mesmo com a nova geração e um clube que permanece unindo uma família, por meio de uma paixão que se recusa a ser abalada pela distância.
Porque, para alguns torcedores, o Paysandu nunca foi apenas um time de futebol. É memória, identidade, pertencimento e um amor capaz de atravessar gerações e fronteiras.






