Os comércios de Belém que fizeram parte da rotina de diferentes gerações foram desaparecendo aos poucos, muitas vezes sem que a cidade percebesse que estava diante de suas últimas páginas. Lan houses, antigas lojas, farmácias, sorveterias e pequenos estabelecimentos que ajudavam a formar a identidade dos bairros deram lugar a novos negócios ou simplesmente fecharam as portas. Para o historiador Márcio Neco, relembrar esses espaços é também revisitar uma Belém que mudou com o passar dos anos.
Esses lugares funcionavam como espaços de convivência. Eram locais onde pessoas se encontravam, conversavam, faziam compras, resolviam problemas e criavam pequenas tradições que acabaram incorporadas à memória afetiva da cidade.
“Quando olhamos para o passado de Belém, sobretudo da área comercial, duas realidades nos vêm à mente: a falta de conservação do nosso patrimônio e os inúmeros estabelecimentos que não existem mais, porém muito presentes na nossa memória pelo fato de terem em algum momento marcado a nossa história”, relata Márcio Neco.
Lan houses: quando a internet ainda era novidade
Antes dos smartphones e da conexão permanente, acessar a internet era uma atividade que exigia tempo, equipamento e, muitas vezes, dinheiro. Entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, as lan houses se espalharam pelas cidades brasileiras e também fizeram parte da rotina dos belenenses.
Na época, muitas casas ainda dependiam da internet discada, que utilizava a linha telefônica e apresentava velocidades muito inferiores às atuais. Para quem não tinha computador ou conexão em casa, as lan houses eram uma das principais portas de entrada para o mundo digital.
Além de acessar a internet, era possível jogar, conversar em salas de bate-papo, criar e-mails, fazer trabalhos escolares e utilizar programas que ainda não faziam parte da rotina doméstica.
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Com a popularização dos computadores, dos celulares e da internet de banda larga, esses estabelecimentos perderam espaço. O que antes era ponto de encontro de adolescentes e jovens acabou se tornando uma lembrança de uma época em que estar conectado era uma experiência bem diferente.
Borracharia do Carlão: uma figura que virou parte da paisagem
Na avenida Mundurucus, quase na esquina com a Alcindo Cacela, uma residência chamava atenção por fugir do padrão das construções que começavam a modificar a paisagem urbana da região. No local também funcionava a Borracharia do Carlão.
O proprietário, conhecido pela personalidade irreverente, era torcedor apaixonado pelo Clube do Remo e antigo integrante da Guarda de Nazaré. Para os motoristas que procuravam o serviço, resolver o problema do pneu era apenas parte da experiência.
Entre uma troca e outra, Carlão costumava comentar sobre futebol e, principalmente, provocar o rival de seu time. Em vez de mencionar o nome do adversário, preferia chamá-lo de “aquela coisa”, em uma brincadeira que ficou conhecida entre os frequentadores.
A borracharia, portanto, acabou ultrapassando a função comercial. O próprio personagem e o imóvel passaram a fazer parte da identidade daquele trecho da cidade.
Carlão morreu em 2021, vítima de câncer. Com a perda do proprietário, também chegou ao fim a história da borracharia que durante anos fez parte do cotidiano de quem circulava pela região.
Sorveteria Tip Top marcou gerações
Em uma cidade de temperaturas elevadas como Belém, tomar sorvete sempre esteve entre os programas mais apreciados pelos moradores. Mas alguns estabelecimentos conseguiram transformar esse hábito em parte da identidade da cidade.
Foi o caso da tradicional Sorveteria Tip Top, especialmente lembrada por quem viveu as décadas de 1970, 1980 e 1990.
O estabelecimento era mais do que um ponto de venda de sorvetes. O local servia como espaço de encontro, paquera e entretenimento, reunindo diferentes gerações em torno de uma variedade de sabores que chamava a atenção dos clientes.
Os sabores regionais e combinações menos convencionais ajudaram a construir a fama da sorveteria. Mesmo depois do encerramento das atividades, detalhes como o famoso sorvete de concreto instalado na entrada permaneceram na memória dos belenenses.
A história da Tip Top mostra como um estabelecimento aparentemente simples pode ganhar importância cultural quando passa a fazer parte das lembranças coletivas de uma cidade.
Farmácia César Santos: remédios e informação em uma Belém de outros tempos
Entre os antigos estabelecimentos comerciais que marcaram Belém está também a Farmácia César Santos. Fundada em 1874, a empresa funcionava na avenida Santo Antônio, em uma época em que a região reunia casarões que combinavam comércio no térreo e residência nos pavimentos superiores.
Além dos medicamentos, a farmácia tinha uma característica que ajudava a aproximá-la dos clientes: os almanaques distribuídos pelo estabelecimento. Em um período em que o acesso à informação era muito mais limitado, essas publicações traziam dicas relacionadas à saúde e despertavam o interesse do público.
A farmácia também conquistou prestígio entre setores da sociedade belenense. Sua proprietária, Zaira César Santos, ganhou destaque no meio empresarial e, segundo o relato apresentado pelo historiador, foi a primeira mulher a receber o prêmio de Empresária do Ano.
A empresa chegou a exportar medicamentos em grande quantidade para outros estados e, em 1984, celebrou seu centenário.
A morte de Zaira César Santos, em 1987, ocorreu em um período de mudanças no mercado farmacêutico, marcado pelo crescimento da indústria e pela expansão das grandes redes. Com o tempo, a Farmácia César Santos encerrou as atividades.
O prédio, porém, continua existindo, embora tenha sofrido com a ação do tempo. Atualmente, o espaço abriga uma loja de confecções.
Casa Salomão: o fim de uma tradição de 120 anos
Entre os comércios de Belém que mais simbolizam a passagem do tempo está a Casa Salomão. Durante décadas, bastava alguém perguntar onde encontrar determinado produto para ouvir uma resposta conhecida: “Vai na Casa Salomão”.
Fundada em 1906 pelo libanês Salomão Mufarrej, a loja foi instalada na avenida Magalhães Barata, antiga avenida Independência, em frente ao Museu Emílio Goeldi. Quando foi inaugurada, a área ainda era considerada distante do núcleo mais urbanizado da cidade.
Com o passar das décadas, a Casa Salomão se tornou conhecida pela enorme variedade de produtos. A quantidade e a diversidade eram tamanhas que os belenenses criaram maneiras próprias de definir o estabelecimento.
Uma das expressões populares dizia que na loja era possível encontrar “do penico de plástico ao cachimbo de madeira” uma maneira bem-humorada de dizer que praticamente tudo poderia estar à venda ali. Outra variação levava a ideia ao extremo, afirmando que era possível encontrar “do palito de fósforo ao caixão”.
Por muitos anos, a loja funcionou como uma espécie de grande centro comercial, especialmente para quem procurava produtos variados em um único endereço.
No entanto, justamente no ano em que completaria 120 anos, a Casa Salomão deixou de atender presencialmente. A empresa segue com vendas pela internet, mas as portas fechadas representam uma mudança simbólica para quem se acostumou a ver o estabelecimento funcionando.
Quando uma loja fecha, uma memória também muda
A história desses estabelecimentos revela uma transformação que vai muito além da atividade comercial. A cidade cresceu, os hábitos mudaram, novas tecnologias surgiram e o comportamento dos consumidores acompanhou essas mudanças.
Para Márcio Neco, lembrar desses lugares é importante porque eles ajudam a compreender a própria transformação urbana de Belém.
“Era muito mais que um lugar de venda de sorvetes, mas foi um local de encontros, paqueras e entretenimento do belenense”, afirma o historiador ao falar sobre a Tip Top.
Cada estabelecimento guardava histórias particulares e fazia parte da rotina de uma parcela da população. Talvez por isso o desaparecimento desses lugares provoque uma sensação tão particular. Não se trata apenas de uma porta que deixou de abrir ou de uma placa que desapareceu. Em muitos casos, é também o encerramento de uma pequena parte da história cotidiana de Belém.






