A expansão da Copa do Mundo para 48 seleções, vendida pela Federação Internacional de Futebol como um passo histórico para ampliar mercados e receitas, começa a revelar efeitos colaterais longe dos gramados. A menos de um mês do torneio que será disputado nos Estados Unidos, Canadá e México, a Fifa enfrenta um cenário delicado nas negociações internacionais de direitos de transmissão, com resistência de gigantes asiáticos e descontos bilionários impostos por empresas de mídia.
O caso mais emblemático envolve a China. Nas negociações para a transmissão do Mundial de 2026, a entidade máxima do futebol acabou obrigada a aceitar uma redução de 80% no valor inicialmente pretendido para fechar acordo com o grupo estatal China Media Group.
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CHINA ENDURECE NEGOCIAÇÃO E DERRUBA VALOR
Quando as conversas começaram, a Fifa pretendia arrecadar cerca de US$ 300 milhões pelos direitos de transmissão do torneio no país asiático. O principal argumento da entidade era o aumento do número de participantes da competição, que terá 48 seleções pela primeira vez na história.
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O China Media Group, porém, adotou postura dura nas negociações. A estatal chinesa avaliou que grande parte das seleções participantes possui pouco apelo comercial e baixa tradição internacional, o que poderia comprometer a audiência de diversos jogos, agravado pelo fato de as partidas acontecerem durante a madrugada na China por conta do fuso horário.
Diante da resistência, a Fifa inicialmente aceitou cortar o valor pela metade. Ainda assim, não conseguiu fechar o acordo. Nesta semana, acabou cedendo ainda mais e aceitou um contrato avaliado em US$ 60 milhões. O pacote negociado inclui não apenas a Copa masculina de 2026, mas também o Mundial masculino de 2030 e as Copas do Mundo Femininas de 2027, que será disputada no Brasil, e de 2031.
PATROCINADORES CHINESES AMPLIAM PRESÃO
A pressão sobre a entidade se tornou ainda maior devido à forte presença de empresas chinesas entre os patrocinadores oficiais da Fifa. Marcas como Lenovo, Mengniu e Hisense integram atualmente a lista de parceiros comerciais da organização.
Sem acordo de transmissão em um país com 1,41 bilhão de habitantes, a competição perderia relevância comercial justamente em um dos mercados estratégicos para a expansão global do futebol.
ÍNDIA TAMBÉM VIRA PROBLEMA PARA A FIFA
Se a situação na China já representava um sinal de alerta, a negociação com a Índia vem se transformando em um problema ainda mais delicado para a entidade. O futebol segue distante da preferência esportiva da população indiana, tradicionalmente apaixonada por críquete. Além disso, o horário das partidas da Copa de 2026 também pesa negativamente no mercado local.
Estima-se que 87,5% dos jogos do torneio ocorram depois das 22h na Índia, cenário que preocupa emissoras e plataformas por conta da tendência de audiências mais baixas.
Inicialmente, a Fifa esperava arrecadar cerca de US$ 100 milhões com os direitos no país. Após sucessivas dificuldades, o valor caiu para aproximadamente US$ 35 milhões, mas ainda assim nenhum acordo foi fechado.
GIGANTES DA MÍDIA RECUAM
O principal conglomerado de comunicação indiano, a JioStar, formada a partir de uma joint venture entre a Reliance e a Disney, estaria disposta a pagar apenas cerca de US$ 20 milhões pelo torneio. A Sony, que chegou a demonstrar interesse, acabou abandonando as negociações.
Segundo informações da Reuters, um oficial responsável pelos direitos de mídia da Fifa está na Índia nesta segunda-feira tentando destravar as conversas e evitar um fracasso comercial em um dos maiores mercados consumidores do planeta.
YOUTUBE E STREAMING APARECEM COMO ALTERNATIVA
Em meio ao impasse, cresce no país asiático a possibilidade de soluções alternativas envolvendo plataformas digitais.
O YouTube possui um acordo global com a Fifa para o Mundial de 2026, permitindo que parceiros oficiais transmitam os primeiros dez minutos das partidas em seus canais, além de conteúdos extras, bastidores, “shorts” e alguns jogos completos. Apesar disso, a plataforma não possui automaticamente os direitos integrais de transmissão na Índia.
Outra possibilidade debatida no mercado local envolve serviços de streaming como Amazon Prime Video e o próprio YouTube Premium assumindo parte da distribuição do torneio.
TV ESTATAL PODE ENTRAR NO JOGO
Também vem ganhando força a hipótese de a emissora pública Prasar Bharati adquirir ao menos parte dos jogos mais importantes da competição. Diferentemente das empresas privadas, o canal estatal sofreria menos pressão imediata por audiência devido ao horário das partidas.
A poucas semanas do início do Mundial, a dificuldade da Fifa em transformar o torneio expandido em um produto ainda mais valioso comercialmente começa a levantar dúvidas sobre os limites do crescimento da principal competição do futebol mundial.







