O Centro Olímpico Maria Lenk foi palco, nesta sexta-feira (15), do anúncio da nova parceria estratégica entre o Comitê Olímpico do Brasil (COB) e a Vale, voltada ao fortalecimento do esporte brasileiro até os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. O lançamento aconteceu no Centro de Treinamento do Time Brasil, dentro do Parque Aquático Maria Lenk, no Rio de Janeiro, reunindo atletas olímpicos, dirigentes e convidados em um encontro marcado por histórias de superação e transformação através do esporte.
Durante o bate-papo promovido pelo COB, mediado pelo ex-judoca Thiago Camilo, atletas compartilharam depoimentos emocionantes sobre suas trajetórias e sobre o papel que os centros de treinamento exercem na formação esportiva e humana de cada um deles.
Construído para os Jogos Pan-Americanos de 2007, o Maria Lenk se transformou em muito mais do que uma arena de competições. Administrado pelo COB desde 2008, o espaço virou referência nacional na preparação de atletas olímpicos e paralímpicos, além de símbolo de transformação social por meio do esporte.
Com 42 mil metros quadrados e capacidade para oito mil pessoas, o complexo foi projetado dentro dos padrões internacionais da FINA e recebeu disputas de natação, saltos ornamentais e nado sincronizado no Pan de 2007, além de ter sido palco dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Hoje, o centro recebe diariamente atletas de alto rendimento, jovens promessas e projetos de base que fazem da estrutura uma verdadeira fábrica de sonhos.
Mais do que piscinas e salas de treinamento, o Maria Lenk é feito de histórias. Histórias de atletas que encontraram no esporte uma oportunidade de mudar suas vidas.
Histórias de transformação e superação no esporte
O marchador David Gabriel, de apenas 20 anos, definiu durante o encontro o ambiente esportivo como uma extensão da própria casa. “A Estação Conhecimento é a minha segunda casa. Passo mais tempo lá do que na minha própria casa. Ali eu criei um vínculo, uma família”, contou. Sua trajetória começou de forma improvável, quando foi observado pelo treinador João Melo imitando movimentos da marcha atlética durante brincadeiras. O que era curiosidade virou propósito de vida.
Hoje, David divide treinos e sonhos com seu maior ídolo: Caio Bonfim, medalhista olímpico e principal referência da marcha atlética brasileira. “Quando comecei, pesquisava tudo sobre o Caio. Sabia da primeira à última publicação dele no Instagram. Comparava meus tempos com os dele na mesma idade”, relembrou. Treinar ao lado do atleta que admirava à distância representa, para ele, a prova de que o esporte aproxima sonhos da realidade.
Caio Bonfim: Inspiração e visibilidade para a Marcha
Caio Bonfim também falou sobre o desafio de crescer em uma modalidade pouco conhecida no Brasil e sobre a responsabilidade de se tornar inspiração para as novas gerações. “Fazer um esporte que ninguém entendia era difícil. Na escola tinha piada, parecia que eu era músico sem plateia”, disse. Hoje, enxerga na própria trajetória a responsabilidade de abrir caminhos para os mais jovens. “O David acompanha tudo o que eu posto. A gente entende que precisa ser exemplo. É um privilégio conseguir dar visibilidade ao esporte.”
Jade Barbosa: Ginástica como família e superação de lesões
No Maria Lenk, histórias de superação se repetem em diferentes modalidades. A ginasta olímpica Jade Barbosa contou que encontrou na ginástica muito mais do que uma carreira. “O esporte virou minha família”, resumiu. Ela relembrou que começou na modalidade por insistência dos pais, que queriam gastar sua energia de criança, mas foi dentro do ginásio que encontrou força para enfrentar uma das maiores dores da vida: a perda da mãe aos nove anos.
Ao longo da carreira, Jade também precisou superar lesões e frustrações. Depois da Olimpíada de Pequim, em 2008, ouviu de médicos que talvez não conseguisse voltar a competir. “Pensei que tinha perdido tudo que mais amava”, contou. Ainda assim, decidiu continuar. “Não queria sair daquela forma. Queria voltar e ajudar a mudar a cultura do esporte.”
A história de Aline Silva, do wrestling, também reforçou o impacto social do esporte. Ainda criança, viveu situações de vulnerabilidade até encontrar nas lutas uma nova direção. “Eu queria lutar, mas diziam que não era coisa de menina”, relembrou. O wrestling apareceu através do Centro Olímpico de São Paulo e transformou completamente sua vida. “Eu fazia porque amava. E isso me trouxe oportunidades que eu nunca imaginei.”
Essa talvez seja a maior medalha do Centro Olímpico Maria Lenk: formar cidadãos antes mesmo de formar campeões.
A filosofia do espaço apareceu nas palavras de Caio Bonfim durante o bate-papo. “Eu ganho, nós ganhamos. O coletivo é importante.” O atleta também destacou o impacto dos projetos sociais ligados ao esporte, como o CASO, criado pela família Bonfim em Sobradinho, que hoje atende centenas de crianças. Para ele, o esporte de base é o caminho para transformar vidas e revelar talentos.
O Maria Lenk segue exatamente essa missão. Além do alto rendimento, o centro investe em escolinhas, formação de técnicos e árbitros, workshops e programas sociais voltados para crianças e adolescentes. Todos os dias, jovens entram ali em busca de medalhas, mas encontram também disciplina, pertencimento e oportunidade.
Como resumiu David Gabriel durante o encontro promovido pelo COB: “Ali não só cria atletas, mas cidadãos do bem. Eles ensinam a plantar sonhos.”
Quem foi Maria Lenk
Maria Lenk foi uma nadadora brasileira pioneira e uma das maiores referências do esporte nacional. Nascida em São Paulo, em 1915, ela se tornou a primeira mulher brasileira e sul-americana a disputar os Jogos Olímpicos, participando da Olimpíada de Los Angeles, em 1932, aos 17 anos.
Filha de imigrantes alemães, começou a nadar ainda criança por recomendação médica, após sobreviver a uma pneumonia grave. O que era tratamento virou paixão e transformou sua vida. Maria treinava no Rio Tietê, numa época em que quase não existiam piscinas no Brasil.
Além de quebrar barreiras para as mulheres no esporte, Maria Lenk também entrou para a história como a primeira brasileira a bater um recorde mundial na natação, em 1939, nas provas de peito. Ela ainda ajudou a desenvolver o estilo borboleta, que mais tarde se tornaria uma modalidade oficial.
Durante a carreira, enfrentou preconceitos por ser mulher, viajar sozinha e competir em um período em que o esporte feminino era mal visto pela sociedade. Mesmo assim, abriu caminho para gerações de atletas brasileiras.
Após deixar as competições, tornou-se professora, escritora e gestora esportiva, sendo pioneira também na educação física e na administração do esporte no Brasil. Continuou nadando por toda a vida e acumulou dezenas de recordes em competições master.
Maria Lenk morreu em 2007, aos 92 anos, enquanto nadava em uma piscina no Rio de Janeiro — um fim simbólico para quem dedicou a vida inteira ao esporte. Hoje, seu nome batiza o Centro Aquático Maria Lenk, no Rio, um dos principais complexos esportivos do país.
(*) A repórter viajou a convite do COB
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