O ator paraense Phellipe Marques estreia em mais uma produção da Netflix nesta quarta-feira (28). Natural de Belém, o artista integra o elenco de Dom de Iludir, série brasileira dirigida por Mauro Mendonça Filho, que reúne nomes conhecidos da dramaturgia brasileira, como Marieta Severo, Alice Wegmann, Nanda Costa e José de Abreu. A série aposta em uma trama marcada por golpes milionários, traições e segredos envolvendo personagens da elite carioca.
Em entrevista exclusiva ao DOL, ele falou sobre os desafios para construir uma carreira fora do Pará, os aprendizados nos bastidores da produção e as expectativas para a estreia. Após participar de Man on Fire, série internacional da plataforma gravada no México, o ator celebra uma nova oportunidade de ampliar sua presença no mercado audiovisual.
A trajetória de Phellipe Marques começou nos palcos de Belém, onde construiu sua formação artística e participou de trabalhos teatrais que ajudaram a desenvolver sua experiência como intérprete. Em 2019, decidiu deixar o Pará e se mudar para o Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades profissionais. A mudança, no entanto, trouxe desafios que exigiram persistência, adaptação e a necessidade de conciliar o sonho de viver da atuação com as responsabilidades financeiras.
Durante dois anos, o artista trabalhou como motorista de aplicativo para garantir o próprio sustento enquanto buscava espaço no competitivo mercado audiovisual brasileiro. A experiência foi importante para sua trajetória, tanto pela necessidade de se reinventar profissionalmente quanto pelo contato com diferentes pessoas e realidades. Em entrevista ao DOL, Phellipe destacou que cada etapa representou um aprendizado e contribuiu para a construção da carreira que desenvolve atualmente.
“Eu costumo dizer que cada participação é uma conquista, um novo degrau que a gente sobe na construção de uma carreira”, afirmou o ator. Ao recordar a decisão de sair de Belém, ele ressaltou as dificuldades de chegar a uma cidade como o Rio de Janeiro sem contatos profissionais e precisar conquistar a confiança de pessoas que ainda não conheciam seu trabalho.
“Não é simples deixar sua terra, suas referências, chegar a uma cidade como o Rio de Janeiro sem conhecer os profissionais do mercado e, principalmente, sem que eles conheçam você. É preciso construir tudo praticamente do zero, conquistar confiança, demonstrar competência e, acima de tudo, resistir às dificuldades que aparecem pelo caminho”, declarou.
Para Phellipe, a participação em Dom de Iludir representa mais um passo importante nessa caminhada. O ator espera que o trabalho alcance novos públicos e desperte o interesse de diretores, produtores e profissionais responsáveis pela escalação de elencos. Mais do que acumular créditos no currículo, ele busca transformar as oportunidades conquistadas em uma carreira cada vez mais sólida.
“Trabalhar como motorista de aplicativo foi parte dessa caminhada, porque os sonhos também precisam encontrar maneiras de sobreviver à realidade”, disse. Ele acrescentou que seu grande objetivo continua sendo viver plenamente da arte, conciliando reconhecimento profissional e remuneração justa pelo trabalho como ator.
Personagem exigiu experiência e capacidade de observação
Em Dom de Iludir, Phellipe interpreta um policial civil que atua no setor antissequestro. Embora seja uma participação pontual, o personagem exigiu atenção à construção da linguagem, à postura corporal e à maneira de transmitir autoridade diante das câmeras. Segundo o ator, o processo de preparação para papéis com poucas cenas apresenta desafios diferentes daqueles enfrentados em personagens que acompanham boa parte da narrativa.
Ele explicou que participações menores exigem que o intérprete chegue ao set com o personagem bem definido, já que nem sempre existe tempo para desenvolver uma trajetória dramática extensa durante as gravações. Nesse contexto, a experiência acumulada no teatro e a observação do comportamento humano tornam-se ferramentas importantes para construir uma interpretação convincente.
“Já numa participação pontual, o desafio é outro: você precisa chegar ao set com aquele universo praticamente pronto dentro de você”, explicou. Para compor o policial, Phellipe recorreu a experiências anteriores com personagens ligados à autoridade e ao poder, além de observar características de comportamento e linguagem associadas ao profissional que interpreta.
“Como se trata de um policial civil carioca, procurei compreender a maneira como esses profissionais se comportam, sua postura, sua linguagem e a autoridade que precisam transmitir”, contou.
O ator ressaltou que o trabalho não se resume à caracterização visual ou ao figurino. Mesmo em uma participação breve, é necessário transmitir credibilidade e fazer com que o público reconheça a identidade daquele personagem. Para ele, esse exercício exige experiência, sensibilidade e capacidade de transformar referências em uma atuação natural diante das câmeras.
Bastidores renderam aprendizado com Mauro Mendonça Filho
A experiência de trabalhar com um elenco de nomes conhecidos da dramaturgia brasileira e sob a direção de Mauro Mendonça Filho também proporcionou situações marcantes para o ator paraense. Uma delas aconteceu durante o processo de seleção para o papel e acabou se transformando em uma lição sobre os limites entre a liberdade criativa do intérprete e as decisões da direção.
Phellipe contou que, no primeiro teste enviado à produção, interpretou o policial de maneira mais neutra, sem recorrer a expressões regionais ou aos clichês frequentemente associados a agentes da segurança pública na ficção. Depois, recebeu um retorno de sua agente informando que a equipe gostaria de ver uma interpretação com características mais cariocas.
Ao gravar uma nova versão, o ator decidiu experimentar uma abordagem própria, incorporando expressões e uma maneira de falar que considerava mais próxima da malandragem carioca. A proposta funcionou no processo seletivo, mas provocou uma reação inesperada quando ele chegou ao set para gravar a cena.
“Fiz exatamente como havia feito no teste. Ele olhou para o roteiro, olhou para mim e disse, surpreso: ‘Peraí, nada do que tu disseste está aqui!’”, relembrou,
A situação levou a uma conversa com o diretor sobre a necessidade de submeter alterações no texto à avaliação da direção. Segundo Phellipe, a abordagem de Mauro foi firme, mas respeitosa, permitindo que ambos ajustassem a interpretação até encontrar o resultado adequado à narrativa.
“Foi uma experiência extraordinária, porque ali compreendi, na prática, algo fundamental sobre nosso ofício: o ator precisa ter propostas, criatividade e personalidade, mas também precisa estar disponível para ser dirigido”, afirmou.
O episódio reforçou para o artista a importância do trabalho coletivo no audiovisual. Ele destacou que, embora a criatividade seja fundamental para a construção de um personagem, o intérprete precisa compreender a visão do diretor e estar disposto a adaptar suas escolhas para contribuir com o resultado final da produção.
Experiência internacional abriu novas perspectivas
Antes da estreia de Dom de Iludir, Phellipe também participou de Man on Fire, produção internacional da Netflix gravada no México. No trabalho, interpretou um guarda de segurança e teve a oportunidade de contracenar com a atriz brasileira Alice Braga. A experiência representou um marco em sua trajetória, ampliando o contato com o funcionamento de uma produção internacional e fortalecendo sua presença profissional no audiovisual.
Em entrevista ao DOL, o ator afirmou que ser selecionado para projetos desse porte representa uma forma importante de reconhecimento, especialmente em uma profissão marcada pela concorrência e pelas incertezas. Para ele, cada oportunidade conquistada ajuda a demonstrar que o trabalho desenvolvido ao longo dos anos está encontrando espaço no mercado.
“Acredito que uma das maiores conquistas para um ator seja perceber que seu trabalho começa a falar por ele”, declarou. Phellipe reconheceu que a escolha de um profissional envolve diferentes fatores, como as características do personagem e as necessidades de cada produção, mas destacou a satisfação de integrar projetos que considera relevantes para sua carreira.
O artista também ressaltou que os trabalhos na Netflix ampliam as possibilidades de ser visto por novos diretores, produtores e profissionais de elenco, tanto no Brasil quanto no exterior. A expectativa é que os créditos conquistados contribuam para novas oportunidades e para a consolidação de uma trajetória construída gradualmente, desde os primeiros trabalhos em Belém.
A experiência internacional, porém, também mostrou a importância de continuar se preparando. Depois das gravações de Man on Fire, Phellipe percebeu a necessidade de aprimorar o inglês e retomou os estudos para estar mais preparado caso surja uma nova oportunidade fora do país.
“Essa é a mentalidade que procuro cultivar: não esperar a oportunidade chegar para começar a preparação, mas estar preparado quando ela aparecer”, afirmou.
Ator deixa mensagem para artistas do Pará
Mesmo depois de se mudar para o Rio de Janeiro, Phellipe mantém uma ligação estreita com Belém e com a cultura paraense. Essa identidade também aparece em João Pinguelo, personagem de humor criado durante a pandemia de Covid-19 e inspirado na figura do caboclo paraense. Por meio dele, o artista encontrou uma forma de continuar produzindo conteúdo e manter vivas suas referências culturais em um período de interrupção das atividades presenciais.
Ao falar sobre os profissionais que estão começando a carreira no Pará, o ator destacou que a persistência precisa estar acompanhada de preparação e planejamento. Na avaliação dele, o talento é importante, mas não substitui a formação técnica, a construção de um material de apresentação profissional e a busca por oportunidades nos canais utilizados pelo mercado.
“A primeira mensagem que eu gostaria de deixar é que não permitam que os muitos nãos recebidos ao longo da caminhada sejam maiores do que a força de um único sim”, aconselhou.
Phellipe recomenda que os artistas invistam em cursos, fotografias de qualidade, gravação de cenas e materiais que demonstrem suas habilidades. Também considera importante conhecer plataformas de seleção de elenco, manter os cadastros profissionais atualizados e procurar agências sérias que possam auxiliar na busca por trabalhos.
Para ele, a preparação deve ser contínua, independentemente de o artista estar ou não participando de uma produção. O ator acredita que essa postura ajuda a aproveitar melhor as oportunidades quando elas aparecem e pode contribuir para diminuir as dificuldades enfrentadas por quem está distante dos principais centros de produção audiovisual.
“Belém tem artistas extraordinários, pessoas de um talento imenso, e acredito profundamente na capacidade desses profissionais de conquistar novos espaços”, declarou.
O artista também defendeu que a busca por oportunidades não precisa significar o abandono das origens. Para ele, a cultura, o sotaque e as experiências vividas no Pará podem se transformar em diferenciais na construção de personagens e na maneira de contar histórias.
“Quero que os artistas da minha terra compreendam que não precisam abandonar suas origens para ampliar seus horizontes. Podem levar Belém consigo, sua cultura, seu sotaque, sua história e sua identidade”, afirmou.
Com a estreia de Dom de Iludir nesta quarta-feira (28), Phellipe Marques acrescenta mais um capítulo à trajetória iniciada nos palcos da capital paraense. Entre os desafios de recomeçar em outra cidade, a experiência como motorista de aplicativo, a criação de personagens e as oportunidades conquistadas na Netflix, o ator segue buscando espaço no mercado audiovisual. Sua história também reforça a importância da preparação, da persistência e da valorização das próprias raízes na construção de uma carreira artística.





