Belém consolidou, mais uma vez, sua posição no mapa cultural do cinema brasileiro. A cidade foi palco de nove dias de trocas, exibições e reconhecimentos que reafirmaram a força do audiovisual produzido na Amazônia.
Uma cerimônia especial encerrou a programação da 11ª edição do Festival Pan-Amazônico de Cinema- Amazônia FiDOC e ocorreu na noite da quarta-feira (6), no Cine Líbero Luxardo, em Belém. O evento distribuiu 41 prêmios a 35 realizadores e consolidou mais uma edição dedicada ao cinema feito na e sobre a Amazônia.
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Durante o festival, foram reunidas produções do Pará, Amazonas, Rondônia, Maranhão, Mato Grosso, Roraima, Acre, Ceará, Goiás, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal e Alagoas.
Além dos estados brasileiros, também participaram filmes da Venezuela, Peru, Colômbia, Equador, Guiana Francesa e Estados Unidos.
A programação foi distribuída por espaços culturais da capital paraense e confirmou a vocação do FiDOC como território de encontro entre diferentes Amazônias.
Além disso, o festival conectou realizadores, estéticas e experiências que raramente ocupam o centro do circuito audiovisual nacional. Foram recebidas cerca de 1.200 inscrições entre curtas e longas-metragens de ficção, documentário e animação.
17 anos de construção de uma janela amazônica
Ao subir ao palco, a idealizadora do festival, Zienhe Castro, destacou os 17 anos de construção do projeto. Para ela, manter uma janela permanente de exibição para produções amazônicas é uma missão cidadã.
“São produções diversas, plurais. É uma missão cidadã realizar o festival como uma janela para as Amazônias, para que essas histórias circulem, sejam vistas e reconhecidas a partir dos próprios territórios”, afirmou.
A 11ª edição contou com patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Rouanet de Incentivo a Projetos Culturais, do Ministério da Cultura e do Governo do Brasil.
Além disso, recebeu apoio cultural do Governo do Estado do Pará, do Sesc/Pará, do Fórum dos Festivais e da Mistika. As parcerias incluíram ainda a Aliança Francesa Belém, o Instituto +Mulheres, o FICCI e a Apex Brasil.
A realização e produção foram da Z Filmes e do Instituto Culta da Amazônia.
Grandes vencedores das mostras competitivas
O grande vencedor do júri oficial da Mostra Pan-Amazônica de longas foi “Glória e Liberdade”, do Ceará, com direção de Letícia Simões.
O filme imagina um Brasil fragmentado após a vitória de revoltas populares como a Cabanagem e a Balaiada. Nessa ficção, a Amazônia deixa de ser periferia e se torna centro político de um continente chamado Pau-Brasil.
Em vídeo exibido na cerimônia, a diretora declarou: “A história da Amazônia está sendo reimaginada e está a povoar a memória do povo da Amazônia.”
Já o júri popular da mesma mostra premiou “Dona Onete: Meu Coração Nesse Pedacinho Aqui”, de Mini Kerti, sobre a cantora e compositora marajoara.
A menção honrosa ficou com “Kueka, Memória Ancestral”, da venezuelana María de los Ángeles Peña Fonseca, reconhecido pelo júri como alerta contra a exotificação das culturas indígenas.
Um dos maiores destaques da noite foi o curta paraense “Boiuna”, da diretora Adriana de Faria. O filme conquistou os dois principais prêmios da Mostra Pan-Amazônica de curtas: o do júri oficial e o do júri popular.
O júri destacou a força estética da obra e a forma como ela conecta as encantarias da Amazônia a questões sociais contemporâneas.
Também do Pará, “A Mulher Sem Chão”, das diretoras Auritha Tabajara e Débora McDowell, levou o prêmio de melhor longa pelo júri oficial da Mostra Amazônia Legal.
O reconhecimento veio pela forma como a obra tece relações entre corpo, território e identidade.
Rondônia marca presença histórica em Belém
Um dos momentos simbólicos da noite foi a chegada de uma comitiva de realizadores de Rondônia. Foi a primeira vez que o estado enviou representantes a Belém para participar da cerimônia.
Para eles, como para muitos outros presentes, cada prêmio representava mais do que um reconhecimento artístico.
Era, portanto, uma possibilidade concreta de continuar a fazer cinema em uma região historicamente excluída dos grandes centros de financiamento do audiovisual brasileiro.
Prêmios de formação abrem portas internacionais
Antes mesmo dos prêmios das mostras competitivas, o festival anunciou as premiações de formação e desenvolvimento.
Essa escolha não foi acidental: em um setor marcado pela descontinuidade de políticas públicas e pela concentração histórica do audiovisual no eixo Rio-São Paulo, o FiDOC aposta que premiar não basta.
É preciso, portanto, criar condições para que o cinema amazônico circule, amadureça e se internacionalize.
O Prêmio Vivência Conexão Criativa Globo, voltado a projetos de não ficção documental, aproximou realizadores amazônicos de lideranças do núcleo de documentários dos Estúdios Globo.
Os cinco projetos contemplados foram:
- “Filhos do Boto”, de Jacirene do Espírito Santo Alves;
- “Graças a Elas”, de Lu Peixe e Rafael Nzinga;
- “Ressonâncias”, de Lucas Lourenço Escócio de Faria;
- “Na Matinê”, de Lucas da Silva Negrão
- “Todo Rio Deságua no Mar”, de Rodrigo Aquiles Santos.
Com “Ressonâncias”, Lucas Escócio garantiu ainda participação no laboratório internacional do FIFAC em 2026.
Jacirene Alves acumulou dois prêmios na mesma noite: além do Globo, recebeu o Prêmio Taturana, voltado ao desenvolvimento de campanhas de impacto social.
Esse reconhecimento posiciona “Filhos do Boto” não apenas como obra artística, mas também como instrumento de transformação social.
Carla Larrea Sánchez, com “Tioniza”, foi contemplada pelo Prêmio Aurora Docs Film, que oferece consultoria de roteiro e produção. Além disso, recebeu o Prêmio Residência Espírito Mundo, que leva realizadores a Bruxelas.
Essa distinção foi compartilhada com outros quatro projetos:
- “Cosmopoéticas Afro-Amazônicas”, de George Ferreira dos Santos;
- “Quem Vigia os Vigias de Rua?”, de Ítalo Rodolpho Rodrigues Miranda;
- “Filhos do Boto”, de Jacirene Alves;
- “Todo Rio Deságua no Mar”, de Rodrigo Aquiles Santos.
Parcerias internacionais ampliam circulação
O festival distribuiu ainda prêmios em parceria com instituições nacionais e internacionais.
A Aliança Francesa de Belém contemplou “Santa ou Onça”, de Luciana Diniz e Rodrigo Hinrichsen, e “Cidade dos Urubus”, de Felipe Cortez, com curso de francês e acesso a sala de cinema para curadoria.
O Festival Internacional de Cine de Cartagena garantiu a Lucas Sá um passe premium para o FICCI 2027. Já a Betweenfilms ofereceu a Felipe Cortez consultoria sobre circulação em festivais e mercados europeus.
Ítalo Rodolpho Rodrigues Miranda recebeu ainda o Prêmio Bruno Ottati, com consultoria em produção, pós-produção e inteligência artificial.
Por fim, o festival anunciou duas Menções Especiais: “Santa ou Onça”, de Luciana Diniz e Rodrigo Hinrichsen, e “Interespecial”, da equatoriana Natali Estefanía Peñarreta Muñoz.
Esse último reconhecimento sinalizou que o olhar do festival alcança também realizadores de fora do Brasil que filmam a Amazônia.
Fórum e formação fortalecem o setor
Além das mostras competitivas, a edição realizou o 2º Fórum de Cinema das Amazônias, com 12 painéis, mesas e debates sobre circulação, produção, mercado e políticas para o audiovisual amazônico.
O festival ofereceu ainda 16 atividades formativas entre oficinas, masterclasses, workshops e laboratórios voltados à qualificação de realizadores da região.
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A programação contou com três estreias do cinema paraense e com a Colômbia como país convidado.
Confira a lista completa dos premiados:
Mostra Pan-Amazônica – Longas
- Melhor Longa – Júri Oficial: Glória e Liberdade (Brasil / CE), Letícia Simões;
- Melhor Longa – Júri Popular: Dona Onete: Meu Coração Nesse Pedacinho Aqui (Brasil / RJ), Mini Kerti;
- Menção Honrosa: Kueka, Memoria Ancestral (Venezuela), María de los Ángeles Peña Fonseca.
Mostra Pan-Amazônica – Curtas
- Melhor Curta – Júri Oficial: Boiuna (Brasil / PA), Adriana de Faria;
- Melhor Curta – Júri Popular: Boiuna (Brasil / PA), Adriana de Faria;
- Menção Honrosa: Sara (Peru), Ariana Andrade Castro.
Mostra Amazônia Legal – Longas
- Melhor Longa – Júri Oficial: A Mulher Sem Chão (PA), Auritha Tabajara e Débora McDowell;
- Melhor Longa – Júri Popular: Xingu, Nosso Rio Sagrado (PA), Angela Gomes;
- Menção Honrosa: Concerto de Quintal (RO), Juraci Júnior.
Mostra Amazônia Legal – Curtas
- Melhor Curta – Júri Oficial: Sukande Kasáká | Terra Doente (MT), Kamikia Kisedje e Fred Rahal;
- Melhor Curta – Júri Popular: Mucura (RO), Fabiano Tertuliano Barros;
- Menção Honrosa: A Ascensão da Cigarra (RO), Ana Clara Ribeiro.
Mostra As Amazonas do Cinema
- Melhor Longa – Júri Popular: A Vida Secreta de Meus Três Homens (Brasil • CE), Letícia Simões;
- Melhor Curta – Júri Popular: Quem Quer? (PA), Célia Maracajá.
Mostra Competitiva Videoarte
- Melhor Videoarte – Júri Oficial: Didibuísmos (PA), Marise Maués;
- Melhor Videoarte – Júri Popular: Didibuísmos (PA), Marise Maués.
Mostra Competitiva Videoclipe
- Melhor Videoclipe – Júri Oficial: Corra! – Kalika (PA), Kayke Ryan;
- Melhor Videoclipe – Júri Popular: Monalisa – Frimes (MA), Lucas Sá;
- Menção Honrosa: Madalena – Malena (AM), Ramon Ítalo e Malena.
4º Festival Curta Escolas – Mostra Primeiro Olhar
- Melhor Curta – Júri Oficial: A Fundação de Joanes, Escola Municipal de Joanes;
- Menção Honrosa: Escola Bosque – 30 anos, Escola Bosque.
Prêmios de Formação e Desenvolvimento
- Prêmio Talentos Artísticos Estúdios Globo – Não Ficção Doc: Lucas da Silva Negrão, Na Matinê; Lu Peixe e Rafael Nzinga, Graças a Elas; Lucas Lourenço Escócio de Faria, Ressonâncias; Jacirene do Espírito Santo Alves, Filhos do Boto; Rodrigo Aquiles Santos, Todo Rio Deságua no Mar.
- Prêmio FIFAC / Doc Amazonie Caraïbe (Participação no laboratório da edição do FIFAC 2026): Lucas Lourenço Escócio de Faria, Ressonâncias;
- Prêmio Aurora Docs Film (Puerto Rico) (Consultoria de roteiro e produção): Carla Larrea Sánchez, Tioniza;
- Prêmio Taturana Cinema e Impacto (Consultoria para desenvolvimento de campanha de impacto): Jacirene do Espírito Santo Alves, Filhos do Boto;
- Menção Especial: Luciana Diniz e Rodrigo Hinrichsen, Santa ou Onça;
- Prêmio Residência Espírito Mundo – Bruxelas: George Ferreira dos Santos, Cosmopoéticas Afro-Amazônicas; Ítalo Rodolpho Rodrigues Miranda, Quem Vigia os Vigias de Rua?; Carla Larrea Sánchez, Tioniza; Jacirene do Espírito Santo Alves, Filhos do Boto; Rodrigo Aquiles Santos, Todo Rio Deságua no Mar;
- Prêmio Indústria FICCI (Festival Internacional de Cine de Cartagena) Passe premium para o FICCI 2027: Lucas Sá, Até Tua Mãe Me Recomenda;
- Prêmio Aliança Francesa de Belém (Curso de francês e uso de sala de cinema para curadoria em parceria com o festival): Luciana Diniz e Rodrigo Hinrichsen, Santa ou Onça; Felipe Marcos Gonçalves Cortez, Cidade dos Urubus;
- Prêmio Bruno Ottati (Consultoria em produção, pós-produção e inteligência artificial: Ítalo Rodolpho Rodrigues Miranda, Quem Vigia os Vigias de Rua?
- Prêmio Betweenfilms (Consultoria sobre circulação em festivais e mercados europeus): Felipe Marcos Gonçalves Cortez, Cidade dos Urubus;
- Menção Especial: Natali Estefanía Peñarreta Muñoz, Interespecial.







