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“Vestígio amargo” transforma retorno ao Marajó em uma busca por origem e pertencimento

Entre Belém, Berlim e uma pequena cidade do Marajó, o escritor, poeta e antropólogo Marcos Samuel Costa da Conceição constrói uma narrativa sobre filiação, silêncio e as perguntas que permanecem mesmo quando se acredita conhecer a própria história. Em Vestígio amargo, romance publicado pela Cachalote em 2026, o retorno à ilha onde cresceu leva o protagonista a confrontar um passado familiar que nunca foi inteiramente contado. O livro está em pré-venda.

Pablo, jornalista prestes a completar trinta anos, retorna ao Marajó depois de um mestrado-sanduíche na Alemanha. Na ilha, reencontra Laura, a mulher que o entregou à adoção ainda bebê, em um acordo verbal, sem qualquer processo formal. Os dois frequentam a mesma academia e se cumprimentam diariamente, mantendo uma proximidade marcada pela distância de uma história que nunca foi colocada em palavras. Até que Laura pede para conversar.

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O convite desencadeia um conflito íntimo: ouvir a mulher que o entregou à adoção pode significar, para Pablo, uma espécie de traição à mãe que o criou. Recusar o encontro, por outro lado, é continuar sem respostas sobre sua origem. Entre a vontade de compreender e o receio de ferir os vínculos que constituem sua vida, o protagonista adia a conversa e passa a revisitar experiências que conectam sua trajetória individual a questões históricas e sociais mais amplas.

A investigação de sua própria origem se entrelaça à pesquisa de mestrado que realizou sobre mulheres da Transamazônica e de regiões próximas a hidrelétricas e áreas de mineração. São mulheres que narram a perda de maridos, filhos e terras, testemunhando os efeitos da violência e das transformações impostas aos territórios amazônicos. Aos poucos, Pablo percebe que a violência que estudou academicamente não está distante de sua história: ambas se cruzam nas relações de poder, nos silenciamentos e nas marcas deixadas sobre corpos e famílias.



Narrado em primeira pessoa, o romance alterna tempos e espaços, aproximando o presente na ilha das lembranças de Belém e Berlim. Nesse movimento, a experiência de viver a sexualidade longe de casa também ganha espaço, revelando o cansaço de um homem que, perto dos trinta anos, começa a procurar sentidos para além dos encontros passageiros. Com uma estrutura que evoca a linguagem cinematográfica, a narrativa avança por fragmentos e deslocamentos, preservando até o fim aquilo que seu protagonista mais evita enfrentar.

A ilha, por sua vez, deixa de ser apenas cenário da infância e assume a dimensão de um território atravessado por memórias familiares e desigualdades históricas. A história de Laura — menina ribeirinha, criada em uma família de dez irmãos e descendente de pessoas escravizadas no antigo engenho local — amplia o alcance da narrativa. Sua trajetória ajuda a iluminar os silêncios que cercam a adoção e as heranças de uma sociedade marcada pelo racismo e pela violência.

Ao aproximar a intimidade familiar da história social amazônica, Vestígio amargo transforma a busca por identidade em uma reflexão sobre pertencimento, maternidade e as formas pelas quais o passado continua a agir no presente. No centro do romance está um filho entre duas mães, diante da possibilidade de descobrir que a ilha que julgava conhecer guarda histórias que nunca lhe foram reveladas.

Sobre o autor

Marcos Samuel Costa da Conceição nasceu em Ponta de Pedras, no Marajó, em 1994. Poeta e antropólogo, publicou Dentro de um peixe (Folheando, 2019) e Os desertos (Folheando, 2023), livro semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Vestígio amargo, publicado pela Cachalote em 2026, dá continuidade a uma produção literária ligada às experiências, às memórias e às contradições que atravessam a Amazônia.



Pré-venda: Vestígio amargo, de Marcos Samuel Costa da Conceição, pela editora Cachalote, no link.

Veja o vídeo sobre o livro:



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