A pandemia reuniu Henry Burnett e Ronaldo Silva, amigos de longa data. O resultado, alguns anos depois, é esse trabalho, no qual a parceria transborda em poemas que viram canções. São caminhos divergentes na vida, mas que se encontram numa encruzilhada: a da música!
Ronaldo Silva permaneceu em Belém e aqui construiu uma trajetória, cujo ápice parece ser a de comandar a multidão que enche as ruas de um certo trecho da cidade, no mês de junho. Não há ninguém, gostando ou não, que seja indiferente a esse evento.
Henry Burnett debandou e se tornou um dos mais importantes intérpretes brasileiros da filosofia de Nietzsche e professor de uma universidade pública federal em São Paulo e que acaba de lançar seu sexto livro na sua área de pesquisa. Mas, quando essas trajetórias se encontram, o que rege mesmo é a música e o sabor das palavras, mais ainda, o desafio de torná-las canções.
O princípio organizador dessa aventura talvez seja encontrar o equilíbrio entre o olhar saudoso do Henry e a vibração interior do Ronaldo. Talvez porque para o Henry, encontros como esse o trazem de volta para a sua Belém, ou seja, aquela Belém que atravessa sua história. Ronaldo também transpira saudade, sua família veio do Arari, ele traz consigo e guarda no peito essa herança marajoara.
Por que destaco essa ideia da saudade? Porque esses poemas que viraram canções transbordam de água, a maioria dessas músicas falam do rio, de águas, de vento, a água é caminho, um caminho percorrido por uma canoa, aqui e ali um navio, quem sabe arrastado por uma correnteza. A metáfora do rio, tão eloquente para nós, da filosofia (“Ninguém toma banho no mesmo rio duas vezes”, já dizia Heráclito), desloca a estabilidade da margem e instaura um permanente movimento, cujo “ser”, só pode estar “em devir” ou ainda “à deriva”.
Dessa maneira, as metáforas geográficas, tão presentes no trabalho do Ronaldo, encontram aqui um outro ritmo, diferente daquele que nos acostumamos a ouvir. Aqui, o ritmo quase silencia – a interpretação do Henry, principalmente, radicaliza esse tom silencioso – e as metáforas aquáticas e seus derivados desvelam, pouco a pouco, uma indagação sobre a vida e sobre o mundo: nada é estável, o chão firme está sempre à mercê do vento, da correnteza, das águas correntes. Assim, a praia de Joanes, por exemplo, não é “a” praia de Joanes, mas uma alegoria do tempo, da sua passagem, entre – mais uma vez – as águas e a luz da lua ou o céu estrelado.
A geografia se torna uma espécie de cosmovisão, diante da qual, nós, seres finitos, somos pequenos, menores, mas resistindo à possibilidade de desaparição de toda essa beleza que nos rodeia. O que pode haver de “regional” aqui não sucumbe, de modo algum, às exigências da “indústria” que adotou a “Amazônia”, o “Pará”, como mais uma mercadoria vendável, desta feita no “mercado” da cultura.
Mas, tudo isso só “existe” como música. É, acima de tudo, música. E aqui, não posso deixar de falar no trabalho do Arthur Kunz, outro paraense longe de sua terra, mas com os pés fincados nela, sempre lembrado por sua participação na banda Strobo e por sua contribuição estreita com a cantora Marina Lima. Arthur imprime uma sonoridade às composições de Henry e Ronaldo, que se integra e se harmoniza com toda essa saudade das águas. Talvez, uma saudade que também o contamine.
Assim, ora somos arrastados pela “massa” de sons, de batidas fortes, que vão num crescendo; ora, ao contrário, podemos sentir no corpo o doce balanço do mar e das águas batendo no nosso rosto. Eu bem sei o quanto o Arthur é, antes de tudo, um incansável trabalhador em busca do som perfeito, da melhor batida, sempre à procura dos melhores instrumentos. Jamais um repetidor, Arthur é, antes de tudo, um criador.
Ao Ronaldo, Henry, Arthur, Julia Burnett e Allan Carvalho – estes dois últimos como “participações especiais” – acrescente-se, por fim, Alex Flemming, artista paulista de renome internacional, mas apaixonado por Belém, que acaba de voltar ao Brasil depois de mais de 30 anos morando em Berlim. É do Alex, a obra que ornamenta a capa desse trabalho (“O advogado”), que remete, com suas cores vibrantes, ao elo da amizade que duas pessoas podem partilhar.
Todos juntos, constroem um trabalho singular, no qual a intuição poética unida à reflexão filosófica (mesmo que Henry prefira não misturar as coisas) nos propiciam uma bela viagem. De dentro de nós para os outros, para esse mundão a perder de vista, para esse horizonte infinito, que não encontra, de imediato, nenhuma outra margem. Sim, da praia de Joanes, não enxergamos nenhuma outra margem. Mas, podemos nos deixar levar por esses sons e, quem sabe, mergulhar nessas águas em busca de uma cidade encantada.
*Por Ernani Chaves, professor titular da Faculdade de Filosofia da UFPA
Ouça o álbum
Além do cais: Henry Burnett interpreta Ronaldo Silva, está disponível em todas as plataformas [https://tratore.ffm.to/alemdocais]
E no Bandcamp [https://henryburnett.bandcamp.com/album/al-m-do-cais-henry-burnett-interpreta-ronaldo-silva
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