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Série feita com IA transforma Belém em cenário de apocalipse zumbi

Belém ganhou uma versão inusitada nas redes sociais: a de uma cidade tomada por um apocalipse zumbi. O cenário, que poderia parecer parte de uma superprodução de Hollywood, é resultado do trabalho do paraense Luan Oliveria, criador do Mistérioverso, que utiliza inteligência artificial (IA) para imaginar como seria a chegada de uma infecção e a luta pela sobrevivência em diferentes pontos da capital paraense. 


A ideia surgiu a partir da paixão de Luan pelo universo dos zumbis e do desejo de trazer o cenário pós-apocalíptico para uma realidade brasileira. “Como sou um grande fã de zumbis, sempre foi meu sonho reproduzir esse cenário no nosso próprio quintal, trazendo a sobrevivência para a nossa realidade”, conta. 

O primeiro vídeo da franquia foi um documentário de 35 minutos, com uma história ambientada em nível nacional. Ao todo, a produção ultrapassou 500 mil visualizações nas redes sociais e chamou atenção do público. 

“Com essa repercussão, o pessoal gostou tanto que os comentários começaram a bombar com a galera perguntando: ‘e como aconteceu em tal cidade?’, ‘como foi em tal lugar?’. Foi ai que eu decidi mostrar como a infecção chegou em casa estado e como se espalhou pelo país”, explicou. 
Como é paraense, Luan decidiu começar a expansão da história por Belém. “Como eu sou do Pará, fazia todo sentindo começar por aqui, então o segundo episódio foi focado inteiramente no nosso estado”, afirma. 

Pontos turísticos de Belém viram cenários de caos

Na produção, locais conhecidos pelos moradores completamente transformados pela possibilidade de um ataque zumbi. Entre os espaços já utilizados estão o Ver-o-Peso, Aeroporto Internacional de Belém, Estação das Docas, Avenida Pedro Miranda, Sambódromo, Rua do Comércio e Praça do Relógio.



Para Luan, a própria geografia da capital paraense contribuiu para a construção da narrativa. “Belém tem uma atmosfera cinematográfica natural, cheia de mistério. A cidade é cercada de água, conectada por ilhas, cheia de palafitas e ruas apertadas”, destaca.




O criador conta que imaginar um surto começando em meio ao movimento do Ver-o-Peso . “Imaginar o surto começando no meio do movimento do Ver-o-Peso ou a população tentando escapar em barcos no rio trouxe uma dinâmica que nenhuma produção americana conseguiria reproduzir”, afirma.

Inteligência artificial funciona como estúdio de efeitos especiais

Para transformar pontos reais de Belém em cenários pós-apocalípticos, Luan utiliza ferramentas de inteligência artificial generativa, como modelos de geração de imagens, além de um aplicativo autoral desenvolvido por ele para criar imagens cinematográficas.



A tecnologia permite realizar cenas que seriam praticamente inviáveis para uma produção independente, como fechar grandes avenidas, destruir veículos ou colocar hordas de zumbis em pontos turísticos. “A IA é basicamente o nosso estúdio de efeitos visuais de baixo orçamento”, explica.

Segundo Luan, a tecnologia é utilizada para gerar imagens, estruturar ideias de roteiro e auxiliar no planejamento da divulgação.  “Uso IA para me ajudar a estruturar as ideias de roteiro e planejar a divulgação, mas o roteiro final, a dublagem com aquele tom misterioso e de suspense, e a montagem frame a frame na edição são feitos à mão, de forma 100% autoral”, afirma.

“A IA gera a imagem que ilustra o caso, mas quem conta a história de um jeito que prende o espectador sou eu”, completa.



Produção pode levar até um mês

Apesar da utilização da inteligência artificial, Luan explica que a produção dos episódios exige tempo e trabalho. Segundo ele, existe uma percepção de que basta inserir um comando em uma ferramenta de IA para obter um vídeo pronto, mas o processo é bem mais complexo.

“Tem gente que acha que criar com IA é só digitar uma linha de texto, apertar um botão e o vídeo sai pronto em cinco minutos. Mas a realidade é bem diferente: dá muito trabalho”, conta.

Para produzir um episódio dentro do padrão do Mistérioverso, o processo pode levar de três semanas a um mês.



“A pesquisa de dados reais, como geografia, rotas e dados científicos sobre infecções, toma bastante tempo. Depois, para cada cena que você vê na tela, eu chego a gerar dezenas de variações até achar a composição perfeita”, explica.

A etapa de narração e edição também faz parte do processo.

“Por fim, a gravação da narração, calculando o tempo exato das falas, e o sound design na edição consomem dias de pós-produção”, afirma.



 IA democratiza produções audiovisuais

Para Luan, a inteligência artificial está mudando a forma como histórias podem ser produzidas e permitindo que criadores independentes alcancem resultados que antes exigiriam grandes orçamentos.

“Sem dúvida. A IA está democratizando a escala visual das produções. Hoje, qualquer criador dedicado, direto do seu quarto, consegue dar às suas histórias uma cara de superprodução de Hollywood”, avalia.

Segundo ele, a tecnologia permite que a criatividade tenha um peso maior na produção.“Isso nivela o jogo porque o foco volta a ser o peso da ideia e a qualidade da narrativa, e não o tamanho do orçamento”, afirma.

Apesar disso, Luan chama atenção para o excesso de conteúdos produzidos automaticamente. “Por outro lado, o mercado está sendo inundado por muito conteúdo genérico gerado no piloto automático. A IA acelera e expande a parte visual, mas a alma de uma boa história, a tensão, as viradas de roteiro, a conexão humana e o tom de voz misterioso ainda dependem do criador”, explica.




Público discute estratégias para sobreviver

A repercussão dos vídeos também aparece nos comentários das publicações. Segundo Luan, muitos espectadores passaram a discutir estratégias de sobrevivência como se o ataque zumbi estivesse acontecendo de verdade. “O que mais me impressiona é ver a galera debatendo as estratégias nos comentários como se o surto estivesse acontecendo de verdade”, conta.

Os seguidores analisam rotas de fuga, locais considerados seguros e até possibilidades de deixar Belém de barco. Alguns comentários também marcam a Netflix e pedem que a história seja transformada em um filme. “Esse nível de imersão, em que o espectador se enxerga sobrevivendo nos pontos turísticos em que ele passa toda semana para ir ao trabalho ou passear, é sensacional”, afirma.




Para o criador, a reação mostra que o formato escolhido para o Mistérioverso conseguiu aproximar o público da história.“Mostra que o tom de documentário e mistério do Mistérioverso funcionou e fez as pessoas comprarem a ideia”, conclui.



Referências vêm de clássicos do gênero

A série também possui referências em produções conhecidas do gênero. Luan cita ‘Extermínio’ como inspiração para o ritmo tenso e desesperado e ‘Guerra Mundial Z’ pelas grandes hordas de infectados. “As referências clássicas são inevitáveis e eu sou fã”, afirma.




A produção também utiliza elementos científicos para construir uma explicação fictícia para a origem da infecção, misturando referências de diferentes doenças e agentes infecciosos.

Com a repercussão dos primeiros episódios, o universo do Mistérioverso deve continuar explorando diferentes regiões e imaginando como o Brasil reagiria a um cenário de apocalipse zumbi.

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