No coração de Belém, onde o som dos tambores ecoa entre barracas e histórias, o projeto cultural Samba Batuque Feira do Açaí revela mais do que música: expõe a rotina intensa de trabalhadores que transformam arte em ofício e sobrevivência. Por trás das rodas de samba que encantam o público, existe uma engrenagem invisível movida por planejamento, parcerias e muita persistência.
E é o que está por trás da Batucada do Trabalhador, que celebra o feriado do Dia do Trabalhador, neste 1º de maio, a partir das 16h, na Feira do Açaí. A programação une os residentes Fé no Batuque e DJ Jack Sainha ao projeto Papo de Segunda, dedicado ao samba e pagode.
Enquanto o público vê celebração, os artistas vivem uma jornada que começa muito antes do primeiro acorde. Para a DJ Jack Sainha, a rotina vai muito além das pick-ups. Produzir um evento envolve lidar com ofícios, prazos e negociações. “Existe todo um trabalho anterior: solicitar licenças, garantir estrutura, captar recursos e alinhar parcerias”, explica.
A arte não se sustenta sozinha: ela precisa de base e é construída coletivamente. Parcerias com órgãos públicos, como a Prefeitura Municipal de Belém, e com iniciativas culturais independentes permitem que o evento aconteça de forma gratuita e acessível. Mas essa rede exige articulação constante.
“A Prefeitura, para dar apoio, pede que a gente entre com um ofício com pedidos de licença num prazo de um mês antes. Então, a gente entra com antecedência para fazer esse pedido que garante som, banheiros químicos – fundamentais para realizar as edições, porque evita o uso inadequado do patrimônio público –, energia elétrica, tendas de cobertura e o pagamento de cachê para os artistas convidados e custos de logística. Todo mês nós fazemos esse processo”, diz DJ Jack Sainha.
“Essa rotina é constante, assim como esforços físicos de ir atrás de patrocínio, de sonorização e cobertura de eventos. Quando a gente vê o projeto Samba realizado, sentimos uma sensação de vitória dada essa luta. Enquanto organização, a gente se preocupa não só com a qualidade musical e artística do que está sendo apresentado – que é entretenimento, mas proporciona ainda arte e lazer de uma maneira democrática e gratuita -, mas ao mesmo tempo a gente quer qualidade técnica do som, salubridade, com a questão dos banheiros, e quer oferecer o melhor dos eventos, e para isso, transforma a nossa força de artistas nesse empenho para conseguir esse apoio e a gente vence a cada edição”, relata a DJ Jack Sainha.
Artistas assumem múltiplo papéis
Geraldo Nogueira, idealizador do projeto, destaca que o artista contemporâneo precisa assumir múltiplos papéis. “É um feriado, então, por direito, o trabalhador que curte o seu feriado vai ter, dentro do Samba Batuque da Feira do Açaí, a oportunidade de se divertir no espaço público de forma gratuita. A gente sempre fica com uma expectativa muito grande para receber esse público e poder fazer o nosso melhor, porque é fazer arte. E o mais importante é esse poder que tem no momento de democratizar essa arte de forma gratuita para todos os trabalhadores. Hoje, a gente não é só músico. Somos produtores, gestores, captadores de recursos. A criatividade também está em como viabilizar o projeto”, afirma.
Esse processo de transformar ideia em realidade passa por etapas bem definidas: concepção artística, planejamento logístico, captação de patrocínio, divulgação e execução. Cada fase exige competências diferentes, da sensibilidade musical à habilidade de negociação.
Mesmo com os desafios, há um sentimento comum entre os envolvidos: resistência e propósito. A democratização do acesso à arte aparece como motivação central. No fim, o batuque que ecoa na feira carrega mais do que ritmo: ele traduz o esforço diário de artistas-trabalhadores que reinventam suas funções para manter viva a cultura local. Entre planilhas e pandeiros, contratos e cavaquinhos, o samba segue firme como expressão, como trabalho e como luta. “Quando a gente vê tudo acontecendo, o público ocupando o espaço público com alegria, é uma vitória coletiva”, conclui Jack Sainha.
FESTEJE
Batucada do Trabalhador – Samba Batuque Feira do Açaí
Quando: Hoje, 01º de maio, a partir das 16h.
Onde: Feira do Açaí – Ver-o-Peso
Quanto: gratuito.
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