A artista indígena Posada apresenta neste sábado (10), em Belém, um espetáculo que conecta a musicalidade da Amazônia às tradições da América Latina. Com raízes colombianas e uma trajetória marcada pela diversidade cultural, a cantora, compositora, DJ e produtora sobe ao palco da Casa Apoena, no bairro da Cidade Velha, para apresentar o álbum de estreia “Flecha Envenenada”. O show integra a edição especial de Círio do Baile Felina, festa dedicada à valorização de mulheres na cena musical paraense.
Lançado em março de 2026, o disco reúne oito faixas que transitam pelo carimbó, côco, cumbia, reggae, dancehall, hip hop e música eletrônica. A mistura de gêneros reflete as experiências da artista em diferentes regiões brasileiras, além das influências familiares e das pesquisas sobre ancestralidade, identidade indígena e pertencimento territorial.
A apresentação acontece em um dos períodos de maior movimentação cultural de Belém, quando o Círio de Nazaré atrai visitantes de diferentes localidades e amplia a programação artística da capital paraense.
Para Posada, participar dessa celebração representa uma oportunidade de compartilhar memórias e experiências com um público conectado às tradições amazônicas.
“O Círio é um momento muito importante no calendário e na vida do paraense. É um momento em que a cidade está muito viva, de fé, de afeto, de acolhimento e comunhão, mas também de liberdade”, afirma.
Música como expressão da ancestralidade
A construção de “Flecha Envenenada” está diretamente relacionada ao processo de retomada da identidade indígena de Posada. A artista utiliza a música como instrumento de preservação de histórias familiares, referências culturais e experiências vividas em diferentes territórios.
O próprio título do álbum simboliza essa proposta. A flecha aparece como representação de proteção, resistência e defesa da memória coletiva.
“A flecha envenenada vem na representação de um artefato que está protegendo um território, que está protegendo uma história”, explica a cantora.
A influência colombiana está presente nas lembranças musicais transmitidas pelo pai, especialmente por meio do bolero e da salsa. Essas referências se aproximaram de outras sonoridades latino-americanas durante a formação artística de Posada, que passou a explorar conexões entre a cumbia, os ritmos amazônicos e a música urbana contemporânea.
Belém inspira composições e clipes
A capital paraense ocupa posição importante na trajetória da artista. Durante a juventude, Posada passou temporadas na cidade, especialmente nas festas de Natal e Ano Novo, quando familiares se reuniam na Matinha, área atualmente integrada ao bairro de Fátima.
As celebrações nas ruas, com equipamentos de som instalados diante das casas e apresentações de DJs, contribuíram para sua compreensão da música como manifestação popular e coletiva.
“A cultura de estar na rua, de ocupar a rua com música, com festas, celebrações, foi uma experiência muito valiosa e que mudou muito também a minha forma de manifestação artística, popular”, recorda.
Essas memórias aparecem em diferentes composições do álbum. A faixa de abertura, “Tenoné”, utiliza o ritmo do côco para recuperar histórias da infância da mãe da cantora, vividas no bairro que dá nome à música.
Já “Madrugada” reúne influências do reggae, dancehall, rap e música eletrônica, apresentando uma narrativa inspirada nas experiências pessoais da artista.
O videoclipe da canção, dirigido por Guima Neto, acompanha Posada em um passeio de bicicleta por locais que marcaram sua adolescência em Belém. O percurso inclui a Matinha, São Brás, Nando Vinil e a Feira do Açaí, até alcançar as margens do rio Guamá.
A produção foi realizada de forma independente, com recursos obtidos por meio de edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
Baile Felina valoriza mulheres DJs
O show faz parte do Baile Felina, projeto idealizado pelas DJs e produtoras culturais Nat/Esquema e Gabi Matos para fortalecer a presença feminina na música e ampliar os espaços de atuação das mulheres nas pistas de dança do Pará.
A relação entre Posada e as organizadoras começou em 2024, quando dividiram uma programação musical. Desde então, mantiveram contato e desenvolveram a possibilidade de realizar uma apresentação conjunta.
“São parceiras que estão totalmente conectadas com os movimentos que eu faço. A gente se conheceu tocando juntas em um line-up em 2024 e, a partir daí, seguiu sempre se acompanhando”, destaca a artista.
Nascida e criada em Belém, Nat/Esquema também integra a programação da noite. DJ, pesquisadora, curadora e produtora cultural, ela desenvolve trabalhos relacionados à música brasileira, aos ritmos paraenses e à cultura dos discos de vinil.
A edição de Círio reúne, assim, diferentes expressões da produção musical contemporânea, aproximando referências tradicionais da Amazônia de influências latino-americanas e da cultura eletrônica.
Serviço
O Baile Felina – Edição de Círio de Nazaré será realizado neste sábado, 10 de outubro, das 20h às 4h, na Casa Apoena, localizada na Rua São Boaventura, nº 171, no bairro da Cidade Velha, em Belém.
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