A música de Mestre Cupijó, um dos maiores representantes da cultura popular do Pará, vai ganhar os palcos europeus pela primeira vez em apresentações ao vivo realizadas pelo grupo Baile do Mestre Cupijó. A banda paraense inicia sua trajetória internacional na próxima quarta-feira (21), em Lisboa, Portugal, e segue para Las Palmas de Gran Canaria, na Espanha, onde participa, no sábado (24), do WOMEX 2026, um dos mais importantes encontros mundiais da indústria musical. A turnê representa um marco para a valorização dos ritmos tradicionais do Baixo Tocantins e a projeção internacional da produção cultural amazônica.
Formado por dez músicos, o grupo apresentará um espetáculo que reúne sopros, percussão, cordas, vozes e dança, explorando a riqueza do siriá, do banguê e do mambo amazônico. O repertório preserva a identidade musical desenvolvida pelo artista cametaense Joaquim Castro, conhecido como Mestre Cupijó, que morreu em 2012 sem nunca ter deixado o Pará.
Segundo os registros conhecidos pelos integrantes da banda, esta será a primeira vez que as composições do mestre serão interpretadas ao vivo fora do Brasil. Embora suas gravações já tenham alcançado outros países por meio de coletâneas e apresentações de DJs, a chegada de um espetáculo dedicado à sua obra aos palcos europeus representa uma conquista inédita para o projeto.
Seleção entre mais de mil artistas
A estreia internacional acontecerá no espaço cultural B.Leza, em Lisboa, no dia 21 de outubro. Três dias depois, o Baile do Mestre Cupijó sobe ao palco do WOMEX 2026, em Las Palmas de Gran Canaria, nas Ilhas Canárias, território espanhol.
A participação no festival foi conquistada após uma seleção realizada por um júri independente, que avaliou mais de mil inscrições de artistas de diferentes países. A escolha coloca o grupo paraense em uma programação internacional voltada à circulação de diferentes expressões musicais.
O WOMEX reúne artistas, produtores, empresários, representantes de festivais e profissionais do mercado fonográfico. A presença no evento amplia as possibilidades de estabelecer contatos, negociar futuras apresentações e apresentar a música amazônica a novos públicos.
Para o guitarrista Danilo Rosa, a viagem representa a concretização de um dos principais objetivos do projeto, criado há quase uma década para preservar e divulgar o legado do compositor.
“É uma alegria e uma honra enorme levar a música do Baixo Tocantins para outro continente. Desde que começamos, nossa missão é fazer com que o mundo conheça a obra do Mestre Cupijó. Apresentar esse show na Europa é um passo muito importante para a nossa história e para a música paraense”, afirma o músico.
Mestre Cupijó revolucionou a música do Pará
Nascido em 1936, no município de Cametá, na região do Baixo Tocantins, Joaquim Castro construiu uma trajetória marcada pela valorização dos ritmos populares e pela experimentação musical. Conhecido artisticamente como Mestre Cupijó, tornou-se uma das principais referências da música regional ao desenvolver uma sonoridade que combinava tradições afro-amazônicas com influências latinas.
Entre suas contribuições mais importantes está a popularização do siriá, ritmo tradicional da região de Cametá, ao qual incorporou instrumentos de sopro e novos arranjos. Seu trabalho também ajudou a projetar o banguê e o mambo amazônico, expressões que continuam presentes no repertório de músicos paraenses.
Apesar da relevância artística, Mestre Cupijó manteve uma relação profundamente ligada ao território onde nasceu. Segundo os responsáveis pelo projeto, ele não gostava da ideia de deixar o Pará e permaneceu no estado durante toda a vida.
Agora, 14 anos após sua morte, suas composições atravessam o Atlântico por meio de músicos que trabalham para manter viva sua contribuição à identidade cultural amazônica.
Projeto nasceu durante gravação de documentário
A história do Baile do Mestre Cupijó começou em 2017, durante a produção do documentário Mestre Cupijó e Seu Ritmo, escrito e dirigido pela cineasta Jorane Castro.
Na época, a equipe percebeu a escassez de registros audiovisuais de apresentações do artista. A necessidade de recuperar suas composições e demonstrar a força de sua música levou à formação de um grupo dedicado à interpretação de seu repertório.
O produtor e pesquisador musical JP Cavalcante ficou responsável pela pesquisa, seleção dos músicos e estruturação do projeto. Percussionista e ex-integrante da banda de Dona Onete, com a qual trabalhou durante oito anos, Cavalcante desenvolve estudos sobre a obra de Mestre Cupijó há aproximadamente uma década.
A primeira apresentação aconteceu em junho de 2017, no Teatro Margarida Schivasappa, em Belém. O espetáculo marcou o nascimento de uma formação musical que passaria a circular por importantes festivais brasileiros.
Banda ganhou espaço em festivais nacionais
Ao longo dos últimos nove anos, o Baile do Mestre Cupijó participou de eventos como Se Rasgum e Psica, no Pará, Rec-Beat, em Pernambuco, Virada Cultural de São Paulo e SIM São Paulo, ampliando a presença dos ritmos do Baixo Tocantins no cenário musical brasileiro.
Em 2024, o grupo lançou seu primeiro álbum de estúdio, com participações especiais de Dona Onete, Felipe Cordeiro e DJ Waldo Squash, artistas reconhecidos por suas contribuições à música produzida na Amazônia.
No ano seguinte, a banda realizou apresentações nas unidades da CAIXA Cultural em Brasília, Salvador, Recife e Fortaleza, por meio do projeto Baile do “Mestre Cupijó: Herança Musical do Baixo-Tocantins”.
Ainda em 2025, lançou o álbum Baile do Mestre Cupijó – Ao Vivo e o videoclipe Vai e Vem, consolidando uma produção artística que combina preservação histórica, pesquisa musical e novas interpretações da obra do compositor.
A circulação pelo Brasil ajudou a preparar o grupo para a estreia internacional, permitindo apresentar a diferentes plateias a diversidade de ritmos e instrumentos característicos da cultura musical paraense.
Formação reúne nomes da cena musical paraense
O Baile do Mestre Cupijó é formado por Carla Costta, na voz principal; Kleyton Silva, nos vocais; Danilo Rosa, na guitarra; João Neto, no baixo; Adriano Souza, na bateria; Rafael Barros, na percussão; Felipe Ricardo, no saxofone alto; Marcos Sarrazin, no saxofone tenor; Handel Alcântara, no trompete; e Lulu Bone, no trombone.
Os integrantes acumulam experiências em projetos importantes da música regional. Marcos Sarrazin atua com Dona Onete, Rafael Barros integra trabalhos do Arraial do Pavulagem e Adriano Souza tem trajetória ligada a Félix Robatto.
Carla Costta e João Neto possuem experiências no universo do brega, enquanto Danilo Rosa já trabalhou com Felipe Cordeiro, Layse e o grupo Na Cuira, do qual Kleyton Silva também participa. Handel Alcântara integra a Cia Latina.
A diversidade de experiências contribui para a sonoridade do espetáculo, que combina elementos da música popular amazônica com influências contemporâneas, mantendo as características das composições originais.
Com a chegada à Europa, o Baile do Mestre Cupijó inicia uma nova etapa de sua trajetória e amplia a circulação internacional de um patrimônio musical construído às margens do rio Tocantins.
Serviço
Baile do Mestre Cupijó — Estreia internacional
Portugal: 21 de outubro de 2026, quarta-feira, no B.Leza, em Lisboa.
Espanha: 24 de outubro de 2026, sábado, no WOMEX Official Showcase, em Las Palmas de Gran Canaria.
Informações: Instagram @bailedomestrecupijo.
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