Às margens dos rios amazônicos, a cultura popular se expressa em cores, formas e saberes que resistem ao tempo. Entre tradições transmitidas de geração em geração, ofícios artísticos ganham novos significados ao dialogar com diferentes territórios e realidades sociais, mantendo viva a identidade da região.
Nos rios da Amazônia, cada barco carrega um nome pintado à mão. Em Belém, esse saber atravessa o território e chega, neste sábado (25), às mulheres da Vila da Barca, durante uma oficina de abertura de letras no Curro Velho. A proposta é aproximar a tradição dos abridores de letras da realidade ribeirinha urbana de uma das maiores comunidades sobre palafitas da América Latina, abrindo caminhos também para geração de renda a partir desse conhecimento.
A atividade inclui a produção de um painel coletivo, criado pelas próprias participantes e levado de volta à comunidade como marca concreta da experiência. Mais do que resultado visual, o trabalho sintetiza o encontro entre técnica, território e possibilidade de aplicação prática do aprendizado.
A iniciativa é do Instituto Letras que Flutuam, que atua na valorização da cultura gráfica ribeirinha — especialmente das letras que identificam embarcações e que se tornaram um dos traços visuais mais marcantes da Amazônia. Criado a partir de mais de duas décadas de pesquisa e articulação com abridores de letras no Pará, o instituto busca fortalecer esses saberes e criar pontes entre tradição e novos públicos.
Conteúdos relacionados:
- Oficina de tambor e capoeira leva tradição maranhense a jovens de Belém
- Sesc reúne música, literatura e atividades infantis até domingo (26)
“A Vila da Barca faz muito sentido dentro do projeto. É a Belém ribeirinha, é um território que dialoga diretamente com o que a gente acredita e quer fortalecer”, afirma a diretora Fernanda Martins.
A Vila da Barca abriga cerca de 5 mil moradores e mais de 500 palafitas às margens da Baía do Guajará. No território, a relação com a água organiza o cotidiano e sustenta uma identidade ribeirinha que, embora urbana, mantém vínculos com práticas e saberes da região amazônica.
É nesse ponto que a oficina ganha outra dimensão: ao colocar em diálogo o ribeirinho da floresta — de onde vêm os abridores de letras — e o ribeirinho urbano da cidade.
“O encontro fortalece esse lugar onde o instituto quer estar, que é o da troca. A gente não chega só com uma técnica, mas com escuta e construção junto”, afirma Fernanda.
Voltada especialmente para mulheres da comunidade, a oficina também reflete um movimento de ampliação dentro da própria prática e de estímulo à autonomia econômica.
“A gente entende que as mulheres podem trazer novas possibilidades para a letra, seja no bordado, na costura, em outros suportes. Isso também abre caminhos de geração de renda a partir desse saber”, diz.
Programação
A programação começa com um café da manhã preparado pelas moradoras da comunidade e segue para o Curro Velho, parceiro da ação, onde acontece a parte formativa. Durante a oficina, o abridor de letras Erbson Lima de Moraes conduz o grupo por um processo que vai da sensibilização com os materiais — tintas, pincéis e suportes — até a prática da pintura.
“Parece simples, mas não é. O pincel exige cuidado, técnica, um jeito próprio de usar. Isso faz parte do aprendizado”, explica Erbson.
A maior parte do tempo é dedicada à prática, com as participantes experimentando a construção das letras a partir de uma metodologia desenvolvida junto aos próprios abridores. O processo coletivo se materializa no painel que retorna à Vila da Barca, conectando aprendizado e território.
O encerramento acontece na Vila da Barca, com um almoço preparado pela associação local — momento de convivência que prolonga o encontro para além da atividade.
Quer saber mais notícias do Pará? Acesse nosso canal no Whatsapp
Para o instituto, a ação integra um esforço mais amplo de preservação e difusão de um saber que, apesar de profundamente enraizado na cultura amazônica, enfrenta o risco de desaparecer.
“A letra de barco é uma identidade forte do Pará e da Amazônia. Sensibilizar as pessoas para a importância dela é fundamental para que esse saber continue existindo”, afirma Fernanda.
Ao reunir mulheres, território e tradição, a oficina transforma a técnica em ponto de encontro — e deixa, na comunidade, uma marca concreta dessa travessia.