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Lenine se encanta com a Ilha do Marajó e promete voltar sempre: “A ilha me pegou de jeito”

Foto: Irene Almeida – Diário do Pará

“Vocês vão ter que me aturar, porque a ilha me pegou de jeito! Eu vou ter que arrumar um pretexto para sempre vir”, falou o cantor Lenine, durante um bate-papo com Carlos Augusto Gouvêa, amplamente conhecido na região do Marajó como Tonga, proprietário da Fazenda Mironga.O bate papo rolou após o cantor participar de uma vivência conduzida por Gabriela Gouvêa, filha de Tonga, e acompanhada com exclusividade pela equipe do Caderno Você. Na ocasião, o artista conheceu a produção do queijo do Marajó, ordenhou e tomou o leite de búfala, montou no búfalo e provou um pouco da culinária local.

“Muita coisa me chamou a atenção, estou impregnado de emoções, sentimentos, fragmentos, odor, textura, sabor, é tudo uma novidade muito grande. Por isso mesmo, muito sedutor, estou extremamente seduzido por isso aqui, pela comida… agora o que que foi isso cara? Essa tapioca, meu Deus do céu! É um somatório de coisas que acontecem, tem o lance principal que me trouxe aqui, que é a música que faço e a possibilidade de levá-la para todos. Mas quando existe essa troca… Saio daqui repleto de memória, carinho e  afeto”, disse o cantor.
A tapioca que arrebatou Lenine durante a visita foi uma combinação com frito do vaqueiro, um prato tradicional da Ilha do Marajó, feito originalmente com carne de búfalo ou gado cozida lentamente na própria gordura para durar dias sem estragar, mais manteiga e queijo de búfalo e abacaxi.

Gabriela Gouvêa explica que a Vivência Mironga é feita com intuito de aproximar as pessoas do saber fazer o queijo do Marajó, que é um produto lácteo genuinamente paraense, um queijo que tem uma relação de mais de 150 anos, faz parte do hábito da cultura alimentar do Pará.

“Hoje ele (queijo) compõe não só o nosso saber, mas uma proteção jurídica através da Indicação Geográfica que garante a origem do nosso produto com a segurança do território. Aqui aproximamos isso das pessoas e também a história do búfalo, como esse animal permite conviver com o nosso meio, com os nossos em sinergia com o ambiente, com os hábitos, com a cultura do nosso povo. Então, é muito legal quando conseguimos estreitar isso, fazendo com que as pessoas possam viver um pouco da nossa rotina através da nossa experiência turística. O festival [Choro Jazz] acaba que ele se completa quando consegue estreitar o nosso povo com a arte e fazer com que esses artistas consigam entender um pouco da nossa rotina”, falou Gabriela, que ficou orgulhosa de poder mostrar a fazenda a Lenine.

“Ficamos todos ‘pavulagem’ quando conseguimos dividir isso, fazer com que pessoas que têm uma noção do mundo diferente da nossa possam incluir na sua memória o que é o Marajó, a nossa vida aqui na ilha. E ficamos super orgulhosos, ficamos muito ‘pavulagem’”, acrescentou ela.

A vivência permite mostrar ao visitante que o tempo e hábitos de quem habita a ilha são diferentes e que não são exóticos, apenas autênticos.

“Uma das grandes missões do nosso povo aqui na terra, aqui na ilha, aqui no nosso território, é fazer com que as pessoas entendam o nosso tempo, o nosso tempo diferente, os nossos hábitos são diferentes. A gente não é exótico, a gente é autêntico, é nosso, então a gente quer que as pessoas entendam um pouco disso através dos saberes, através da arte, que nós temos uma arte local, a gente tem música nossa que nos representa, então acho que esse respeito com o nosso pessoal aqui é muito legal”, disse Gabriela.

Lenine ficou encantado com tudo que viu e provou e, questionando sobre se a ilha ganhou um cantinho especial em seu coração, ele foi direto: “Já ganhou, sim. Mas já ganhou desde que pisei aqui, na vinda de barco, quando foi chegando em Soure, que maravilha, porque para mim fica muito claro que essa coisa do processo de ocupação foi completamente diferente. Foi fluvial, foi pelos rios, os rios é que são as estradas. Já foi muito impactante para mim, estou completamente seduzido”, declarou ele.
Durante a visita à fazenda, Lenine mostrou que estudou um pouco da ilha antes de chegar por lá, fazendo perguntas e dando contribuições.

“Sempre faço isso. Quando vou num lugar onde nunca fui, a primeira coisa que faço é querer saber o que se come lá, a cultura, a expressão de cada lugar, a geografia de cada lugar e as plantas endêmicas de cada lugar. Porque também me interessa muito o que se transformou como uma característica da região. Na botânica isso é especialíssimo, esse endemismo, então sempre faço essa pesquisa. Já vim aqui sabendo que vinha para um paraíso muito especial”, destacou ele.

O Nordeste e o Norte do Brasil se parecem em vários pontos culturais, mas também possuem diferenças importantes. Ambas as regiões compartilham uma forte alegria popular, festas grandiosas e uma culinária rica, mas têm origens e influências próprias. E Lenine, que é natural de Recife, no estado de Pernambuco, percebeu as semelhanças.

“Ficou evidente para mim o lance de me reconhecer, apesar do Norte, outra região, eu como nordestino me reconheci em muitas coisas aqui. Mas da mesma maneira que também me reconheço quando vou a Minas Gerais, que também provoca esse tipo de sentimento em mim. Acho que o que vejo muito da cultura nordestina, isso tem os traços de uniões das culturas que são feitas no Brasil como um todo. Mas aqui, cara, numa ilha, depois de um dia tão lindo como ontem [sábado, 29/8], com um show maravilhoso e uma experiência como essa aqui, na Mironga, não tenho muito o que falar não”, disse o cantor.

A Ilha é realmente uma terra encantada, famosa por sua cultura única, paisagens exuberantes e pela grandiosidade de ser a maior ilha marítima/fluvial do mundo. Quem visita o local fica encantado e quer voltar. O Marajó é uma das maiores fontes de inspiração da música brasileira e já foi homenageada por artistas de vários gêneros: Liniker compôs a música “Charme” após passar uma temporada de descanso e banhos de rio no Marajó; Carol Panesi também compôs Forró do Marajó e até poesia para a ilha, e o mestre Hermeto Pascoal também se rendeu ao encanto do Marajó e compôs uma canção durante a sua passagem na ilha em 2024. Será que Lenine também vai eternizar esse encantamento pela ilha em música?

“Nunca se sabe, porque o material com que trabalho para fazer as canções é a minha vivência. Então, com certeza, de alguma maneira isso já está chegando”

disse ele.

Durante a sua passagem pela fazenda Mironga e a conversa com seu Tonga, Lenine recebeu o convite para cantar e divulgar o Centro de Estudos do Búfalo, um sonho de seu Tonga. “Quando você tiver a oportunidade diga que você conheceu um velho vaqueiro, que acha que a libertação do povo só se dá através da cultura e que esse velho vaqueiro quer se unir a você para a gente divulgar a criação de um Centro de Estudo do Búfalo ou Faculdade do Búfalo para o mundo, que você venha também cantar”, disse Tonga.O cantor parabenizou o seu Tonga pela visão, pela sobrevivência na ilha e pela construção de uma história no local. “Parabéns, você construiu uma coisa muito linda. Você vai ter que me aturar, porque  vou voltar sempre”, finalizou Lenine. 

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