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Jeff Moraes transforma realeza negra amazônica em espetáculo

Depois de quase 20 anos de carreira, o artista paraense Jeff Moraes abre um novo ciclo com o espetáculo “Príncipe Negro – Uma Realeza Amazônica”. A montagem reúne música, teatro, dança e tecnologia para celebrar a existência negra na Amazônia e será apresentada nos dias 17, 18, 19 e 20, sempre às 19h, no teatro da Caixa Cultural, em Belém.

O espetáculo conta com 13 músicas, sendo oito inéditas, e percorre ritmos amazônicos e latino-caribenhos. O projeto é realizado por meio do Edital Caixa Cultural 2026.

Mais do que uma apresentação musical, “Príncipe Negro” propõe a construção de um novo imaginário sobre a negritude amazônica. Nesse universo, o trono não precisa ser uma coroa ou um castelo. Pode ser um curimbó, uma aparelhagem, uma casa de axé ou até mesmo um microfone aberto.

Da denúncia ao direito de sonhar

Há dez anos, Jeff Moraes lançou “Menino Preto”, música marcada pela denúncia do extermínio da juventude negra nas periferias de Belém. Uma década depois, a violência continua fazendo parte da realidade retratada pelo artista, mas o novo espetáculo amplia essa perspectiva.

Agora, além de denunciar, Jeff quer falar sobre os meninos negros que conseguem crescer, sonhar, criar, dançar e chegar à vida adulta.

É a partir desse olhar para a própria infância que nasceu parte da concepção do espetáculo.

“Esse show nasce quando eu começo a olhar para a minha criança. Como eu enxergo os sonhos que a minha criança tinha? Onde eu queria chegar quando estivesse na vida adulta, na vida artística? Comecei a escrever o show a partir dessas vivências.”

A ideia de realeza apresentada pelo artista também rompe com os símbolos tradicionais da monarquia colonial. O reino está nos territórios, manifestações culturais e espaços de resistência que fazem parte da experiência negra amazônica.

“Quando pensei no Príncipe Negro, fiquei pensando: que realeza eu enxergo dentro das minhas vivências amazônicas? Para quem vive o carimbó, o curimbó sentado é um trono. Para o DJ de aparelhagem, o altar sonoro é um trono, é um lugar de realeza.”

Segundo Jeff, a mesma lógica pode ser encontrada nos terreiros e nas ruas.

“Dentro de uma casa de axé, o espaço onde acontece a gira é um espaço de realeza. Na rua, um microfone aberto é um espaço de resistência, um espaço de realeza negra amazônica.”

Um novo universo no palco

A montagem representa também uma mudança na trajetória artística de Jeff Moraes. Depois de encerrar o ciclo do álbum “Tambor de Beats”, lançado em 2022, o artista passou a investir em uma proposta que vai além do formato tradicional de show.

O teatro tem papel importante nesse processo. Foi também nesse ambiente que Jeff iniciou sua formação artística, e a chamada “caixa preta” permite combinar iluminação, imagens, performances, música, dança e dramaturgia.

“É sempre especial para mim tocar no teatro porque ele me leva para essa atmosfera de espetáculo, e não apenas de show musical. Na caixa preta, você consegue brincar com luz, som, imagem, imersão, performance, teatro, balé, dança. Consegue levar as pessoas para um universo que tu quiseres.”

A criação do espetáculo conta com Viny Araújo na direção criativa, Maurício Frannco na cenografia e Sandro Santarém e Jeff Moraes na direção artística.

Repertório terá oito músicas inéditas

O repertório de “Príncipe Negro” reúne 13 músicas. Dessas, oito são inéditas e três integram “Tropicalaje”, novo EP que Jeff prepara para lançar.

O projeto representa outra etapa de experimentação musical do artista e tem produção de Félix Robbato.

As canções transitam por ritmos latino-caribenhos e sonoridades amazônicas, incluindo referências ao marabaixo e ao carimbó, além das experiências acumuladas por Jeff ao longo da carreira.

“Eu encerrei um ciclo do Tambor de Beats e agora começa um novo momento. Ao mesmo tempo em que vou lançar o Tropicalaje, que é uma experimentação rítmica diferente, estou experimentando com muita força o meu lado artístico teatral.”

Para o artista, a combinação dessas linguagens deu origem ao conceito central da nova montagem.

 “É a primeira vez que estou juntando tudo isso e criando de fato uma atmosfera, um universo. Estou criando um novo universo chamado Príncipe Negro.”

Da violência à cantiga de vida

Entre as novas composições está “Cantiga de Erê”, criada como um contraponto a “Menino Preto”.

Enquanto a música lançada em 2016 surgiu atravessada pela denúncia da violência contra a juventude negra, a nova canção olha para a possibilidade de futuro, sonho e permanência.

“Cantiga de Erê vem para ser um contraponto ao extermínio, para falar de sonho, para falar de vida, para falar dessa força que parte do tambor, mas que também pulsa dentro da gente.”

Dessa forma, o espetáculo não abandona a memória daqueles que vieram antes nem ignora as violências que atingem a população negra. A proposta é ampliar a representação e reivindicar também espaços para a alegria, o sonho, a permanência e o futuro.

 “Esse show é uma forma de exaltar todos aqueles que vieram antes, os que estão até agora batendo nesse terreno para que a gente esteja aqui. Esse show fala de vida.”

Serviço

  • Espetáculo: “Príncipe Negro – Uma Realeza Amazônica”
  • Onde: Teatro da Caixa Cultural, em Belém
  • Quando: 17, 18, 19 e 20
  • Horário: 19h
  • Realização: Edital Caixa Cultural 2026

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