A produtora cinematográfica, cientista política, mãe de dois meninos e sócia da CinemaScópio Produções, Emilie Lesclaux, é uma francesa recifense que se tornou um dos principais nomes do cinema brasileiro por conta da sua parceria profissional (e pessoal) com Kleber Mendonça Filho. O cineasta merece todo o reconhecimento por sua obra autoral e que comunica o melhor do Brasil a partir da capital pernambucana mas, como bem disse Wagner Moura durante a campanha de divulgação de O Agente Secreto, em curso desde que o filme estreou e foi premiado no festival de Cannes deste ano, o cinema de KMF não existiria sem Emilie. Sem Coração, Retratos Fantasmas, Seu Cavalcanti e Dormir de Olhos Abertos estão entre os filmes produzidos por ela nos últimos dois anos.
Em entrevista exclusiva para o DIÁRIO, Lesclaux reflete sobre a trajetória de O Agente Secreto até aqui e a caminhada em direção as indicações para as premiações da temporada, que levam até o mês de março do ano que vem com o Oscar. Mas antes, o foco está na estreia do filme no Brasil no próximo dia 5 de novembro e nos EUA também, além de França e Portugal. E como que as diferentes plateias mas em especial, o público brasileiro, vem recebendo o filme:
“Kleber como programador sempre tem muitas ideias e ele gosta de conversar sobre distribuição e sendo a Vitrine Filmes uma parceira muito antiga nossa e tendo também patrocínio para distribuição, podemos por essas boas ideias que custam dinheiro em curso. O trabalho que estamos fazendo pensa no Brasil como um todo, pois nos interessa não só fazer o circuito de festivais que estamos percorrendo a meses no mundo inteiro mas é claro que para nós o desejo maior é esse encontro com o público brasileiro, possibilitando também que o filme seja descoberto por plateias além daquelas do eixo Rio São Paulo”, assinalou Emilie, ressaltando as pré estreias que o filme teve em Recife e também em capitais do norte como Manaus e Belém (onde foi exibido no Cine Líbero Luxardo).
E em Recife, a cidade natal de KMF e personagem de O Agente Secreto, foi a primeira exibição no Brasil para o público e também para os exibidores de cinema de todo o país. “Geralmente os filmes brasileiros que estreiam em festivais internacionais estreiam num desses grandes Festivais daqui, Brasília ou Rio ou São Paulo e mudamos um pouco isso. E a Vitrine veio com essa ideia maravilhosa de levar os exibidores para Recife em vez de a gente fazer esse encontro no Sudeste como é feito tradicionalmente, então criar esse grande evento lá, com os distribuidores, trazer aproximação com todas as salas parceiras da distribuidora de Norte ao Sul do país foi uma ação incrível, que englobou um passeio por algumas locações do filme”, pontuou Emilie Lesclaux.
E por outro lado, falando da distribuição internacional que fica com a gigante NEON, ganhadora do Oscar 2025 com Anora e de quatro Palmas de Ouro consecutivas, Emilie explica um pouco como se desenha o trabalho: “O trabalho para essa campanha do Oscar não é feito apenas nos Estados Unidos, temos que ir pra muito mais lugares e várias sessões para membros da Academia [Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, AMPAS] são realizadas, então seguimos viajando muito porque desde Cannes a Neon têm grandes projetos no filme e grandes planos como a nossa primeira exibição nos Estados Unidos no Telluride que é um festival muito importante. Então é um roteiro muito intenso de viagens, de compromissos, como a sessão que já tivemos mês passado com Walter Salles apresentando o filme para alguns votantes da AMPAS; e também a nossa assessoria internacional que continua trabalhando o filme, tendo uma uma coordenação digamos entre essa assessoria internacional, a Neon e também uma troca com a Vitrine, além da Mubi que está distribuindo o filme em territórios importantes como América Latina e Reino Unido”, disse a produtora.
Lesclaux ainda ressaltou que quanto mais há uma troca entre todos os parceiros, melhor fica o desenho de distribuição já que o objetivo de todo mundo é que O Agente Secreto seja visto assim pela maior quantidade de pessoas. Sobre um possível preconceito com filmes que não são falados em lingua inglesa nos mercados da América Norte, ela acredita que filmes como Parasita e Roma ajudaram a quebrar a resistência nos últimos anos: “Acho que há uma percepção que muda também, tem cada vez mais filmes de outros países falados em outras línguas que tem uma trajetória muito interessante nessa chamada temporada de premiações e a própria AMPAS hoje é muito mais diversa também, com membros em todos os países.
Emilie Lesclaux encerra a conversa dizendo que novembro será um mês estratégico nessa campanha, com estreias no Estados Unidos, Alemanha, Portugal e França. “Iremos nos dividir em várias frentes com sessões para academia, sessões de divulgação do filme em Londres, Roma, Paris e em outros territórios e Wagner inclusive vai participar mais ativamente dessa etapa, mostrando o filme para atores e atrizes e participando de eventos”, assinalou a produtora de cinema.
Antes das viagens internacionais recomeçarem, Kleber Mendonça Filho repercute a recepção que O Agente Secreto vem tendo perante o público e a crítica brasileiros: “Tem sido muito interessante observar e receber os depoimentos das pessoas que o tem assistido. [Sobre as diferentes recepções e percepções] acho que todos nós somos testemunhas do que está acontecendo no país, na nossa rua, na nossa vida pessoal, eu não não conseguiria nunca escrever um personagem que não está ciente, que não está tentando entender o que acontece e é claro que sou eu, não há como não ser, os personagens são a combinação de muitas coisas e a quebra narrativa (no final, epílogo do filme) acho que ela faz total sentido. É brutal na verdade mas eu sou jornalista, passei muito tempo pesquisando coisas, a minha mãe era historiadora é natural pra mim pensar que uma história pode ser contada em várias camadas e ser composta de muitas narrativas – você pode começar a contar de maneira verbal, oral e aí pode pôr imagens do filme que moram na imaginação, enfim essa multiplicidade e polifonia me é muito fascinante.”
Texto de Lorenna Montenegro
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