Para celebrar o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, lembrado neste sábado (29), a FILMICCA apresenta aos fãs de música o documentário Sirens (2022), dirigido por Rita Baghdadi. A produção acompanha a trajetória da Slave to Sirens, banda de thrash metal formada exclusivamente por mulheres no Oriente Médio.
Resistência, metal e paixão
A Slave to Sirens surgiu em Beirute, no Líbano, em 2015, depois que as guitarristas Lilas Mayassi e Shery Bechara se conheceram durante uma manifestação. Ao lado da vocalista Maya Khairallah, da baixista Alma Doumani e da baterista Tatyana Boughaba, elas formaram um grupo que passou a abrir shows de nomes internacionais do metal, como Onslaught, Decapitated e Destruction.
Aos poucos, a banda conquistou espaço em casas de shows de Beirute dispostas a receber um grupo formado por mulheres e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+.
O documentário acompanha essa trajetória, mas concentra seu olhar na relação entre Lilas e Shery. Além da parceria musical, as duas mantêm uma amizade marcada por conflitos e precisam lidar com um romance que ficou no passado.
É justamente essa relação que conduz boa parte da narrativa. Em vez de transformar as guitarristas apenas em símbolos de resistência, Rita Baghdadi mostra duas artistas apaixonadas pelo thrash metal e obrigadas a continuar trabalhando juntas apesar das questões pessoais.
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Shery Bechara contou que se interessou pelo gênero por causa dos andamentos rápidos e dos vocais agressivos. A guitarrista passou a se desafiar constantemente para tocar cada vez mais rápido e pesado.
Ao redor das duas, o Líbano enfrenta um período de instabilidade. Shows são cancelados porque casas de eventos não têm autorização para receber bandas de metal, em um contexto no qual o gênero ainda é associado ao ocultismo.
A explosão do porto de Beirute, em agosto de 2020, também atravessa a segunda metade do documentário, registrada enquanto os acontecimentos ainda estavam próximos.
O filme também aborda as dificuldades enfrentadas pela população LGBTQIAPN+. A legislação libanesa mantém dispositivos utilizados para criminalizar relações entre pessoas do mesmo sexo, embora decisões judiciais já tenham apontado em sentido contrário.
Um show para quase ninguém
Uma das cenas mais marcantes de Sirens acontece justamente quando a banda alcança um dos maiores palcos de sua trajetória.
Convidada para tocar no tradicional festival de Glastonbury, no Reino Unido, a Slave to Sirens se apresenta ao meio-dia, longe do horário nobre. Diante de um gramado praticamente vazio, com cerca de 20 pessoas na plateia, as integrantes tocam como se estivessem diante de um estádio lotado.
A diretora coloca a sequência logo no início do documentário, invertendo a estrutura tradicional dos filmes musicais, que geralmente guardam o momento de consagração para o final.
O nome da banda também carrega um significado apresentado no próprio filme. Lilas afirma que “todo mundo é escravo de alguma coisa nesta vida”, citando dinheiro, guerra e sociedade como exemplos de forças das quais as pessoas tentam escapar.
Premiações
Sirens estreou na Competição Mundial de Documentário do Festival de Sundance, em 2022. A produção venceu o Grande Prêmio do Júri de Documentário no Outfest e o prêmio de Melhor Documentário no London Lesbian Film Festival.
A trilha sonora foi composta por Para One, produtor francês responsável pelas músicas de longas dirigidos por Céline Sciamma, incluindo Retrato de uma Jovem em Chamas (2019).
Banda continua na ativa
Depois do documentário, a Slave to Sirens passou por mudanças na formação. Maya Khairallah e Tatyana Boughaba deixaram o grupo, enquanto a húngara Anita Tóth assumiu os vocais.
O primeiro álbum da banda, Echoes of Silence, foi lançado em 2024, com Inge van der Zon na bateria.
Mesmo com as mudanças, a Slave to Sirens continua ativa e mantém a proposta que marcou sua trajetória: ocupar espaço no cenário do metal enquanto desafia barreiras de gênero, sexualidade e cultura.
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