Legenda da foto principal: Netinho, um dos grandes nomes do axé music, morreu nesta terça-feira (13), em Salvador, aos 60 anos. O cantor marcou gerações com sucessos como “Milla” e “Beijo na Boca”.
O cantor Netinho, um dos principais responsáveis pela popularização do axé music no Brasil e no exterior, morreu na manhã desta terça-feira (13), aos 60 anos, em Salvador, na Bahia. O artista estava internado no Hospital Aliança Star, onde enfrentava um linfoma não Hodgkin de células B, câncer que atinge o sistema linfático. Segundo a assessoria de imprensa, a doença evoluiu para falência renal e disfunção múltipla de órgãos. Dono de sucessos que atravessaram gerações, como “Milla”, “Beijo na Boca” e “Preciso de Você”, o músico deixa uma trajetória marcada pelo Carnaval baiano e pela expansão do axé para outros países.
A morte foi confirmada em comunicado divulgado pela equipe do cantor. “É com uma tristeza que corta a alma que comunicamos o falecimento do cantor Netinho”, informou a assessoria, que destacou sua contribuição artística e o carisma que o transformou em um dos nomes mais conhecidos da música baiana.
A família informou que o velório e a cremação serão realizados em cerimônias reservadas, restritas a parentes e amigos próximos, atendendo a um desejo manifestado pelo próprio artista.
Câncer voltou e agravou quadro de saúde
Netinho havia recebido o diagnóstico de linfoma não Hodgkin em março de 2025, após procurar atendimento médico devido a dores intensas nas pernas e nas costas, acompanhadas de dificuldades para caminhar.
Na ocasião, permaneceu hospitalizado por aproximadamente 25 dias e precisou cancelar compromissos profissionais, incluindo apresentações programadas para o Carnaval.
Após o tratamento inicial, o artista chegou a apresentar melhora, mas revelou, em maio de 2026, que a doença havia retornado. A recidiva exigiu novos ciclos de quimioterapia e acompanhamento especializado.
O cantor voltou a ser internado em 22 de agosto, no Hospital Aliança Star, em Salvador, onde prosseguia com o tratamento. Ele havia informado aos seguidores que estava na décima sessão de quimioterapia e que a equipe médica avaliava a possibilidade de um autotransplante de medula óssea.
Em 30 de setembro, sua assessoria anunciou o afastamento temporário das redes sociais para que ele concentrasse as energias na recuperação.
“Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei”, declarou o artista em uma reflexão compartilhada com sua equipe durante o tratamento, segundo a nota divulgada após sua morte.
De Santo Antônio de Jesus para o Brasil
Batizado como Ernesto de Souza Andrade Júnior, Netinho nasceu em 12 de julho de 1966, em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano.
Ainda criança, mudou-se com a família para Salvador, onde desenvolveu o interesse pela música. Aos 14 anos, ganhou o primeiro violão da mãe e começou a se aproximar dos palcos.
Na adolescência, conciliou os estudos com apresentações em escolas e bares, interpretando músicas da MPB e da bossa nova.
A grande oportunidade profissional surgiu em 1988, quando assumiu os vocais da Banda Beijo, grupo que ajudou a consolidar o axé como um dos principais fenômenos musicais brasileiros.
Com a banda, conquistou projeção nacional por meio de canções como “Beijo na Boca”, “Estrela Primeira”, “Barracos” e “A Vida É Festa”.
Sua presença nos trios elétricos, marcada pela energia e pela interação com os foliões, tornou-se uma das referências do Carnaval de Salvador.
“Milla” transformou cantor em fenômeno internacional
Em 1993, Netinho deixou a Banda Beijo e iniciou carreira solo com o álbum “Um Beijo Pra Você”.
O reconhecimento alcançou uma nova dimensão em 1996, com o lançamento de “Milla”, composição de Manno Góes que se transformou em um dos maiores sucessos da história do axé music.
A canção conquistou rádios, programas de televisão, festas populares e carnavais em diferentes regiões do Brasil, tornando-se presença constante no repertório de blocos e trios elétricos.
O refrão de “Milla” também atravessou fronteiras e ganhou versões em outros idiomas, ampliando a projeção internacional do cantor.
Netinho esteve entre os artistas que ajudaram a levar o trio elétrico brasileiro para apresentações no exterior. Em 1990, participou de um espetáculo no Estádio Delle Alpi, na Itália, durante a Copa do Mundo.
Em 1998, realizou cinco apresentações consecutivas no Coliseu de Lisboa, em Portugal, consolidando sua popularidade entre o público europeu.
Ao longo da carreira, também investiu na produção musical e na criação de estruturas de gravação destinadas a outros artistas.
Problemas de saúde marcaram trajetória
Antes do diagnóstico de câncer, Netinho já havia enfrentado uma grave crise de saúde.
Em 2013, o cantor sofreu complicações associadas ao uso de substâncias anabolizantes e passou por internações prolongadas. Naquele período, enfrentou acidentes vasculares cerebrais e sequelas que comprometeram temporariamente sua voz.
A recuperação exigiu acompanhamento médico e afastamento dos palcos, interrompendo sua participação no Carnaval de Salvador durante alguns anos.
Apesar das dificuldades, retomou apresentações e manteve contato com os fãs, compartilhando mensagens sobre superação e sua experiência com os tratamentos.
Nos últimos meses, preparava um projeto musical chamado “1966”, referência ao ano de seu nascimento. A proposta previa apresentações com recursos tecnológicos, incluindo inteligência artificial.
Fora dos palcos, participação na vida política brasileira.
Em 2022, disputou uma vaga de deputado federal pela Bahia, filiado ao Partido Liberal (PL). Recebeu aproximadamente 31 mil votos, mas não conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Na vida pessoal, foi casado com a jornalista Mariana Trindade, com quem teve uma filha, Bruna.
Mesmo com períodos de afastamento da atividade artística, permaneceu associado à geração que transformou o axé music em um fenômeno nacional nos anos 1980 e 1990.
Despedida reservada e legado de alegria
Em nota, a assessoria destacou a sensibilidade, o talento e a capacidade de inovação de Netinho, além da relação construída com o público ao longo de quase quatro décadas de carreira.
Durante o tratamento, o cantor também teria manifestado gratidão aos fãs que acompanharam sua trajetória.
“Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte”, afirmou, conforme declaração divulgada por sua equipe.
Por determinação do próprio artista, as cerimônias de despedida não serão abertas ao público. Até a divulgação das primeiras informações, a família não havia anunciado horários ou locais.
A morte de Netinho encerra a trajetória de um dos artistas que ajudaram a transformar o Carnaval da Bahia em referência da música popular brasileira. Suas canções permanecem ligadas à memória afetiva de milhões de foliões e à história de expansão do axé music.
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