O Auto do Círio abriu, neste domingo, 13, a programação de sua 32ª edição com um olhar voltado à preservação do patrimônio histórico, arquitetônico e cultural de Belém. O lançamento ocorreu no Instituto de Ciências da Arte (ICA), na Praça da República, e teve como um dos momentos de maior emoção a homenagem à professora emérita Zélia Amador de Deus, uma das fundadoras do projeto, que faleceu no último dia 8.
Patrimônio Sagrado e a Fé em Destaque
Com o tema “Maria, Salvai e Guardai Nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé”, o Auto do Círio retoma uma preocupação presente na origem do projeto, criado em 1993, na Cidade Velha, como uma manifestação artística que também chamava atenção para a degradação do patrimônio histórico de Belém. A iniciativa é um projeto de extensão da Universidade Federal do Pará (UFPA) e se consolidou como a ação de extensão mais longeva da instituição.
A edição deste ano propõe ampliar a compreensão sobre o que deve ser considerado patrimônio. Além de prédios, casarões, monumentos e espaços públicos, entram nessa definição as pessoas, os saberes, as manifestações culturais e as memórias que ajudam a construir a identidade da cidade. Para o diretor geral do cortejo, Ataíde Jr., a proposta está relacionada ao papel social da universidade pública e à necessidade de aproximar a produção artística da população. “É importante pensarmos na ampliação do termo, que remete a edifícios e logradouros, mas compreendermos o patrimônio através das pessoas que constroem, ocupam e ressignificam esses espaços”, afirmou.
Homenagem a Zélia Amador de Deus
Segundo ele, o tema ganha ainda mais significado diante da trajetória de Zélia Amador de Deus. “A professora participou da criação do Auto do Círio ao lado da professora Margaret Refkalefsky e do professor Amir Haddad e teve uma atuação marcada pela defesa da população negra, das políticas de cotas, da inclusão e do direito à cidade. Durante o lançamento, familiares e netos de Zélia participaram do tributo. A homenagem reconhece não apenas a contribuição da professora para a criação do Auto do Círio, mas também sua trajetória na universidade e na sociedade brasileira”.
Para o filho, Petia Oliveira, a importância de Zélia foi percebida inicialmente dentro de casa, no papel de mãe. Com o passar dos anos, a família passou a compreender a dimensão de sua atuação pública e de seu compromisso com a inclusão.
“Ela ensinou pra gente o respeito, a humildade, a empatia pelos outros e que todo ser humano é importante. Ela foi mãe de milhares e cuidou de todos, principalmente dos jovens menos favorecidos, cuidou dos negros, dos indígenas e de todas as pessoas margeadas na nossa sociedade. Ela incluiu todos e ela vai fazer a diferença pra sempre”.
Ataíde Jr. considera que a homenagem está diretamente integrada ao tema da edição. “O Auto do Círio nasceu também como instrumento de reflexão sobre a preservação da Cidade Velha e, décadas depois, volta a discutir o patrimônio a partir da memória de uma de suas próprias criadoras. O Auto do Círio foi idealizado por ela, na Cidade Velha, justamente para denunciar a degradação do patrimônio histórico local no início dos anos 90. Hoje, ao celebrarmos um espaço urbano revitalizado, honramos seu legado”, afirmou.
O reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, também destacou a importância da professora para a universidade. Segundo ele, Zélia foi uma das figuras mais importantes da instituição, especialmente pela atuação em defesa da inclusão. “O Auto do Círio, para nós, é uma síntese do que nós somos. É uma combinação entre a religiosidade do povo paraense, mas também a cultura do povo paraense, sobretudo a cultura popular”, afirmou.
Cartaz Oficial e Inscrições Abertas
Além da homenagem, o lançamento apresentou o cartaz oficial da 32ª edição. A obra foi materializada pelo artista plástico Henri Brand, a partir de uma concepção do professor-artista Néder Charone, que reinterpretou a tela “O Milagre dos Marinheiros”. A imagem estabelece um diálogo entre o sagrado e o profano e apresenta o Manto Sagrado associado a elementos que fazem parte do imaginário e da identidade paraense. Casarões históricos, a Cobra Grande, a cerâmica e o teatro aparecem integrados à representação da Virgem de Nazaré.
A composição também dialoga com a estética popular do modernismo paraense conhecida como “Raio-que-o-parta”. A proposta é apresentar Maria não apenas como símbolo de devoção, mas como figura que protege e guarda os diferentes patrimônios culturais do Pará. O lançamento também marcou a abertura das inscrições para os artistas devotos que irão integrar o cortejo. “A participação de artistas de diferentes linguagens é uma das características que fazem do Auto do Círio uma manifestação singular no calendário cultural de Belém. Ao longo de mais de três décadas, o projeto se consolidou como espaço de encontro entre universidade, comunidade artística e população, levando para as ruas manifestações que dialogam com a cultura popular e com questões sociais”, destacou Ataíde Jr.
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